Poderá algo tão efémero como flores deixar uma impressão tão duradoura que permaneça mais de um século após a morte do seu criador, cujo nome já ninguém conhece? Em Almada, quem passa na rua Rosas do Pombal decerto nunca ouviu falar do cultivador dessas famosas rosas e ignora que a fama destas rivalizava com as outras preciosidades que saiam das suas mãos.

Foi uma das mais notórias figuras de Lisboa em finais do século XIX. Tão capaz de importar e produzir finos objetos de ourivesaria, relógios cravejados de pedras preciosas e pérolas de exótica origem e artigos de enorme delicadeza, como de desferir murros temidos e demolidores. Plantier era um pacífico, mas irritava-se com facilmente, especialmente quando a idade e a saúde o começaram a trair.

Homem de muitos ofícios, Paul Henry Plantier* (1840-1908) tinha estabelecimento firmado na rua do Ouro e sempre novos projetos entre mãos. Prosseguiu os negócios de seu pai – editor, relojoeiro – e somou-lhes outros tantos interesses. Era um gastrónomo “encartado”, autor do conhecido “O cozinheiro dos cozinheiros”, tradutor e fotógrafo, para além de relojoeiro, ourives e inventor de rosas imortais e vinhos premiados.
Um artista em diferentes equações, um homem bom embora fervesse em pouca água.

Se a sua loja era ponto de encontro de intelectuais, escritores e jornalistas ou meros conversadores de circunstância, a sua quinta do Pombal, na outra margem, ali a caminho da Cova da Piedade (Almada), era um santuário da jardinagem.
Era onde cultivava as suas rosas, as mimava, protegia, selecionava e misturava, sempre em busca da flor perfeita.
Chegavam às braçadas, ainda frescas, a Lisboa, e eram uma das maiores atrações das suas montras. Soberbas, grandes, opulentas, maravilhosas, aromáticas e lindas! Não admira, portanto que tenham sido ofertadas a verdadeiras celebridades, como a atriz Sarah Bernhardt, as cantoras Adelina Patti e Emma Nevada, aquando das suas apoteóticas passagens por Lisboa.
As rosas do Plantier eram verdadeiras estrelas planetárias, motivo de inveja e devoção. E, ele até era generoso na sua distribuição, entre amigos e clientes, decorando com elas mesas de banquetes, palcos e também um número elevado de caixões dos que lhe eram chegados e viu partir.
Na sua quinta do Pombal dava também festas onde figurava a fina flor da sociedade e se provavam requintados pitéus, confecionados pelo próprio e por companheiros célebres.

Não deixa de ser curioso que, sendo editor e ourives, homem de tantos e reconhecidos atributos, tenham sido as rosas a ficar na memória coletiva com maior vigor.
Mais curioso se torna saber que este não foi único Plantier figurar na história destas flores.

Esse “outro” é Jacques Plantier, que, em 1835, batiza em homenagem à sua mulher, Charlotte, um cruzamento bem-sucedido de rosa Alba e rosa Moschata. A Madame Plantier, também referida como a rosa das noivas, é um arbusto com uma floração numerosa e quase sem espinhos. É conhecida por se adaptar a climas com invernos rigorosos, como o russo e, por isso, ainda muito usada em jardins por todo o mundo. Terá esta história servido de inspiração ao “nosso” Plantier?

*(ou Paulo Henrique Plantier, visto que, embora de ascendência francesa já nasceu em Portugal, de mãe portuguesa).

Fontes
- Os pontos nos II, 28.07.1888
- Brasil – Portugal, 16.06.1908
- Revista de Horticultura, 1876-1879
- Almada virtual: Rosas do Pombal
- Cacilhas da minha “janela” | QUINTA DO POMBAL | Facebook
- Restos de Colecção: Paul Plantier – Relojoeiro, Livreiro, etc.
Imagens
- Os pontos nos II, 28.07.1888
- Brasil – Portugal, 16.06.1908, 01.07.1908
- O Occidente, 11.03.1888
- Almanach Bertrand, 1903
- Issued by Goodwin & Company – White Rose (Rose, Madame Plantier), from the Flowers series for Old Judge Cigarettes – The Metropolitan Museum of Art
- Placa de impressão cromolitografia antiga original 1902 Amostra de viveiro botânico Flor única Floral Rosa Beleza americana Madame Plantier #A – Etsy Portugal
- Madame Plantier — Wikipédia
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