António de Campos Valdez era um hábil negociador e tudo fazia para trazer benefícios para a sua terra. Em 1883 convenceu a Junta Geral do Distrito a comprar a ponte que a Câmara Municipal de Alcácer tinha construído. O problema é que, meses depois, a estrutura estava derrubada e o Estado ficou sem dinheiro e sem aquela importante ligação entre o litoral e o interior.
Passaram-se décadas até que estivessem reunidas as condições – leia-se, as verbas necessárias para a construção de uma muito desejada ponte sobre o Sado, em frente a Alcácer do Sal. Pelo menos desde 1861, essa obra surgia na listagem de projetos a desenvolver, mas é só em 1875 que, não avançando o Estado, acaba por ser a câmara municipal, então liderada por António Caetano de Figueiredo, Visconde de Alcácer, que lança concurso para a sua execução. Muito menos durou a referida ponte, até que as águas a levassem.
Em 1872 já havia autorização, mas não dinheiro. Dois anos depois, dá-se “luz verde” para que a câmara possa “desviar” um montante de 2 contos e 500 mil réis do Fundo de Viação Municipal para levar a sua pretensão por diante. A estes, somou-se um empréstimo que pagaria ao longo dos anos.

Entretanto, o condutor de trabalhos Henrique Sabino dos Santos elabora o projeto, que é aprovado pela Junta Consultiva de Obras Públicas e cravam-se estacas nos locais exatos onde a travessia deveria encontrar as margens. A ponte arrancaria do sítio denominado praia do Cabo da Vila e cortaria perpendicularmente o Sado até ao sítio de Santana.
Seria em metal, com tabuleiro em madeira, razão pela qual a câmara tinha solicitado a dispensa do pagamento de impostos sobre o ferro que fosse necessário importar para este fim. A madeira, essa, supõe-se que seria proveniente dos pinhais locais de onde, aliás, eram levadas muitas árvores para obras em todo o País. Como ainda hoje acontece, a construção seria adjudicada a quem a fizesse por menos investimento.

A obra ainda não estaria concluída em 1878, porque nesse ano, já com António de Campos Valdez como presidente do município, a verba é reforçada com 3 contos de réis do mesmo fundo, composto por valores arrecadados de taxas e impostos diversos recolhidos em cada concelho, com o fim de subsidiar a muito insipiente rede viária nacional.
Desconheço quando é que a obra ficou concluída, mas em 1883 já a câmara cobrava uma portagem a quem ali atravessava.
Ora, nesse ano, o mesmo António de Campos Valdez (na imagem), delegado à Junta Geral do Distrito, apresenta uma proposta extraordinária. Defende que aquele organismo deve adquirir a ponte por 14 contos de réis.
Só assim, defendia, se tornava possível deixar de se cobrar portagem e garantir as manutenções necessárias na ponte, que unia duas importantes estradas, assegurando a ligação entre o interior e o litoral.

Parece uma ideia estapafúrdia, mas o que é certo é que foi aceite pela maioria dos procuradores à Junta Geral. Houve apenas uma voz dissonante: o representante de Azambuja, que entendeu ser este um negócio “que resultava em grandes vantagens para o Município de Alcácer do Sal” e que, a bem da igualdade, se deveria então adquirir todas as estradas que, ao longo do tempo, haviam sido executadas pelos concelhos, indemnizando-os principescamente, como se estava a fazer com a câmara alcacerense.
Apesar desta opinião contrária, também o governo aprovou a aquisição da ponte.
Ninguém esperava que, meses depois desta discussão e após dois invernos especialmente rigorosos, a ponte de que tanto se falou fosse por água abaixo.
A 9 de julho de 1884, os jornais noticiavam que a travessia tinha abatido, “encontrando-se grandes fendas na terra a alguma distância da ponte”, essa mesma que, diziam, tinha sido paga na quase totalidade pelos habitantes de Lisboa e adquirida sem que se soubesse ao abrigo de que lei. A Junta Geral do Distrito ficava, assim, sem ligação entre o litoral e o interior e sem os 14 contos de réis.

Os alcacerenses, esses, não ficaram melhor. Perderam a passagem e, nesse ano, a quase totalidade das culturas ficaram destruídas. As “contínuas chuvas” tinham “causado grandes prejuízos aos lavradores”, especialmente “aos da Ribeira do Sado e de Santa Catarina, por lhe terem inundado as vargens”. Alguns ficaram sem duas sementeiras seguidas e os campos estavam em tal estado que já não podiam ser trabalhados, porque era já muito tarde e não havia recursos para isso. A miséria era ainda maior porque este tinha sido o segundo ano com esta realidade: campos alagados durante meses e colheitas arrasadas.
Novas estradas e edifícios mudam a face a Alcácer do Sal
As últimas duas décadas do século XIX foram de grande azáfama construtiva, especialmente no que concerne à rede viária. Avançavam ao mesmo tempo as estradas entre Águas de Moura e Alcácer e daqui para Montemor-o-Novo, com passagem por Santa Susana. Decidida foi igualmente a construção da estrada entre Torrão e Alcáçovas. Estas obrigaram também à edificação de um conjunto de obras de arte, vulgo, pontes e viadutos, sobre as ribeiras de São Martinho, Marateca e sobre o Xarrama.
A então Estrada Distrital 90, mais tarde EN5, entra em Alcácer do Sal e faz logo estragos, pois as movimentações de terras puseram em risco de ruir o muro do cemitério, que teve se ser reconstruído.
Foi também por esta altura que se verificaram grandes mudanças na praça da Vila. Construiu-se um grande e novo edifício dos Paços do Concelho, no local onde ainda se encontra e antes existia uma estalagem. Em frente, substituindo vários pequenos imóveis, entre os quais a antiga “casa da câmara”, surgiu uma nova cadeia comarcã.
Começa também a estruturar-se aquela que viria a ser a avenida marginal João Soares Branco.
A nova ponte, para substituir a que caíra, sofreria muitos avanços e recuos e só avançaria já com o século XX em andamento. As movimentações locais para incentivar a sua construção mobilizaram os mais importantes da terra e, claro, António de Campos Valdez estava entre eles.
Mas isso é outra história…
Fontes
- O Economista, 02.05.1882, 26.05.1882, 27.05.1882, 30.05.1882, 10.06.1882, 21.06.1882, 19.09.1882, 15.11.1882, 29.11.1882, 22.04.1883, 09.05.1883, 18.05.1883, 20.05.1883, 31.05.1883, 16.06.1883, 19.12.1883, 10.01.1884, 30.01.1884, 27.04.1884, 04.05.1884, 09.07.1884, 20.06.1884, 16.10.1885, 03.01.1886, 19.01.1886, 30.03.1886, 01.04.1886, 25.03.1887, 13.04.1887, 02.07.1887, 05.06.1887, 06.11.1887, 30.11.1887, 20.02.1889, 25.04.1889, 30.04.1889, 11.05.1889, 26.07.1889, 28.07.1889.
- Diário do Governo, 27.04.1878 e 08.05.1878.
- Diário Illustrado, 16.11.1879.
- O Alcacerense, 01.07.1888, 18.11
Imagens
- Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
- Arquivo do Museu de Marinha



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