Instantâneos (131): entre eclipses banais e cometas ameaçadores

Há 114 anos, os portugueses também andavam de nariz no ar para ver o sol a ser misteriosamente coberto perante os seus olhos. Apesar de ter suscitado muita curiosidade, longe iam já os tempos em que o povo se deixava impressionar ou atemorizar com tais fenómenos, até porque outros dois eclipses tinham sido visíveis na Península Ibérica desde a entrada do século. Algo corriqueiro, portanto. Nada como passagem do cometa Halley, que, em 1909, tinha feito temer pelo fim do Mundo.

Apesar de tudo, em Lisboa e, sobretudo, na zona Norte e Centro do País, as pessoas concentraram-se no exterior, para observar o prodígio aguardado. Na época não se fizeram apelos ou se desfiaram recomendações alertando para os riscos de olhar diretamente para o sol, mas algumas pessoas usaram vidros fumados. De pouco lhes deve ter valido, porque tinham até a testa e o nariz corados pelo contacto com a luz forte que emanava do grande astro, à medida que era obscurecido, a meio da manhã.

Ovar era onde se previa maior cobertura, pelo que, a 17 de abril de 1912, muitos rumaram àquela localidade, também a Penafiel e Vila Meã. Do estrangeiro vieram estudiosos e fizeram-se apostas sobre quem tinha os cálculos mais exatos sobre a hora a que se daria o fenómeno e o local onde seria mais expressivo. Como em outras disputas, ganharam os americanos.

Em Lisboa, embora não se esperasse grande espetáculo, buscavam-se esclarecimentos, no observatório astronómico da Ajuda e no Observatório Meteorológico do Infante D. Luís. No Porto, houve fábricas que suspenderam atividade e as pessoas reuniram-se na zona do Palácio de Cristal, Serra do Pilar e Fontaínhas, sempre em busca do melhor panorama. De brinde, assegurou-se que o planeta Mercúrio ficou nitidamente visível durante minutos.

Tudo está bem, quando acaba em bem. O eclipse passou, sem susto, mas o tema foi explorado pelos jornais, lado a lado com uma verdadeira catástrofe, essa sim chocante, embora tivesse ocorrido bem longe daqui. Davam-se as primeiras notícias sobre o naufrágio do grande colosso Titanic, ocorrido no dia 15 desse mesmo mês, mas ainda sem se perceber a sua verdadeira dimensão.

Em 1912, já com a República implantada, faltaram as ameaças imaginárias que dominaram, em maio de 1909, a passagem do Halley. Essa, sim, provocou verdadeira comoção entre os Portugueses, até porque tinha sido “anunciada” por um grande tremor de terra e gigantescas cheias, logo no início do ano. Diziam os mais alarmistas, que não estava afastada a hipótese de o cometa provocar a asfixia e o fim do planeta Terra, tal como o conheciam. No final, a montanha pariu um rato e Portugal regressou à sua vida quotidiana, por aqueles tempos, bem mais tumultuosa do que nos dias que correm.

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

  • O Occidente, 08.04.1912, 20.04.1912
  • A Illustração Portugueza, 08.04.1912
  • A Capital, 16.04.1912, 17.04.19
  • Paula Gomes Magalhães, Belle Époque – A Lisboa de finais do séc. XIX e início do séc.xx, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2014.

Imagens

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

  • Colecção Ferreira da Cunha
  • PT/AMLSB/EFC/001042
  • PT/AMLSB/EFC/001037

  • O Occidente, 20.04.1912
  • A Illustração Portugueza, 08.04.1912

Já aqui antes falei de outros estranhos fenómenos….uns mais destrutivos do que outros.

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