
Passeio por entre monumentos funerários, seguindo as pistas deixadas pelos finados sobre aquilo que foram em vida e a forma como querem ser recordados por quem cá fica. Onde se prova que mesmo na morte, grande niveladora porque toca a todos, há hierarquias, vaidades e tanta ostentação como na vida.

O grasnar das gaivotas é o som mais permanente nas ruas, de outra forma silenciosas. O seu esvoaçar quebra a quietude reinante a chega a arrancar-nos do pensativo contemplar das diferentes construções, memoriais e estátuas, tão belas quanto surpreendentes, que povoam cada vereda.
Os gatos, que também abundam, são mais discretos e quase não se dá por eles. Fundem-se com os túmulos do cemitério de Agramonte, assumindo como sua a serenidade do lugar.
Estamos no centro do Porto e, no entanto, isolados do bulício para lá dos muros. Um ou outro turista arrisca a visita, mas ali impera a imutabilidade e só mesmo lá ao fundo é que vemos sepulturas que indiciam um tempo mais recente, flores ainda com cores vivas, pessoas saudosas a cuidar da memória dos seus entes queridos.

Até lá – apesar das árvores, das surpreendentes manchas amarelo-mostarda criadas pelos líquenes e das hortências desbotadas pelo sol que espreitam aqui e ali – tudo é mais ou menos cinzento, imóvel, sem vida, como seria expetável num cemitério, aliás.

Mas, não é por isso que o que vemos é menos interessante. Há a importância arquitetónica e artística de muitos sepulcros, o relevo em vida daqueles que jazem no seu interior, sumariamente anotado em pequenas placas metálicas; a imponência das construções fúnebres destinadas a elevar aos píncaros o morto homenageado.
Nas inscrições, assiste-se ao desfilar de capitalistas, negociantes, industriais, banqueiros, beneméritos que hoje já ninguém recorda senão ali. Artistas de diferentes áreas, mães extremosas e esposas amantíssimas acompanham o cortejo anterior. Os nomes conhecidos ainda hoje são uma minoria.

Há autênticos palácios fúnebres, arruinados, abandonados, sem uma explicação para tanto aparato e esquecimento; há representações em pedra ou bronze das pessoas que ali repousam e agora nos observam com olhos vazios e há o olhar perscrutante das fotografias esbatidas, daqueles que parecem ver-nos a partir de uma outra dimensão, envergando indumentárias próprias de um filme de época.

Há expressivas esculturas de talentos famosos e outras não menos tocantes, embora de autor desconhecido. Uma autêntica cidade dos mortos, com as suas hierarquias e ostentações de posição social.
Ninguém diria, observando a opulência de algumas construções funerárias, que Agramonte, na origem, recebeu sobretudo as vítimas da cólera mórbus, que assolou o nosso território em meados do século XIX (1855), bem como os pobres do Porto.

Isto porque os ricos preferiam o Prado do Repouso, aberto anteriormente e por esse tempo com maior dignidade e organização.
Agramonte foi aberto à pressa para acudir à urgência sanitária de enterrar os muitos que pereceram com a doença contagiosa, a capela era em madeira e todo o recinto se apresentava algo improvisado, até que as irmandades religiosas ali decidiram instalar os seus panteões, atraindo, com isso, famílias mais ilustres e abastadas, dando estatuto a este campo sagrado localizado junto à rua da Boavista.

A interdição de enterramentos nas igrejas, decretada anos antes (1835) e altamente polémica, criou necessidades, não só em termos de espaço, como de representação e acompanhamento. Depois da repulsa inicial, percebeu-se que, nos novos cemitérios, as pessoas podiam firmar livremente o seu legado, erigir a forma como queriam ser vistas depois de se irem ou de como os seus descendentes entendiam recordá-los.
Havia também toda uma nova possibilidade de chorar os que partiam, visitando as suas campas, embelezando-as e orando pelas suas almas em espaço de mais fácil acesso.
Quem cá ficava tinha assim oportunidade de expressar de diferentes formas o sofrimento e mortificação que a ausência do outro lhe provocava, muito ao gosto do exacerbar de sentimentos do Romantismo, estética então dominante. Com a atenção focada nas representações fúnebres, relegava-se ao esquecimento ou à ignorância a imagem do corpo em decomposição, crua realidade da morte física.

No monumento funerário, o finado ganhava a imortalidade na pedra, elemento duradouro que lhe serve de base.
Os cemitérios oitocentistas eram construídos à imagem dos jardins do mesmo período, com uma paisagem bucólica assente em caminhos ladeados de árvores e arbustos, decorada com monumentos públicos dignos de admiração.
Também ali se passeava, para ver e ser visto.
E, a morte, sempre niveladora porque toca a todos, acabava por evidenciar as discrepâncias que, em vida, existiam entre as posses de cada um, patentes na localização, dimensão e forma como o defunto se apresenta ao mundo.
À margem…

A transferência dos enterramentos do espaço das igrejas para os cemitérios de gestão municipal, foi polémica a vários níveis. Não só suscitou no povo receios quanto ao eficaz encaminhamento das suas almas para Deus, como deu origem a uma disputa entre as autoridades da igreja e da administração pública. No Porto, em 1838, foi necessário que a quinta do Prado do Bispo passasse da Mitra para posse da câmara, presidida por Luciano Simões de Carvalho, algo que não agradou ao Bispo, então D. Manuel de Santa Inês. O impasse só se resolveu com um “puxão de orelhas” de D. Maria II, instando a que o prelado parasse de erguer obstáculos à transação e ali se pudesse instalar o que foi batizado como cemitério do Prado do Repouso.
A presença da igreja, no entanto, fazia-se sentir mesmo nos cemitérios camarários, que eram benzidos antes de começarem a receber defuntos e possuíam (possuem ainda) capelas católicas.

Em finais do século XIX, embora se vissem outras tipologias, o mais comum eram os jazigos em forma de capela, abundando outros símbolos, como figuras de anjos e santos e, claro, a cruz identificada com o martírio de Cristo.
Isto a par de elementos de ostentação da posição social do morto, como a grande escala e magnificência de alguns túmulos e até a imposição de pedras de armas, aludindo às famílias nobres de quem ali estava sepultado. A mudança de regime, em 1910, com a Implantação da República, iria mudar drasticamente este panorama, com a separação entre a Igreja e o Estado e a abolição das cartas de brasão de armas.
Os símbolos do passado deixaram de ser bem-vistos.
Mas isso é outra história…
Fontes
Visita livre ao cemitério de Agramonte, no Porto.
Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, Ser e Estar Perante a Morte no Porto dos Séculos XIX e XX: Reflexos no Património Cemiterial, in Lusitania Sacra, 2′ série, 6, pp 309-325, 1994.
Alda Mónica Coelho Bessa, Memória e Saudade – Os túmulos de João Henrique Andresen e João Henrique Andresen Júnior, no Cemitério de Agramonte, dissertação de Mestrado, 2º Ciclo de Estudos em História da Arte Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/75519/3/28285.1.pdf
Imagens
Da autora, recolhidas no Cemitério de Agramonte, em 11 de julho.



Deixe uma resposta para CV Cancelar resposta