
Com a entrada de setembro, tudo o que é a sociedade lisboeta que importa transfere-se de Sintra para Cascais, onde enfrenta a vilegiatura marítima com grande entusiasmo. É a mudança da família real a marcar o início desta nova etapa de diversão e todos os seus passos são seguidos com especial atenção, em especial na praia, onde a etiqueta parece mais leve. Nem os reais canídeos escapam a esta moda de ir a banhos.

Grupos de senhoras com saias engomadas, tendo pela mão meninas que ostentam laços ou chapéus de palha sobre os cabelos, acotovelam-se para conseguir ver toda a comitiva. As janelas apresentam-se decoradas, flores atapetam as ruas ou erguem-se nas mãos ansiosas de as entregar à rainha…
O dia da entrada da família real em Cascais dita a abertura da vilegiatura marítima na vila, movimento acompanhado com grande curiosidade e entusiasmo pela comunidade local. A maior animação, no entanto, ainda está para vir.

É assim todos os verões, desde que D. Luís iniciou tal tendência, lá pelos anos 70 do século XIX. Terminada que está a estadia em Sintra, durante o período de maior calor estival, dá-se início à temporada seguinte, junto ao mar. A chegada das reais pessoas marca esta mudança de ares e representa uma transformação profunda na pacatez que reinava até ali.
Toda a corte e as famílias que gravitam em torno do rei – ou aspiram gravitar – seguem as suas pisadas e transferem-se para Cascais. Está inaugurada a época de banhos, mas também a quadra das festas, das digressões pelo passeio Maria Pia, obrigatórias para quem quer ver e ser visto. O número de cabeças tituladas por metro quadrado não tem paralelo em outro local do reino.

A localidade fervilha de quermesses para ajudar os pobrezinhos, jogos, saraus de música e teatro, matinés e soirées no Casino da Praia, entre a roleta, os jogos de cartas e os bailes animados.
Organizam-se touradas, regatas, partidas de ténis e outros eventos sportivos, dos quais D. Carlos é especial entusiasta.
Quase todos os anos há uma qualquer moda nova. Em 1907, por exemplo, a grande sensação é o jogo Diábolo, que ranchadas de pessoas, sobretudo senhoras e crianças, fazem girar, soltando gritinhos de excitação.

Esses momentos são aguardados com feliz anseio pela melhor sociedade lisboeta, momentaneamente desterrada. Mas é na praia que as atenções se concentravam, na primeira parte do dia. Ali a família real está mais próxima – embora nunca misturada – com os outros comuns mortais.
D. Carlos é um apaixonado pelo mar. Passa horas a bordo e zarpa nos seus escaleres ali mesmo, da praia. A hora do banho do rei e dos príncipes é acompanhada com curiosidade por todos e estranheza por parte dos pescadores, obrigados a partilhar com tão ilustres banhistas o areal, onde, durante o resto do ano, costuram as suas redes.
Nos estendais, os aprestos da faina são substituídos pelas elaboradas indumentárias dos banhistas.


É um tempo de especial azáfama para os banheiros, a braços com uma enchente de temerosos veraneantes, ávidos de se mergulharem nas águas límpidas, aconselhadas pelos médicos para um vasto conjunto de maleitas e desconfortos. As embarcações de pesca convertem-se em barcos de banhos e proporcionam um rendimento extra.
A praia enche-se de alvas barracas, onde gente importante passa a manhã, cavaqueando. Numerosos petizes com fatos de marinheiro ou macacões às riscas saltitam por todo o espaço, observados pelas amas e criadas da casa.
Há lugar para o flirt entre os jovens casadoiros, discretamente tolerado pelas mães, se o rapaz é da família certa. Tempo para as senhoras falarem de moda e dos últimos escandalozinhos, enquanto os cavalheiros discorrem sobre política, esse tema eterno e polémico que, com os pés quase na água, parece, de repente, mais longe e quase tolerável.

Até os canídeos de companhia da família real são arrastados para esta espiral de campo e praia. Tejo e Sado, dois cães de água, são vistos frequentemente com os seus tratadores, banhando-se também e até com mais alegria que muitos cidadãos, quiçá acabrunhados por se verem assim, encharcados perante estranhos.
E é neste alegre dia-a-dia que se chega à altura do regresso a casa, onde aguardam outras preocupações inadiáveis, como a toilete a adotar para a abertura de época lírica, no São Carlos, que assinala o início de mais uma etapa no quotidiano dos privilegiados lisboetas.
À margem
Em inícios do século XX, as praias em torno de Lisboa apresentavam uma estratificação social bastante rigorosa. Havia poucas misturas entre os grupos sociais. Se os pequenos burgueses animados e barulhentos escolhiam Pedrouços, a praia chic na geração anterior; Caxias oferecia um cenário de descanso e reflexão propício à engorda dos senhores com alguma posição, mas pouca disposição. Paço d’Arcos dividia-se em três zonas distintas, sendo a central aquela com mais alta cotação e estatuto. No conjunto, era a praia mais frequentada da região, onde se replicava o movimento da baixa lisboeta e a frequência da missa na igreja do Loreto, ao Chiado. A vizinhança do resto do ano repetia-se no areal.
A vilegiatura marítima fazia-se sobretudo em toda a costa a Norte da Capital: Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz, Espinho, Povoa do Varzim, Vila do Conde, Granja, Moledo, Foz (Porto) eram das mais mencionadas. A sul, apenas Setúbal dava nas vistas e oferecia já um fabuloso estabelecimento de banhos.
Estávamos ainda longe da descoberta do Algarve e, depois, da costa Alentejana, nomeadamente da Comporta, que hoje tanto dá que falar.
Mas isso é outra história…
Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
Illustração Portugueza, 16.10.1899, 26.09.1904, 03.10.1904, 11.11.1907
Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal, Porto, Livraria Universal, 1876.
https://www.cascais.pt/historia-casino-da-praia
Rota D. Carlos, Um rei em Cascais, Câmara Municipal de Cascais,
chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.cascais.pt/sites/default/files/anexos/gerais/new/rota_dcarlos_port_final_low.pdf
Imagens
Ir A Banhos – Moda Que O Rei Lançou |
Arquivo Municipal de Cascais
Tejo e Sado, cães de água de D. Carlos, nadando acompanhados do tratador, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00131
Banhistas e banheiros em barcos junto à Praia da Ribeira, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00189
Rei D. Carlos com banhistas, na Praia da Ribeira, Cascais, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00924
Banhistas e banheiros na Praia da Ribeira, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00078
Mulheres e crianças jogando diábolo no campo de ténis do Sporting Club de Cascais, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CFCB/014
Barracas de banho da Praia da Ribeira e Casino da Praia, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00446



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