Instantâneos (127): um ano cheio de más notícias

 

 

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Há exatamente um século, o ano começou tumultuoso. Igual, portanto, aos anteriores. No início de 1926, Portugal encarava ainda as ondas de choque do escândalo do Banco Angola e Metrópole, leia-se das tropelias do burlão Alves dos Reis, esmiuçando um outro grave caso de falsificação de moeda, na Hungria e com ligações aos governantes daquele país. Secretamente, os portugueses regozijavam -se por terem companhia nesta onda de falcatruas. Do céu continuavam a despencar-se aviões e aviadores, a uma cadência que rivalizava com a queda de governos. O mais recente, empossado em dezembro, fora o 5º de 1925 e o 45º desde a implantação da República.

Nada de novo, portanto.

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Os jornais tanto se ocupavam do défice orçamental que foi discutido em “ambiente de barafunda”, no Parlamento, como dos mais escabrosos e fresquinhos casos: a polícia, que abateu por engano o sapateiro conhecido como “o surdo do Bairro Alto”; a rocambolesca morte do “Leão do Chiado”, bon vivant caído em desgraça, que sucumbiu fulminado ao encontrar a vizinha enforcada; o crime de Campolide, responsável pelo fim de José Faustino “Beato”, membro de tantos grupos revolucionários, que não faltavam suspeitos de lhe quererem limpar o sebo e outros tantos  dramas de toda a espécie, que os ventos de então eram bem mais violentos que os que hoje sopram.

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No tribunal julgava-se o crime do canil das Amoreiras, nas ruas comentava-se o mais recente combate do nosso pugilista Santa Camarão, a par dos últimos jogos de foot-ball, com clubes que davam os primeiros passos e as rivalidades Norte-Sul já bem acesas (na imagem, a partida entre o Sporting e o Vitória de Setúbal).

O povo sofreu com a tragédia da rua da Junqueira, um despiste automóvel que tirou a vida a duas pessoas, e a Lisboa mundana estremeceu com a misteriosa morte do gerente do Club dos Patos, o italiano Ercole Mazzollini. Aqui e ali encontravam-se bombas.

Tudo isto nas mesmas páginas onde se questionava o tumultuoso caminho moral que trilhávamos, pois se, na Capital, já havia uma média de um divórcio por dia…uma bandalheira!

Tudo culpa da República, que tinha dado ao povo uma liberdade com a qual este, aparentemente, não sabia lidar.

O ano teria muitas surpresas. Nenhuma especialmente boa e algumas trágicas.

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Em março, um País habituado a emoções fortes encontrou sensibilidade para se chocar com o bárbaro assassinato da conhecida atriz Maria Alves (na imagem) e os estragos provocados pelo terramoto ocorrido no mês seguinte, na ilha do Faial, nos Açores.

Sucediam-se tumultos e tentativas de rebelião de diferentes sensibilidades.

No ar andava um estranho ambiente de irritabilidade, de panela prestes a rebentar, de insatisfação. O que seria?

Em 7 de janeiro já a Capital falava de uma revolução iminente, divagando sobre qual seria o tipo de regime para o qual iríamos cair. A 28 de maio, abria a primeira página fazendo um apelo em letras garrafais: É PRECISO SALVAR A REPÚBLICA E A LIBERDADE.

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O futuro mostraria que a 1ª República estava morta e a liberdade passaria a estar mesmo muito limitada.

Não se pode dizer que os 16 anos que haviam decorrido após a deposição da monarquia não tivessem sido férteis em intentonas, conspirações e revoltas. Mas nenhuma tinha mudado o que quer que fosse no estado das coisas.

Até ao dia 28 de maio de 1926, em que se deu o que ficou conhecido como Revolução Nacional.

Poucos dias após o golpe militar, nas páginas da “sua” revista Ordem Nova, Marcello Caetano manifestava logo a sua adesão à ditadura que já se antevia.

Curiosamente, entendia-a como transitória, como todas as ditaduras deveriam ser, dizia, porque entendia que só um rei poderia corresponder ao futuro que o País precisava.

Enganou-se. O regime que ali despontava foi tudo menos transitório. Permaneceu por mais de quatro décadas.

O rei nunca veio, só Salazar.

Em 1926 não se podia adivinhar que a mudança que então se forjou seria tão grande e permanente. Não se sabia que daria origem à 2ª República e, anos mais tarde, com a Constituição de 1933, ao Estado Novo, que nos governaria até 1974.

