Qual seria a admirável composição desta Farinha Santa, que lhe conferia, segundo apregoava o fabricante, eficácia contra tosses, bronquites e os tão temidos esfalfamentos? Só Deus e o senhor Francisco Patrício* saberiam, mas devia ser uma boa mistura, pois, como se não bastasse, tinha igualmente propriedades tónicas e digestivas, devendo ser tomada pela manhã, em caldos.
Não sabemos de que era feita para conseguir tão extraordinários resultados, porque o segredo é a alma do negócio. Apenas se releva que o preparado contém “substâncias nutrientes e medicinais” e é uma farinha “ferruginosa”, pelo que se pressupõe que contivesse ferro. Seria, por isso, aconselhada a quem tivesse carências desse mineral, como os anémicos.
A Farinha Santa, tal como era divulgada pelo fabricante, era, assim, sem sombra de dúvida, um “completo alimento para crianças e adultos”. Cada lata custava 200 réis, o que até parece pouco para um produto tão completo.

A marca foi mandada registar em dezembro de 1895, pelo inventor da milagrosa fórmula, Francisco Patrício. Tão seguro estava do seu sucesso, que, ainda antes dessa aprovação, já a divulgava em anúncios de jornal.
O pedido de registo, muito pormenorizado para a época, já com uma imagem gráfica associada, mostra-nos um retrato do autor deste prodígio, com as suas muito farfalhudas suíças e uma aparência respeitável.
Como a modéstia não era o seu forte, afirmava-se noutro anúncio, que a farinha era “recomendada por distintas autoridades médicas” e “superior a qualquer outra” deste género.
Francisco Patrício não se fia apenas na sua boa aparência e nos argumentos já mencionados, faz questão de informar que esta farinha foi analisada e aprovada pelo Laboratório de Higiene de Lisboa, entidade de relevo que sabemos ter sido fundada em 1881 e incorporada no Instituto Ricardo Jorge, já no início do século XX.
O depósito geral da marca era na Casa Comercial Magalhães Castro e Cª, nos números 47 a 49 da rua dos Retroseiros (rua da Conceição), em plena baixa lisboeta, mas estava à venda nas principais farmácias, drogarias e mercearias.

Tinha tudo para dar certo, mas não deve, no entanto, ter sido um enorme êxito, porque não encontrei anúncios posteriores a este ano inaugural.
De pouco lhe valeu a santidade e tão elevados créditos…
*Será que este Francisco Patrício tem alguma ligação a outro do mesmo nome que, mais de um século antes, era médico em Sintra e Colares, tendo ficado especialmente conhecido pelo remédio secreto para “tirar névoas ou belidas de olhos”, que se vendia na botica de António Fernandes Carneiro, na rua da Parreirinha?
No século xix eram muitos os produtos que se apresentavam como tónicos. Este tem um cheiro a glorioso: Pela imprensa (31): vinho com cheirinho a “glorioso” – O Sal da história
E o que dizer de uma água que, para além de ferruginosa, atraía o amor? Instantâneos (115): matar a sede de ferro, amor e inteligência – O Sal da história
Fontes
- Biblioteca Nacional de Portugal, em linhawww.purl.pt
- O Paiz, 20.11.1895, 24.11.1895.
- Pedro Almeida Leitão, Marcas registadas em Portugal (1883-1933), 3° CICLO EM HISTÓRIA, Tese realizada no âmbito do Doutoramento em História, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2024. Acessível aqui: https://share.google/3cWhREABBBaDTi80s
- Elisa Celeste Pires de Carvalho Soares, A Publicidade na Gazeta de Lisboa (1715-1760), tese para a obtenção do Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007. Disponível em: A publicidade na Gazeta de Lisboa: 1715-1760
- Coleção Documental – INSA



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