O sonho do mais luxuoso hotel de Lisboa esfumou-se em apenas 30 anos. Foi pouco, mas o suficiente para ficar na história dos colunáveis do dinheiro, do espetáculo e da política. Local de conspirações e devaneios, foi o porto seguro para os milionários europeus em fuga e a fonte de inspiração para opulentas imitações construídas nas serranias da Beira Litoral e nas longínquas paragens de Moçambique.

Franquear a porta do Aviz era entrar num mundo só ao alcance de reis ou príncipes. Se o edifício, imitava os antigos castelos, o seu interior apresentava verdadeiras relíquias desse passado de glória que Portugal já não vivia, mas que teimava em reclamar para si.
Ali se encontraram algumas das mais importantes pessoas da Europa, se experimentaram tórridos romances, negociaram segredos de estado, viveu-se à grande e morreu-se à francesa.
Bastaram três décadas para este sonho se esvanecer, mais ou menos o tempo que durou a isenção de impostos por parte da Câmara de Lisboa. A impressão deixada, no entanto, foi tão forte e duradoura, que até houve quem tentasse replicar tamanho esplendor nas inóspitas serranias da região de Coimbra.
O único hotel de luxo de Lisboa inaugurou-se quando corria o mês de outubro de 1933, numa versão revista e muito aumentada do antigo palacete Silva Graça (na imagem), com traça original de Ventura Terra e que, nos primeiros anos do século XX, o diretor do jornal O Século havia mandado construir para moradia própria, ali para os lados da ainda muito vazia avenida Fontes Pereira de Melo.
Coisa modesta, com quatro pisos, seis quartos para a criadagem, oito casas de banho e uma torre de menagem de encher o olho. A contornar tudo isto, um majestoso jardim privativo.

Tão importante era a casa que não se dignou submeter ao alinhamento ainda incipiente das cinco ruas que alcançava. Constituía uma espécie de ilha, quarteirão oásis do chic e do mais cosmopolita que há.
Pois, a geração seguinte pouco se importou com tamanho aparato e quis ir ainda mais além, mas não para residência própria, antes, para estadia mais ou menos passageira dos ricos e famosos.
A obra ficaria a cargo do engenheiro Carlos Augusto de Sá Carneiro, pai do poeta Mário de Sá-Carneiro, que 15 anos antes tinha acabado com a sua própria vida num quarto de outro hotel, em Paris.

Na altura, início dos anos 30, ainda não se sabia que ali seria mesmo um corrupio de gente endinheirada e notável, que a II Grande Guerra empurrou para fora das suas casas, por esta Europa fora e trouxe a Lisboa como local de passagem obrigatória para um lugar melhor, leia-se, as “Américas”.
Talvez pela incerteza dos resultados de abrir um hotel de luxo na cinzenta Lisboa de então, a empresa promotora, a Sociedade Sulgina, negoceia com a autarquia lisboeta uma dispensa de impostos, por 30 anos, por estar a dotar a cidade de tão importante empreendimento.

Os preços eram proibitivos para a maioria da população, cerca de quatro a cinco vezes mais do que os hotéis de qualidade superior existentes.
O serviço era irrepreensível e a cozinha foi cedo um trunfo, fazendo uma refeição no Aviz apresentar-se como um momento verdadeiramente especial e apenas acessível a uma curta elite nacional.

Seriam, pois, os estrangeiros a dar-lhe maior uso. A partir de 1939, aquele era o porto seguro para os muitos que passaram por Portugal, fugindo dos avanços nazis pela Europa, por aqui permanecendo demoradamente ou apenas o suficiente para zarpar para paisagens mais glamorosas e promissoras do outro lado do Mundo.
Por aquelas privilegiadas salas passaram nomes do mundo do espetáculo, da política, da ciência e das finanças, que deixaram comentários extasiados no livro de honra.
O mesmo para os que vinham em visita de Estado ou altos negócios ou os que eram suficientemente abastados para ali encontrar uma casa longe de casa.
Foi esta a situação de Calouste Gulbenkian, que viveu mais de uma década no Aviz e ali se finou.

Não obstante esta folha completamente imaculada e invejável, as contas do deve e do haver não eram famosas, porque foi avultado o empréstimo contraído para a conversão do edifício em hotel, mas também porque sai caro apresentar o bom e o melhor a toda a hora e ter um número de empregados que chegava a ser o dobro do de hóspedes, algo que as 25 suites, por muito sumptuosas e bem pagas que fossem, não conseguiam render.
Consta que Gulbenkian salvou a contabilidade do hotel de apuros por diversas vezes, assegurando desta forma a sua residência preferida.
Com a morte deste e o fim da isenção do pagamento de taxas, deu-se o colapso.
Cerca de 30 anos após a apoteótica abertura, o Aviz encerrou as portas em final de abril de 1961, há exatamente 65 anos.

Num espaço de meses, não restou pedra sobre pedra, que, antes como agora, terrenos daquela qualidade em locais centrais devem ser rentabilizados.
A demolição não tardou. Restou apenas a memória, o nome e a gastronomia única, replicada num restaurante e noutro hotel novo, mas sem o mesmo impacto original.
Mas, a impressão deixada foi tão forte que houve até quem construísse uma réplica em Moçambique, na então cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, embora a mais curiosa imitação do Aviz tenha surgido no alto do Penedo Gordo (Penela).
Foi o sonho inacabado do médico José Bacalhau, e não resistiu à mote do seu mentor, nem às pilhagens do pós 25 de Abril.
À margem
Há 65 anos, o Aviz fechava definitivamente as portas. Pelos corredores, aposentos e salões tinha desfilado gente famosa e importante como nunca visto noutro local do nosso País. Da política, ao cinema, das artes à finança, do ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower, a Evita Peron; de Maria Callas e Frank Sinatra, a Ava Gardner a Marcello Mastroianni; embaixadores, representantes das casas reais de Inglaterra, Roménia, Espanha, Itália e até Portugal, pois a antiga rainha Amélia de Orleães, no seu regresso a Portugal, ali se hospedou. A lista de vedetas que frequentaram o mítico hotel é bem recheada e sonante. Por ali terão passado igualmente espiões das fações beligerantes, embora Dusko Popov, o mais famoso de todos e que serviu de inspiração para a criação do agente secreto James Bond preferisse instalar-se mais para os lados do Estoril nas suas diversas e perigosas estadias em Lisboa.
Mas isso é outra história…
Fontes
- Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, Lisboa, Quimera Editores, Lda, 1987.
- Revista panorama abril 1943
- Pedro José Barros, 1993: Conspirações, espionagem e visitas da realeza no lendário Aviz em Lisboa, Expresso, 15.12.2022
- Cláudia Castelo, Hotéis com história
- , A Cozinha do Aviz, Público 07.03.2004
- Hotéis com história | PÚBLICO
- 1993: Conspirações, espionagem e visitas da realeza no lendário Aviz em Lisboa – Expresso
- Hotel Aviz vai ser demolido – RTP Arquivos
- Hotels
- Restos de Colecção: Aviz Hotel
- Dusko Popov – Wikipédia, a enciclopédia livre
- A verdadeira história de Dusko Popov, o espião que viveu no Estoril e inspirou 007, Observador, 15.02.2017, aqui:
- Dusko Popov, o espião que viveu no Estoril – Observador
Imagens
- Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000601
- Revista Panorama, 04.1943
- Estúdio Mário Novais, Biblioteca Gulbenkian (em linha),
- CFT003.101550, CFT003.101549, CFT164.4768



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