Segredos do cemitério

os desafortunados irmãos Chaves

Uma misteriosa e muito antiga campa do cemitério de Alcácer do Sal foi o ponto de partida para descobrir um relato de tristeza e saudade, como tantos que estes espaços encerram. Esta é a história de Maria Isabel e José, que a doença levou demasiado cedo.

A pedra, gasta e manchada poucas pistas fornecia para deslindar o mistério. A data – 1847 – era o único elemento destacado e facilmente identificável. Da longa mensagem gravada, apenas se entendiam algumas palavras: “dois jovens”, “tristes pais”. Quem seriam?

Foi preciso “mergulhar” nos registos paroquiais de Alcácer do Sal para encontrar mais informação sobre o infortúnio desta família. Por sorte, naquele ano, não se encontraram mais casos de irmãos que tivessem morrido num curto espaço de tempo, pelo menos não nas famílias abastadas – que teria de ser o caso, dada a imponência do monumento funerário.

O número de óbitos assinalados como pertencendo a “menores” era, no entanto, avassalador, preenchendo páginas e páginas dos livros, quer em Santa Maria, quer em Santiago.

Percebe-se com alguma facilidade quando os assentos falam de pessoas pobres ou, pelo menos, pouco consideradas na escala social. Têm nomes curtos, apenas um apelido ou mesmo nenhum.

Pelo contrário, as anotações sobre indivíduos com “posição”, ostentam diversos sobrenomes. Quando se referem a uma mulher, normalmente utilizam a abreviatura “D.” – “Dona” e os homens são mencionados com referência à profissão ou título. Esta distinção, justa ou não, acaba por ajudar na pesquisa.

O resto dos dados seguem de acordo com o zelo ou o desleixo do pároco que os escreveu, pelo que podem ser muito pormenorizados ou, pelo contrário, o mais simplificados possível.

Foi assim que chegámos a Dr. Pedro Paulo de Carvalho Chaves e D. Maria José da Costa Chaves. Nesse trágico ano de 1847, perderam Maria Isabel a 9 de abril, de “enfermidade”, como teve o cuidado de assinalar o prior de Santiago, José Cândido de Aguiar.

Esta desgraça não veio só. Três meses depois, a 17 de julho, partia José, filho dos mesmos pais. Tal como a irmã, foi sepultado no cemitério geral da vila. Neste caso, ficamos sem saber se a causa da morte também foi doença, porque o mesmo padre não o menciona.

Algumas respostas acabaram por estar na sepultura inicial, que afinal tinha outra face onde o casal tinha mandado inscrever uma homenagem aos filhos. Quase 180 anos depois, era igualmente difícil de decifrar.

Com alguma persistência percebemos que Maria e José eram os seus únicos descendentes. Ela tinha 19 anos e guardava “no coração o sentimento religioso donde emanavam as virtudes que faziam a felicidade doméstica”. Ele, a partir da idade de três anos, “começou a desenvolver uma inteligência rara que a todos fazia admirar”. Morreu aos 7. Foram levados ”quase ao mesmo tempo”, de doença.

Explicam que aquele monumento “não é dedicado a vaidade, mas sim à sua saudade e amor fraternal”. Estes “tristes pais, desafortunados” declaram respeitar e de forma submissa obedecer a esta desventura, pois foi decretada por Deus.

Imagina-se que, ao contrário da maioria, com pai médico, terão tido a melhor assistência possível, mas de nada lhes valeu.

Não temos forma de saber qual foi a moléstia que atacou Maria Isabel e José. Eram muitas as que, por aqueles tempos, ditavam a mortalidade infantil, a maioria hoje inofensivas devido ao desenvolvimento das vacinas. Há a possibilidade, no entanto, de ter sido tifo ou varíola, já que ao País sofreu vagas destas doenças, mas também de cólera. Por outro lado, a tuberculose esteve presente durante todo o século XIX e início do século XX. Todas foram causa de morte para muita gente.

À margem

Quem eram Pedro Paulo de Carvalho Chaves e Maria José da Costa Chaves? Não vos vou maçar com as voltas que foi necessário dar para conhecer um pouco do percurso deste casal. Deixo apenas alguma informação recolhida. Nascido em Condeixa-a-Nova, ele era médico e veio jovem exercer em Alcácer do Sal, casando com uma menina da terra. Ela era filha do lavrador José da Costa Passos e de sua mulher, Gertrudes do Céu, ambos de São Romão do Sadão.

Filho de outro médico, aliás, ilustre e autor de diversas obras publicadas, Pedro Paulo terá chegado a Alcácer do Sal com cerca de 30 anos de idade, após ter terminado os seus estudos, em Coimbra. Rapidamente se terá integrado na sociedade local, o que era facilitado pela sua profissão e imagem de pessoa de “boa conduta” que granjeou.

Foram casar à terra de origem de Maria José e tiveram como testemunhas os ilustres António de Matos, cavaleiro da Ordem de Cristo e da de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e Francisco Manuel de Campos Carvalho Pacheco, provedor da Comarca, ambos moradores em Alcácer do Sal.

Por aqui terão vivido toda a vida, porque se sucedem registos da sua presença, sobretudo dele, pois as mulheres raramente apareciam mencionadas. Pedro Paulo de Carvalho Chaves continuou a exercer medicina, sendo “médico do partido” da vila (uma espécie de autoridade, que pode ser equiparado à posição de delegado de saúde). Era respeitado e, talvez por isso, foi nomeado diversas vezes na lista de substitutos do juiz da comarca.

Terá adquirido as herdades do Rosal e da Vargem da Mó, pois a isso se propôs em 1839 e é já a mulher, provavelmente por sua morte, que aparece, muitos anos depois, como detentora da primeira e ainda dos Pomares de São Romão.

O ano de 1847, tão trágico para a família Chaves, foi de grande tumulto em todo o Pais, a braços com mais uma guerra civil. Foi aliás essa a causa de um terrível tiroteio que durou cinco horas e fez pelo menos 19 mortos, no dia 8 de fevereiro.

Mas isso é outra história…

Fontes

  • http://www.tombo.pt
  • Arquivo Distrital de Setúbal, Registos paroquiais, Concelho de Alcácer do Sal, Santiago, óbitos, PT-ADSTB-PRQ-PASL03-003-00006,
  • Arquivo Distrital de Setúbal, Registos paroquiais, Concelho de Alcácer do Sal, Santa Maria do Castelo, batismos,  PT-ADSTB-PRQ-PASL01-001-00016
  • Arquivo Distrital de Setúbal, Registos paroquiais, Concelho de Alcácer do Sal, São Romão, casamentos, PT-ADSTB-PRQ-PASL09-002-00005
  • Arquivos da Universidade de Coimbra, em linha:
  • República Digital
  • Relação dos estudantes matriculados na Universidade de Coimbra – Alma Mater
  • Biblioteca Nacional de Portugal, em linha:
  • José Manuel Chaves – escritos
  • Biblioteca Nacional de Portugal
  • Diário do Governo Digital
  • DIGIGOV
  • Diário do Governo, 28.03.1832, 31.05.1836, 11.10.1841, 12.01.1843, 19.03.1845, 15.02.1847, 28.02.1842,  13.10.1876, 11.09.1885,
  • Sucinda Rocha, Elites Políticas e Sociais e o Governo de Alcácer do Sal 1774 – 1834, Alcácer do Sal, Câmara Municipal de Alcácer do Sal, 200

Imagens

  • Cristiana Vargas
  • Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

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