Pela imprensa (32): os pozinhos da morte

 

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Um verdadeiro exterminador implacável e à escala global, embora (alegadamente) inofensivo para todos os animais que não fossem insetos esvoaçantes e rastejantes. Os Pós de Keating foram um sucesso inegável entre os inseticidas, usados em vários continentes e, entre nós, pelo menos durante meio século. Mas tinham de ser Keating! afirmavam os numerosos anúncios na imprensa nacional, já que vários produtos concorrentes apresentavam-se com as mesmas armas, mas nenhum com igual eficácia, argumentavam os representantes da marca.

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Uma pequena porção de pó na cama assegurava que estávamos livres desse flagelo destruidor do descanso noturno: os percevejos. Pelo sim, pelo não, no entanto, para garantir uma erradicação total, o melhor era polvilhar lençóis e travesseiros.

Nenhum inseto estava a salvo da ação dos Pós de Keating. Bastava uma reduzida quantidade aos cantos da casa, nos esconsos caminhos percorridos pelos bichos indesejáveis, no interior de gavetas, guarda-fatos, atrás dos móveis, ou dentro das malas, em caso de viagem.

Baratas, pulgas, carraças, formigas, mosquitos, traças…todos deviam dar corda aos sapatos – se os tivessem – e abalar ao menor cheiro destes fantásticos pós, pois a morte os esperaria se teimassem em ficar.

Era um autêntico milagre mortífero, especialmente útil em locais com salubridade deficiente ou quando um numeroso grupo de pessoas tinha de viver no mesmo espaço, como nos externatos ou nas casernas, mas igualmente essencial em qualquer lar.

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Registada em Portugal desde 1896, a marca já se comercializava antes dessa data e foi uma fiel amiga dos portugueses por largas décadas.

Inicialmente, os anúncios eram meramente de texto e bastante explicativos. Depois passaram a integrar uma personagem curiosa, misto de extraterrestre, génio da lâmpada e elfo doméstico, que outros tentaram copiar, aproveitando-se da celebridade dos Pós de Keating.

Pelos representantes em Portugal dos fantásticos pós, sabe-se que apenas se vendiam em pequenas latas. Marcelino Gomes de Almeida & Cª, na praça do Comércio, em Lisboa, foi durante algum tempo o único depositário, que vendia depois para as principais farmácias e drogarias do País.

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Depois, os comerciantes interessados também podiam encontrar este produto em armazém da rua dos Fanqueiros e, em Coimbra, na Drogaria Rodrigues da Silva & Cª.

Sobre o muito elogiado inventor, Thomaz Keating, nada consegui apurar. Os seus pós, no entanto, eram tão populares que surgem frequentemente referidos na literatura e em textos de jornal, como sinónimo de morte garantida para seres insignificantes, embora irritantes.

Depois, aparentemente, desapareceram do mercado…como os insetos rastejantes que aniquilavam.

 

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Fontes

Resistência, 08.08.1895

O Dia (Santa Catarina, Brasil), 10.09.1909

Eva, 01.07.1939

A Paródia, 17.07.1901

Diário Popular 07.09.1946

A mocidade Portuguesa Feminina nº39

 

Museu da Presidência da República

https://www.arquivo.museu.presidencia.pt

Carta de António Gueifão Ferreira para Manuel Teixeira Gomes manifestando interesse em ser o depositário e representante em Portugal dos Pós de Keating,
PT/MPR/ATG/CX003/067

 

 

 Pedro Almeida Leitão, Marcas registadas em Portugal (1883-1933),

3° CICLO EM HISTÓRIA, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2024

 

https://pt.wiki34.com/wiki/Chimaltenango_(municipio)

 

https://doportoenaoso.blogspot.com/2020/04/nota-aproveitando-o-dever-de-me.html

 

https://www.scielo.br/j/hcsm/a/vPqBJzc9G9C8f3T3Vxrnz8y/?lang=pt

 

11 responses to “Pela imprensa (32): os pozinhos da morte”

