Lisboa, julho de 1906

José Pires Gonçalves tem apenas 14 anos e é já um criminoso conhecido na cidade de Lisboa. À sua conta tem 17 acusações de assalto, coisa de monta para tão jovem larápio. Talvez por receio que tal cadastro lhe vá assegurar muito tempo à sombra, usou os seus inegáveis dotes para tentar fugir da prisão. O problema foi a denúncia do Rã e do Grilo, que o deitaram a perder e o fizeram regressar ao seu cubículo atrás das grades.
Ao contrário dos companheiros de má vida e de cativeiro, José Pires Gonçalves não tem alcunha. Será dos raros criminosos sem um apelido apropriado às suas façanhas ou características físicas. Pode ser que a sua fama fale por si ou ainda ninguém se tenha lembrado de epíteto que lhe assente. Certo é que a sua tentativa de fuga foi dos poucos assuntos a quebrar a monotonia daquele mês de julho de 1906.
Era cerca da meia-noite, quando o chaveiro e os soldados da guarda do Aljube foram sobressaltados com uma enorme gritaria proveniente da zona das celas do piso inferior. O que viram, quando ali acorreram, deixou-os estupefactos: um rapaz lingrinhas, espigadote, estava dependurado de um cano, qual felino escalando o seu caminho para a liberdade.

Engenhoso, tinha criado uma chave improvisada a partir de uma alça de balde e com ela aberto a porta do compartimento. Desafiara os seus dois colegas de cárcere – António Brandão, o Grilo, e Alfredo Pinto de Magalhães, o Rã – mas estes, menos afoitos ou, quiçá, sem a mesma agilidade, não o seguiram. Pior, temendo sofrer represálias por deixar fugir o outro, desataram aos gritos para alertar a segurança.
Acabou-se ali a audaciosa tentativa de evasão. Postas por terra as suas esperanças, José Pires Gonçalves regressou à cela pelo seu próprio pé e levando de recordação um rasgão nas calças, conseguido na ânsia de escapar rapidamente de volta ao local de onde antes quisera escapulir-se.
Talvez este atrevimento, que recebeu a simpatia da opinião pública e a complacência dos guardas, o tenha finalmente feito merecer algum cognome: macaco ou gato, já que parece que os animais são uma fonte inesgotável de inspiração.
Não sabemos, porque a história do rapaz de 14 anos se perde nessa Lisboa de então em que havia multidões de crianças entregues à sua sorte, a viver na rua, de pequenos furtos ou outros expedientes a roçar a ilegalidade. Sem perspetivas, não admira que reincidissem, tornando as suas habilidades uma forma de vida.

Com tanta genica e agilidade, podemos questionar-nos que resultados teria José Pires Gonçalves, se se visse confrontado com as provas físicas da seleta Escola Académica, que então decorriam.
Ali se testavam os “homens do futuro, educados conforme os preceitos mais modernos e de provados resultados na educação física e literária”, rapazes como ele, mas com um mundo de diferença, que mostraram os seus dotes em ginástica, patinagem, esgrima de pau e florete. A música e as línguas também seriam avaliadas.
Nestas, o nosso jovem larápio provavelmente não estaria à altura, mas nas manhas da sobrevivência, certamente bateria os meninos finos e bem-vestidos daquele estabelecimento. Não tinha outra hipótese…

Conheça aqui outras fugas que deram brado:
Quando mais de mil criminosos se apoderaram de Lisboa – O Sal da história
A extraordinária fuga do ladrão contorcionista – O Sal da história
Fontes
- O Occidente, 10.07.1906.
- João da Câmara, O Occidente, 30.07.1906.
- Maria João Vaz, Crime e sociedade – Lisboa, c. 1867-1910, in Não Nos Deixemos Petrificar: Reflexões no Centenário do Nascimento de Victor de Sá, disponível em: 18700.pdf
Imagens
- Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
- Alberto Carlos Lima, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000876
- Joshua Benoliel, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000683
- Joshua Benoliel, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000684
- Photografia Portugueza, O Occidente, 10.07.1906.
Nota: as primeiras imagens são meramente exemplificativas, as duas últimas dizem efetivamente respeito às provas da Escola Académica.



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