Constituíam um dos mais deploráveis espetáculos que o nosso País, em particular a bela capital, oferecia a quem nos visitava. Várias gerações de turistas estrangeiros enojaram-se e indignaram-se com os cães famintos que pejavam as ruas de Lisboa. Tão lamentável era o seu aspeto, que houve quem lhes chamasse vampiros. Na verdade, estavam já condenados: embora parecessem vivos, eram uma espécie de zoombies vagabundos de quatro patas.

Tratava-se de fenómeno comum a outras cidades portuguesas, mas que se agudizava em áreas mais populosas. Os cães, pela enorme quantidade e o ruído que provocavam, dominavam as ruas e atemorizavam os forasteiros. A maioria, aliás, tinha um aspeto doente. Mutilados, desgraçados, alvos dos piores maus-tratos e desleixo que se possa imaginar.
Um português comum, leia-se, do povo, estava habituado à escassez de alimentos e à inexistente higiene urbana, mas quem vinha de fora ficava chocado com o que via por cá. Os relatos impressionados percorreram os séculos XVIII e XIX.

Ao receio de serem atacados, somava-se o pavor da infeção por doenças com origem nos animais, como a raiva, então muito comum.
Era um sobressalto permanente!
Charles Dumouriez, que esteve no nosso País como espião ao serviço de França, em 1766, e certamente era um exagerado, estimou em 80 mil a canzoada que infestava Lisboa. Talvez lhe parecessem tantos pelo incómodo que criavam, assustando quem os via e ladrando continuamente.

Já o médico Joseph-Barthélemy-François Carrère, que também por aqui andou, anos depois (1796), deixou-se perturbar pela quantidade e estado habitualmente faminto dos canídeos, que se agrupavam às dezenas diante dos botequins e das tabernas, “esperando o despejo dos lixos, dos excrementos, das cascas, dos ossos, das águas das lavagens da loiça”, para depois se lançarem vorazmente às imundices, “procurando saciar nelas a fome”. Eram momentos de grande violência, com os bichos a lutar entre si pelos despojos, agredindo-se e ameaçando até quem por ali passava inadvertidamente.

Em 1808, quando tomaram posse do nosso território, os franceses quiseram resolver esta questão e propuseram a eliminação de todos os cães vadios de Lisboa, sem apelo, nem agravo, e com a vantagem de a pele ficar a pertencer ao matador. Terão perecido cerca de 10 mil, sendo os cadáveres levados para as lixeiras ao raiar da manhã.
Como os invasores acabaram por abalar, os portugueses regressaram à sua habitual imundície, como bem apreciou a poetiza e escritora de viagens Marianne Baillie, que esteve neste nosso cantinho na década de 20 do mesmo século.
Também foi afetada, sobretudo com os indiscritíveis sons noturnos que se somavam ao dos inúmeros sinos de igrejas e conventos, que não a deixavam descansar.

O problema era tanto os cães de rua, como os que eram alimentados pela Marquesa que a acolheu, mas vadiavam e ganiam tanto como os outros. Percebeu, no entanto, que os canídeos tinham a nobre função de remover grande parte do lixo, aquele que conseguiam consumir, cumprindo uma tarefa que mais ninguém parecia interessado em levar a cabo.
O príncipe Felix Lichnowsky, que nos visitou e escreveu Portugal – Recordações do Ano de 1842, mostrou-se agradado por os animais já não importunarem tanto, fruto de alguns banhos de sangue que tinham eliminado uma boa quantidade. Pouco antes da sua chegada, aliás, tinham-se matado 900 em apenas uma semana.
Ainda assim, criticava os lisboetas que protegiam os cães, especialmente “os habitantes mais necessitados” dos bairros “montanhosos e elevados da cidade, gente naturalmente preguiçosa”, que usava os cachorros como verdadeiras máquinas vivas de limpeza dos sobejos da cozinha e dos despejos sanitários que, indiscriminadamente, lançavam janela fora.
Os cães, aliás, espojavam-se ao sol à espera dessas “refeições” repugnantes, que eram as únicas a que tinham acesso. De maneira, que era indispensável “passar-lhes por cima ou enxotá-los”. De noite, vagueavam sem destino, “uivando lamentosamente” e, de quando em vez, ladrando furiosamente contra os transeuntes.
Embora a “praga” estivesse atenuada, no século XIX, havia uma pessoa – o perreiro – encarregue de expulsar estes animais quando, por acaso, entravam nas igrejas. As lojas da baixa eram obrigadas a ter à porta barris com água para estes animais beberem, como bem notou Lady Jackson, que ainda os viu, em 1873.
Como o mundo sempre foi feito de grandes injustiças e desigualdades, enquanto a maioria dos cães vivia na rua, com os riscos que se descreve, uma curta e privilegiada minoria era tratada com desvelo e até luxo pelos seus donos, vivendo em suas casas, partilhando cama e mesa, como hoje é comum, felizmente, à maioria dos animais de companhia.
À margem

Se os cães eram maltratados e andavam famintos, o que se dirá dos gatos de Lisboa? Em luta desigual, perdiam sempre para os históricos rivais os despojos da sociedade. Tinham uma vantagem que era apreciada: a de caçar os ratos, pesadelo dos navios que transportavam alimentos e de quem os armazenava, já em terra. Isso, por vezes, valia-lhes um teto e os restos de uma casa.
Depois, havia os outros, os que, sendo humanos, tinham a mesma necessária, mas indesejada função de dar fim aos dejetos, como as calhandreiras, e os que, não tendo animais, eram conhecidos como “deita-gatos”, salvando objetos em louça com uma espécie de agrafos metálicos que, como garras afiadas, uniam as peças que o uso ou um momento de descuido tinham quebrado. Tal como os animais que lhes deram nome, calcorreavam as ruas em busca de sustento.
Mas isso é outra história…
Fontes
- Marianne Baillie, Lisbon in the years 1821, 1822 and 1823, Londres, John Murray, 1824. Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, em linha:
https://purl.pt/23495
- Príncipe Felix Lichnowsky, Portugal, Recordações do ano de 1842, Coleção Portugal Visto Pelos Estrangeiros, Lisboa, Edições Ática.
- Fernando Teigão dos Santos e Pedro Costa, A Lisboa Subterrânea na Colina dos Hospitais – Roteiro das Águas Livres de Campolide ao Intendente, Lisboa, Caleidoscópio, 2021.
- Maria José Oliveira, O lixo e os vagabundos: os cães cantoneiros de Lisboa, Mensagem de Lisboa: O lixo e os vagabundos: os cães cantoneiros de Lisboa – Mensagem de Lisboa
- Como os cães chegaram a Portugal, O Observador, Como os cães chegaram a Portugal – Observador
- Quando é que começámos a ter animais de estimação? – Observador
Imagens
- Jorge Joubert, Museu da Cidade
- Francisco Luiz Ameno, 1781, No dia internacional… – Palácio Nacional de Mafra, Portugal | Facebook
- Arquivo Municipal de Lisboa
- José Artur Leitão Bárcia, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000081
- Machado & Souza. Fl. 1896-1908, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/FAN/000740
- O “DEITA-GATOS” – PORTUGALd’antigamente



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