Crónica policial (10) O último quadro de Josefa Greno

Lisboa, 26 de junho de 1901

Um crime sensacional! Foi com este título que o Diário Illustrado captou a atenção dos seus leitores para um acontecimento que tinha pouco de excecional, mas muito de triste, naquele início de verão, em Lisboa. Uma senhora, “movida pelos ciúmes”, aproveitado enquanto o marido dormia, desferira sobre ele quatro tiros de revólver, matando-o. Tudo tinha acontecido na travessa de São Mamede. Criminosa e vítima não eram anónimos cidadãos da capital, mas sim ilustres e talentosos artistas, que não voltariam a criar obras-primas.

Estávamos a 26 de junho de 1901 e os jornais davam espaço à visita da família real aos Açores e à Madeira, à crise vinícola, para além dos casos de polícia quotidianos. Josefa Greno, a assassina confessa, e Adolfo César de Medeiros Greno, o marido morto aos 47 anos (na próxima imagem), entravam de rompante neste espaço noticioso, onde antes figuraram como pintores de mérito.

Em abril já tinha havido uma ameaça a que ninguém parecia ter prestado atenção.

Josefa tentara atingir o companheiro, mas falhara a pontaria. Comprou nova arma e não voltaria a errar.

Muitos apressaram-se a dizer que sofria de alienação mental, excitação cerebral e outras perturbações que explicavam ter acabado com a vida do homem com quem dividira a existência por 25 anos.

Mas, as declarações da criminosa mostravam outra coisa. Uma premeditação determinada e meticulosa e um grande desespero, acumulado ao longo do tempo em que trabalhara sem descanso e Adolfo nada fazia, entregando-se ao ócio e a outros amores.

Os problemas teriam começado ainda em Paris, para onde o casal rumara à custa de uma bolsa que ele ganhara, em consequência do inegável talento demonstrado e que, por desleixo, perdera em 1881.

Rapidamente, ela percebeu que teria de suprir as despesas de ambos e fez-se artista também. Sem formação, mas com o ímpeto de quem precisa de sobreviver, o dom revelou-se e foi aclamado pela crítica.

Tanto agradou, que se duvidou que a autora fosse uma mulher.

Expôs muito e vendeu ainda mais, trabalhando sem descanso, cultivando flores nos quadros e conhecimentos importantes, como o muito exclusivo Grupo do Leão, onde foi aceite.

Enquanto ela crescia, ele deixou de criar. Semeava ressentimento e dívidas. Uma guerra surda nasceu entre ambos.

Matar foi a saída para esta armadilha. Mas, encurralou-a noutra.

A Academia e a Sociedade Nacional de Belas-Artes esteve em peso no enterro de Adolfo. O caixão cobriu-se de lindas flores. Belas como as que Josefa se especializou a reproduzir na tela e que o delegado do Ministério Público quis analisar, talvez em busca de respostas, não satisfeito com as justificações que a pintora deu, em sucessivos interrogatórios. Os peritos, entre os quais o célebre Miguel Bombarda, não tiveram dúvida e rapidamente a internaram no manicómio, proibindo-lhe as visitas.

Sete meses depois seria o mesmo Miguel Bombarda a fazer a autópsia ao seu corpo cansado. No mesmo jornal que noticiava a morte da artista, dois folhetins davam o mote para a tragédia: o capítulo Redenção, das aventuras de Rocambole (Ponson de Terrail) e Ódio de Amor, de Daniel Lesueur, pseudónimo masculino adotado por Jeanne Lapauze, poetisa e escritora francesa para se impor num mundo dominado por homens. Rocambolesco, de facto.

Nota

Nota: os dois retratos são Josefa Greno vista pelo marido, Adolfo.

As naturezas mortas são criações de Josefa.

O quadro de grupo é Concerto de Amadores, de Columbano Bordalo Pinheiro. Josefa Greno, diz-se, é a mulher ao centro, na penumbra.

Fontes

Imagens

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