Nem Marcello Caetano poderia prever que seria ele a levar a ditadura ao seu último estertor.

Cada ano tem as suas surpresas…aproveitemos bem este que agora se inicia!

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital

Ordem Nova, nº4 e 5, jun-jul 1926

Jornal A Capital, edições 1926

Domingo ilustrado, 15.01.1926, 07.02.1926, 28.02.1916, 11.03.1926, 06.06.1926

 

Imagens

Domingo ilustrado, 15.01.1926, 07.02.1926, 28.02.1916, 11.03.1926, 06.06.1926

 

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2025/10/club-dos-patos.html

8 respostas a “Instantâneos (127): um ano cheio de más notícias”

  1. Ao revisitar o passado damos conta que afinal, evoluimos muito mais do que aquilo que hoje consideramos pouco. É a vida!Bom Ano e Boas histórias da História.

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    1. Muito obrigada! Agradeço e retribuo os votos.

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  2. Bom dia e bom ano! Mas… desta vez, as perguntas são muitas!1- Como é que a polícia ‘abateu por engano o sapateiro conhecido como “o surdo do Bairro Alto”’?2- O que aconteceu a esse tal “Leão do Chiado”, e porque se enforcou a vizinha dele?3- O que foi o tal “crime de Campolide”?4- O que foi “o crime do canil das Amoreiras”?5- O que teve lugar nessa “misteriosa morte do gerente do Club dos Patos”?Sim, estas são mais difíceis, é o problema de se mencionar tantas histórias diferentes num só artigo!

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    1. Bem…tive de reler todos esses dramas. Isso não se faz, ainda por cima logo no início do ano Vou tentar responder.1- Como é que a polícia ‘abateu por engano o sapateiro conhecido como “o surdo do Bairro Alto”’?Andava com mais quatro a caçar ilegalmente na quinta do Duque de Palmela. Os guardas dispararam para que não fugissem e atingiram-no mortalmente.2- O que aconteceu a esse tal “Leão do Chiado”, e porque se enforcou a vizinha dele?É uma história de fazer chorar as pedras da calçada…O Leão do Chiado, Luís Augusto de Melo, tinha sido um daqueles boémios conhecidos de Lisboa cerca de quatro décadas antes. Vivia agora na maior pobreza, com a mulher e uma filha. Vivia nuns quartos alugados, já que a casa onde antes residia tinha ficado destruída com as chuvas do inverno anterior. Vivia noutro quarto a vendedora ambulante Carolina de Jesus Ferreira que, só ela saberá porquê, se enforcou. O vizinho encontrou-a dependurada e o coração, que já há muito era doente, não resistiu. 3- O que foi o tal “crime de Campolide”?Foi a morte do caixeiro-viajante José Faustino Beato, que apareceu morto à facada junto à linha férrea.4- O que foi “o crime do canil das Amoreiras”?Foi um caso de violação. Manuel Figueiredo Martins, proprietário do canil, era acusado de abusar de uma das suas criadas.5- O que teve lugar nessa “misteriosa morte do gerente do Club dos Patos”?O gerente apareceu morto a tiro no corredor do clube. Ao que parece, foi abatido durante uma altercação com o sócio por causa do local onde a banda iria tocar nessa noite, 19 de fevereiro de 1926.Curiosa a imensidão de casos nesses tempos. Entre tantos outros, ainda encontrei, ao reler, o caso do António engraxador, que assassinou o “Pitosga”; a fuga de Monsanto do temível legionário Hilário Gonçalves e o caso dos três gatunos vestidos de minhotas, que tentavam assaltar pessoas, para além de umas quantas bombas.Mas não me perguntem pormenores que não regresso mais a esse passado, pelo menos por agora.Bom ano!!!

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      1. Obrigado, obrigado. Os outros casos entendem-se, mas ali o do “Leão do Chiado” cheira a esturro… quando alguém se mata, deixa sempre – desde tempos da Antiguidade – uma cartinha a explicar o porquê. Se isso não aconteceu neste caso, é provável que ali o senhor tivesse visto a carta e tivesse feito desaparecer. Será que andavam envolvidos? Será que ele terminou tudo com ela, levando-a a este acto extremo?

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      2. Tudo é possível..o que posso dizer é que, só deixa carta, quem sabe escrever. Não me parece que uma mera vendedora ambulante o soubesse fazer…

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      3. Ahahahhahahah Nem tínhamos pensado nisso! Outros tempos…!

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      4. Verdade! Tempos diferentes.

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