Sozinho, deficientemente armado e pouco ágil, de tão carregado com as maiores riquezas que se podiam obter no Oriente. O galeão Santiago aparentava ser presa fácil para as naus holandesas que o intersetaram na ilha de Santa Helena. O Capitão-Mor, António de Melo de Castro, não se renderia facilmente, preferindo lutar até às últimas consequências, assim o tivessem deixado os que, temendo afogar-se pelos muitos rombos já feitos no casco, se quiseram entregar aos atacantes.
Os assaltos de embarcações estrangeiras eram um risco a acrescentar ao enorme conjunto de desafios enfrentados pelos portugueses que faziam a Carreira da Índia. Durante cerca de um século, tivemos o quase exclusivo da rota do Cabo, mas no dealbar do século XVII, aquelas águas eram já um formigueiro de viajantes ávidos de especiarias e outros tesouros, dispostos a arriscar muito por um bom quinhão, comprado ou pirateado.
No início de 1602, o acaso e o facto de ser obrigatória a escala na ilha de Santa Helena, escreveram a desgraça do “Santiago”. O general Cornelius Sebastianus viu a sua tomada como a única forma de rentabilizar a expedição pouco satisfatória da sua flotilha holandesa, com três naus “bem municiadas e excelentemente dispostas para pelejar”.

Um disparo inicial alegadamente da responsabilidade dos portugueses, foi a justificação ideal para o combate que se seguiu e que o capitão-mor do galeão, apesar de estar em desvantagem, quis travar.
Rapidamente se percebeu que o nosso navio, embora franzino, tão pesado estava que pouco se conseguia manobrar e ainda mais dificilmente lograria fugir, o que nunca foi a vontade de António de Melo de Castro. Tinha por missão defender o valioso carregamento, custasse o que custasse, e estava determinado a tal.
Imensa pimenta e fardos de carga diversa também tinham obrigado ao deficiente arrumo da artilharia, ditando a fraca capacidade de fogo do navio. A esperança dos nossos era a abordagem e a luta corpo a corpo, na qual, tinham certeza, venceriam.

Horas de contenda, no entanto, resultaram em volumosos danos causados pelos canhões holandeses no casco do navio português. A água entrava já a rodos, as bombas de escoamento estavam entupidas com especiarias, o mar estava bravo e os porões tão cheios que os calafates não conseguiam remendar esses estragos.
No “Santiago” era o desespero total para as cerca de 300 pessoas a bordo. Só o Capitão-Mor se mantinha sereno, não se deixando enfraquecer sequer com o grave estado do seu filho, ferido na batalha.
Temendo morrer, um grupo de amotinados resolveu render-se ao inimigo, deixando até entrar alguns holandeses. O colapso iminente, no entanto, também foi pressentido pelos agressores, que rapidamente abalaram, levando apenas António de Melo de Castro e os que lhes ofereçam pedras preciosas e outros bens de importância.

Quem ficou para trás, gritou, chorou, rogou a Deus e aos céus. Alguns, na aflição, atiraram-se ao mar e morreram antes de tempo. Mas, contra todas as previsões, o Santiago, agora totalmente esventrado, mantinha-se à tona, dia após dia.
Terá sido resultado das preces ou uma ironia do destino, mas com a pacificação do mar foi possível, deitando mais fazenda borda fora, à custa de força braçal e do inesperado funcionamento do sistema de bombagem, secar os porões ao ponto de os calafates poderem trabalhar.
Os atacantes sentiram então mais confiança para tomarem posse da sua presa e arrastaram-na até às ilhas de Fernando Noronha.
Ali, no meio do oceano, os derrotados foram maltratados e minuciosamente revistados para que nada de valor pudessem ter consigo, sinal da mesquinhez de “pirata formigueiro” e herege, que fez chacota das imagens de santos que os nossos traziam e às quais eram devotos. Para os holandeses, apenas os preciosos produtos tinham importância.
O galeão foi consertado para poder ser levado, os sobreviventes foram deixados à sua sorte. Com tempo, fortuna e engenho, construíram um barco que os levou até ao continente, onde puderam avisar as autoridades, que ainda conseguiram resgatar a maioria dos náufragos.
Toda esta triste aventura resultou na perda de 40 portugueses. Tão rico e volumoso era o carregamento inicial com que tinha saído de Goa no dia de Natal de 1601, superior ao transportado pelo conjunto de duas naus, que o saldo foi positivo para os salteadores holandeses, mesmo com tanta carga alijada. O Santiago foi um fantástico troféu, o primeiro navio da Carreira da Índia a perder-se desta forma, num sucesso que abriu as portas a outros ataques do mesmo género.
Aqueles mares deixaram de ser só portugueses.
À margem
Tanto Santa Helena, como Fernando Noronha (ou Loronha, na origem) foram ilhas descobertas por navegadores ao serviço da coroa portuguesa, respetivamente por João da Nova, cerca de um século antes da trágica batalha em que o galeão Santiago se envolveu; e por Fernão de Loronha, também cerca de 1502. Situadas em pleno oceano, passaram a ser importantes, embora em circunstâncias diversas.
Fernão de Loronha, antes batizada Quarema e São João, foi entregue por mercê a este cristão-novo que lhe deu nome e acabaria por se notabilizar na exploração do pau-Brasil. Mais de 400 anos depois, esta ilha seria fundamental no projeto de outros ilustres portugueses – Cago Coutinho e Sacadura Cabral – que ali fizeram escala para trocar de avião na sua épica travessia do Atlântico Sul.
A localização estratégica de Santa Helena também a tornou famosa. Foi a viagem de Garcia de Noronha que a colocou no mapa e a tornou numa escala obrigatória para os navios que faziam o regresso, na Carreira da Índia, tornando-se, por essa razão, local de grande movimento e atividade de pirataria.
Enquanto Fernão de Noronha pertence hoje ao Brasil (Pernambuco), a segunda, como nunca foi colonizada pelos portugueses, acabaria por ir parar a mãos inglesas, já no século XIX. Faz parte de um remoto conjunto de ilhotas que, embora britânicas, englobam duas que prestam homenagem aos portugueses que as descobriram, Tristão da Cunha e Gonçalo Álvares. Tão longínquas são que fazem parelha com outra cujo nome é bem expressivo desta condição de insularidade extrema: a ilha Inacessível.
Mas isso é outra história…
Fontes
- Quadros da História Trágico-Marítima, seleção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa, 4ª edição, Textos Literários, Lisboa, Gráfica Santelmo, Lda, 1963.
- A Captura do Galeão Santiago em 1602, André Murteira, in Armas, Fortalezas e Estratégias Militares no Sudeste Asiático – I, Revista de Cultura nº26, 2008.
- Início da viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral – RTP Ensina
- Ilha Inacessível (Tristão da Cunha) – Wikipédia, a enciclopédia livre
- Ilha de Gonçalo Álvares – Wikipédia, a enciclopédia livre
- Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha – Wikipédia, a enciclopédia livre
Imagens
- Mapa antigo de Santa Helena 1702 – Impressão de arte náutica do mar – Pôster vintage – Imagem antiga antiga – Decoração de arte de parede retrô – S – XXL MSM004 – Etsy Portugal
- Mapa da África mostrando suas descobertas mais recentes com a Ilha de Santa Helena inserida do novo atlas geral de Mitchells, 1863 (gravura colorida)
- Marinha de Guerra Portuguesa: A Evolução dos Navios da Armada Real Portuguesa de 1488 a 1910
Nota: As imagens dos navios são meramente exemplificativas, não correspondendo ao Galeão Santiago.



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