Pânico e caos no funeral do “grande morto”

Num segundo tudo mudou. A multidão, antes pesarosa e solene, debandou em todas as direções, com o pavor gravado nos olhos, abandonando o Presidente assassinado. Mais mortos se lhe juntariam. Mas, o que é que provocou aquele irreprimível pânico coletivo?

21 de dezembro de 1918. O País veste-se de luto para enterrar o Presidente idolatrado que havia sido assassinado dias antes. São “dezenas e dezenas de milhares” a acompanhar o cortejo fúnebre a pé e nos incontáveis veículos que seguem o carro onde repousa Sidónio Pais. Outras tantas aglomeram-se nos passeios e às janelas, nas varandas e telhados ou pendurados nos candeeiros. É uma multidão pesarosa e aparentemente ordeira, mas também inquieta, com os nervos à flor da pele. Qualquer gatilho servirá para atear um fogo difícil de extinguir e com consequências imprevisíveis. A meio da rua Augusta, algo agita o ar. Ouve-se um estrondo indecifrável e tudo muda num segundo.

“De repente, há um burburinho, gente corre como louca”. Julga-se que é um atentado e as pessoas fogem em todas as direções. Galgam por cima dos obstáculos presentes e umas sobre as outras, numa aflição de sair dali, de se colocarem a salvo. Entram nos edifícios, trepam andar após andar. O estampido de balas disparadas não se sabe por quem ecoa nos ouvidos de todos. Há quem se atire para o chão, quem se esconda atrás de um carro, ou onde quer que seja possível encontrar proteção.

A carreta funerária ali fica, desamparada, subitamente sozinha no seu triste percurso. O caixão parcialmente coberto com a Bandeira Nacional, o rosto lívido do ilustre extinto, protegido por um vidro, antevê-se por entre as flores. Aquele que queriam ver para prestar uma última homenagem parece deixar de importar.

Todos querem salvar a sua própria pele.

Ninguém percebe bem o que aconteceu. A custo e lentamente, é retomada a normalidade. Levam-se suspeitos para a prisão e o fluxo interminável de pessoas, de todas as condições e estratos sociais, continua. De tantos em tantos minutos, soam salvas de canhão, ouvem-se clarins militares e os motores dos aeroplanos que sobrevoam a cidade. Há quem beije a fotografia do morto, que se vende a cada esquina, há gemidos, rezas. Apesar deste ser um funeral republicano, os sinos da Sé dobram e já se fala que o “grande morto” era um santo, um pai dos pobres como Cristo.

É já noite quando a cabeça do cortejo chega aos Jerónimos, segue ainda a cauda do mesmo muito próximo do local onde tudo começara, seis horas antes, junto aos Paços do Concelho de Lisboa. As ruas permanecem pejadas de crepes e bandeiras lutuosas. O ambiente continuará a um tempo soturno e frenético. No dia seguinte fazem-se balanços ao “sangrento motim da rua Augusta”: dezenas de feridos e pelo menos três mortos. Uma mão cheia de detidos para interrogatório.

Ninguém, sabe exatamente o que aconteceu, mas há várias teorias.

Suspeitas de atentados com origem em atiradores estrategicamente colocados, na casa de hóspedes do cruzamento entre a rua Augusta e da Madalena; no hotel Duas Nações, na confluência com a rua da Vitória; e no hotel Duas Nações, já a chegar ao Rossio. Houve tiros, isso é certo e, aparentemente, por entre as pétalas de flores atiradas das janelas, voou um bouquet que escondia uma bomba artesanal.

Uma câmara de ar rebentou, uma criança caiu da janela, e houve quem aproveitasse o momento para surripiar carteiras.

Sabe-se igualmente que, na confusão gerada, vários miúdos perderam-se de seus pais e aguardam que alguém os vá buscar. Xailes, bengalas, sapatos e outros objetos pessoais também estão na posse da polícia.

À margem

Entre a multidão que acompanhava Sidónio Pais à sua (pen)última morada* estavam Eulália da Silva Palma (1896-1966) e Manuel da Palma (1894-1976). O casal seguia em posições díspares. Ele, fardado, marchava espartilhado na sua posição de tenente da Marinha. Ela seguia como todos os outros, limitada pelo aglomerado denso e a tensão latente.

Talvez por isso, quando algo inexplicável aconteceu rua Augusta, fez como os demais: entrou na primeira porta aberta que viu, subiu lanços de escada e encontrou-se em casa alheia, escondida debaixo de uma cama onde já se encontrava outro fugitivo. Ali, estes dois desconhecidos esperaram que tudo acalmasse, para poderem regressar à função fúnebre.

Foi também naquele edifício que a jovem Eulália encontrou uma assustada moradora que lhe confessou ter estado na origem do caos que se instalara, momentos antes. Na ânsia de ver o cortejo, fizera cair um vaso com flores que, vindo das alturas, se estatelou com enorme estrondo no pavimento da rua.

Terá sido esta a causa próxima do relatado pânico e da debandada geral? Seria este o gatilho que fez com que outros disparassem?

Nunca saberemos se tão inocente acaso iniciou toda a confusão que aqui se conta, mas certamente as consequências não teriam sido tão funestas se os ânimos não estivessem de tal forma exaltados e os espíritos toldados pelo clima de insegurança que então se vivia.

O acontecimento marcou e foi repetido de geração em geração.

Eulália e Manuel Palma não sabiam, mas a sua união teria descendência duradoura e, cerca de um século depois, um desses frutos – uma  bisneta do casal – chegaria também alto na política nacional, como deputada, secretária de Estado e Ministra.

Mas isso é outra história…

*Sidónio Pais foi sepultado no Mosteiro dos Jerónimos. Em 1996 foi trasladado para o Panteão Nacional.

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Já aqui antes falei da morte de Sidónio Pais e das suas semelhanças com outro assassinato, ocorrido dez anos antes.

1918 foi, aliás, o ano de todos os lutos para a população portuguesa, em boa parte devido à terrível pneumónica, mas não só…

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Fontes

  • A Situação, 21.12.1918, 23.12.1918
  • Illustração Portugueza, 21.12.1918, 30.12.1918
  • Museu da Presidência da República, MPR –
  • Memórias partilhadas por Manuel Palma Lopes Correia (neto de Manuel Palma) e que me foram transmitidas por Maria Teresa Lopes Pereira. Agradeço a ambos.

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