

Corpos verdadeiros, com formas e cores reais, palpitantes até, como se respirassem, sentissem, vivessem. Assim eram os nus de Emília dos Santos Braga (na imagem), que teve a ousadia de despir as suas modelos e as retratar desta forma, expostas aos comentários maliciosos e ao preconceito vigente em inícios do século XX.

A coragem valeu-lhe alguns dissabores.
O talento que, sem dúvida, possuía, abriu-lhe as portas dos salões, mas o facto de ser mulher impediu-a de assumir o papel devido na história da arte em Portugal.
Foi uma verdadeira revolução. Até Emília dos Santos Braga (1867-1949), a pintura portuguesa de inícios do século XX tinha poucos nus e os que arriscavam nessa vertente, justificavam-na na elaboração de divindades ou alegorias. Não representavam mulheres nuas, mas sim figuras femininas heroicas e imaginárias.

Isto acontecia porque os pintores, maioritariamente homens, tinham dificuldade em conseguir modelos que para eles de desnudassem e, depois, porque não caía bem em círculos conservadores a presença sempre perturbadora de mulheres sem roupa, o que podia suscitar segundas e terceiras interpretações.
Com Emília dos Santos Braga foi diferente. As “suas” musas eram fêmeas de verdade, com defeitos e virtudes, com vícios e vergonhas, sensuais e humanas.
E, como eram pintadas por outra mulher, eram toleradas estas exposições, embora não faltassem vozes de censura por tal descaramento. A tela de grandes dimensões Fumadora de Ópio – na imagem anterior – causou especial escândalo e chegou a ser golpeada numa das ocasiões em que foi exposta.
Os mais sérios, no entanto, reconheciam o valor da artista, embora a subalternizassem.

A sua produção, no entanto, não se limita aos nus. São bem conhecidos outros trabalhos, sobretudo retratos, mas foram aqueles que mais a destacaram.
Ainda que a sua identidade como pintora fosse distinta e bem marcada, para muitos seria simplesmente a mais dotada discípula do mestre Malhoa. Não lhe perdoaram o facto de não ter formação institucional e de pertencer ao “sexo fraco”.
Emília dos Santos Braga teve a sorte de a sua família apoiar o pendor artístico, que desde cedo a marcou, rejeitando, no entanto, a vocação inicial para cantar.
Teve incentivo, mas não disponibilidade financeira para cursar artes em Paris, como fizeram outras de famílias ilustres. Suportaram, antes, aulas com José Malhoa, nome grande da pintura nacional, que lhe transmitiu conhecimento, mas acabaria por condicionar o reconhecimento.

Teve igualmente uma persistência que foi para além do matrimónio, não desistindo do seu percurso mesmo depois de se tornar uma mulher casada, etapa que, para muitas jovens promissoras, constituía o ponto final nas aspirações artísticas.
Tornou-se, depois, ela própria, mestre de muitas pupilas, entre as quais Maria Helena Vieira da Silva, Eduarda Lapa ou Mily Possoz.
Participou em numerosas exposições, em Portugal e no estrangeiro – nomeadamente na Exposição Universal de Paris, em 1900, de tão má memória para os portugueses – mas acabaria por se proteger em mostras no seu próprio espaço e atelier.
Como aconteceu a muitas mulheres em vários domínios, a história não fez justiça ao seu talento. São raras obras suas em museus, mas abundantes em coleções particulares.

Fontes
Nuno Saldanha, Emília dos Santos Braga – (1867-1949), um triunfo no feminino, in Margens e Confluências – Um Olhar Contemporâneo Sobre as Artes, Mulheres artistas, argumentos de género, Escola Superior Artística do Porto – Guimarães, dez 2006.
Hemeroteca Digital de Lisboa
Illustração Portugueza, 25.05.1908, 10.06.1912
O Occidente, 20.04. 1905; 20.04.1908
https://mulheresilustres.blogspot.com/2012/10/emilia-santos-braga.html
https://lisboa-e-o-tejo.blogspot.com/2019/09/emilia-santos-braga-1867-1950-iv-de-iv.html
https://lisboa-e-o-tejo.blogspot.com/2019/09/emilia-santos-braga-1867-1950-ii-de-iv.html



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