
Uma praça cheia de gente. Cavalos empinados, pessoas e armas derrubadas no chão ou agrupando-se nas estreitas saídas, parecem querer fugir para as ruas contíguas. O espaço parece-nos familiar, mas vemos uma bandeira tricolor içada numa torre, o que nos leva a pensar não estarmos em Portugal. Percebe-se que parte das figuras estão fardadas e que ali também se veem canhões, aparentemente abandonados, pois ninguém os conduz nem às parelhas de animais. É uma cena complexa e só a extensa legenda desvenda, de facto, o que pensamos ver.

Tudo aconteceu no Dia do Corpo de Deus de 1808, no Rossio, em Lisboa, mas reflete um estado de exaltação à escala nacional. Os portugueses, que haviam recebido as tropas francesas sem oposição digna de nota, começam a protagonizar diversos motins em todo o País, pressentindo a falta de meios que os invasores então experimentavam. Nesse dia, correu o boato que os ingleses desembarcavam já na nossa costa para vir socorrer os seus aliados lusos.
A reação dos franceses terá sido de “desordem e terror”, largando tudo e tentando escapar. Este é um instantâneo desse momento. Junot, que havia comandado esta primeira invasão, chegada a Lisboa a 30 de novembro do ano anterior, está na varanda do antigo Palácio da Inquisição, à esquerda da imagem, e gesticula, provavelmente tentando parar a sangria dos seus homens, de que lhe dá conta o homem a cavalo, o general de artilharia com quem fala. A cavalaria apressa-se a passar pelo Arco do Bandeira, à direita, mas são muitos os que se aglomeram junto às outras escapatórias, para o largo de São Domingos (em cima, à esquerda), a praça da Figueira (em cima, ao centro), rua Augusta, (em cima, à direita) e do Ouro (em baixo, à direita).
O pavor dos franceses não dura muito, mas internamente percebe-se a oportunidade. Em Olhão, nesse mesmo dia 16 de junho, rebenta a revolta que escorraça os franceses do Algarve. Três dias depois, no Porto, a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino assume as rédeas da situação e, um pouco por todo o território, se organizam populares voluntários para formar tropas e arregimentam-se militares na tentativa de criar o exército que combateria como pôde os invasores até à chegada dos ingleses, que só entrariam em Portugal lá para agosto.
No final desse mês, após vários confrontos sangrentos, assina-se o armistício e, a 15 de setembro, data em que a bandeira nacional volta a ser içada em Lisboa, os invasores começam a retirada, levando consigo tudo o que conseguiram carregar…estariam de volta em fevereiro do ano seguinte.
Neste mesmo dia de 1808, a quase oito mil quilómetros de distância, D. João VI inaugurava uma nova época de magnificência, engrandecendo a procissão do Corpo de Deus no Rio de Janeiro, transformada em capital do Império. Pela primeira vez, o cortejo religioso revestiu-se de especial pompa, algo não muito comum naquelas paragens tropicais, mas que passaria a ser a regra com a presença da corte, que ali viveu até 1821.
Fontes
João Paulo Ferreira Silva, Primeira Invasão Francesa 1807-1808 a Invasão de Junot e a Revolta Popular, Academia das Ciências de Lisboa, 2015. Disponível em https://www.acad-ciencias.pt/books/primeira-invasao-francesa-1807-1808-a-invasao-de-junot-e-a-revolta-porpular/
William de Souza Martins, Corpo de Deus, Corpo de Deus, Corpo de Rei: A Procissão de Corpus Christi na Corte do Rio de Janeiro (1808-1821), Sociedade Brasileira de pesquisa Histórica (SBPH), Anais da XVII reunião, São Paulo, 1997, pp 177-181. Disponível em:
Arquivo Histórico Militar
https://ahm-exercito.defesa.gov.pt/
Vista da praça do Rossio onde representa a desordem e terror dos franceses no dia de Corpo de Deus em 1808, PT/AHM/FE/010/A07/MD/04
Imagem
Arquivo Histórico Militar
https://ahm-exercito.defesa.gov.pt/
Vista da praça do Rossio onde representa a desordem e terror dos franceses no dia de Corpo de Deus em 1808, PT/AHM/FE/010/A07/MD/04



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