  1. Saudações amigas. Sou jornalista em Viseu e junto com outros amigos temos um espaço de amizade e partilha de opiniões e acompanho e subscrevo este seu espaço. Gostaria com a devida referencia á fonte partilhar alguns dos seus artigos que nos transporta muito longe da nossa historia. O espaço é este:https://fortalezadecriaturas.blogspot.com/

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    1. Olá, Fernando Jesus Neto. Gostei muito de saber do vosso interesse no blog e no que escrevo. Isso é muito gratificante para quem escreve.Fico contente que queiram partilhar os meus artigos, porque isso só enaltece o meu trabalho e acho muito honesto que o façam referindo a fonte, como deve ser, em vez de copiarem o que aqui escrevo, como outros já fizeram.Fui jornalista uma boa parte da minha vida e ainda colaboro com um jornal local. Valorizo muito o trabalho da imprensa regional.Já agora, aceito sugestões de temas históricos locais pouco conhecidos que eu possam explorar!Grata pelo vosso contacto!

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      1. Avatar de Fernando Jesus Neto
        Fernando Jesus Neto

        Saudações amigas e agradeço as palavras. Sugiro se assim o entender “estórias” da região onde moro Viseu ( Canas de Senhorim) e poderei enviar por exemplo sobre o secular carnaval, feira medieval etc. Para isso necessito de um contacto seu ( por exemplo email), aqui envio o meu email: efeneto@gmail.com

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      2. Obrigada! Vou enviar-lhe um email.

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  2. Todos estes anúncios são um autêntico exemplo do que era o marketing provinciano do início do século XX português. Na gravura, quero destacar entre os caixões, o respeitante aos «Jesuítas», entendo-o como uma alusão crítica ao «chefe» dos falsos Jesuítas – Salazar – que não podia ser criticado sem risco de pena de morte, a PIDE que o explicite. O meu comentário não é contra os Jesuítas em geral. pois afirmo sem qualquer problema que, o melhor e mais humano professor que conheci no curso de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, foi o Jesuíta Doutor Manuel Antunes S.J.Parabéns à autora pelo presente artigo.

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    1. Olá! É verdade. Estes anúncios são sempre muito interessantes, porque espelham um mundo que já não existe, uma forma diferente de ver as coisas.Engana-se sobre a paródia dos caixões. É de 1917. Os jesuítas foram perseguidos logo após a implantação da República e penso que se trata de evidenciar movimentos, religiosos e políticos, que tinham sido importantes, mas entretanto tinham “morrido” com a República.Grata pelo comentário!

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  3. Obrigado pela partilha, como sempre! Mas… ali não se saber nada sobre o Thomas Keating, ou sobre o que aconteceu à empresa, é curioso. Conseguimos encontrar que – aparentemente – ele poderá ter morrido aos 85 anos, mas é pouco. Aqui e ali, encontra-se uma ou outra informação sobre a vida dele, demonstrando que foi um homem real e existiu mesmo, mas pouco mais…

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    1. O único Thomas Keating que encontrei foi este:https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_KeatingMas não pode ser este, pelas datas.Onde encontraram o outro! Gostava de lhe seguir o rasto.Grata pelo comentário!

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      1. Boa noite! Isso é mais difícil de explicar, mas passa por um sistema que desenvolvemos há uns anos para encontrar coisas pouco vulgares. Por exemplo, neste caso, permitiu encontrar algumas fontes curiosas, como a seguinte: https://www.terahertz.co.uk/index.php?Itemid=435&Itemid=435%3Foption%3Dcom_content&id=132&option=com_content&view=article . Neste caso, talvez mais pesquisa pelo nome original – “Keating’s Insect Powder” ou “Keating’s Insect-Destroying Powder” – permita encontrar mais algumas coisas… mas, agora, depois de discussão sobre isto, parece que, afinal de contas, ele não existiu mesmo, mas era o nome de uma empresa? Estas coisas… são complicadas, por vezes!

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      2. Pelo que percebo no link que simpaticamente enviam, era mesmo o nome da empresa…Obrigada!

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      3. Agora, parece que sim… mistérios do tempo!

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