Instantâneos (123): muito mais do que um copo

copo 1.jpg

Delicado e frágil. Habilmente soprado e gravado por mãos experientes. Um sobrevivente! Esta fina peça de vidro encontra-se exposta no Palácio Nacional da Ajuda há 163 anos, ocupando lugar numa vitrina da Sala Azul. Provavelmente passa despercebido aos visitantes, mas conta a história de perseverança de um português, como tantos, mais reconhecido no estrangeiro do que dentro de portas.

copo 2.jpg

Serafim da Fonseca e Sá regressou a Portugal em 1862. No Brasil, onde vivera nos 20 anos anteriores, enfrentara algumas dificuldades para expandir o seu negócio de produção de vidros e cristais de alta qualidade. Vinha esperançoso de a sua arte ser ainda mais valorizada no País de origem e não poupou esforços para se fazer notado em Lisboa.

Do outro lado do oceano, chegara a fornecer gente abastada e o próprio imperador Pedro II, que até o nomeou reposteiro honorário da Casa Imperial. Foi premiado com medalhas de ouro em exposições ali realizadas e foi destaque da representação brasileira na Exposição Internacional, que Londres recebia naquele mesmo ano e onde também foi medalhado, com prata.

O governo propôs até que lhe fosse atribuído o valor de três lotarias para que engrandecesse o seu estabelecimento. O preço a pagar por esse apoio, no entanto, era que se tornasse cidadão brasileiro, o que o artista considerou uma ingratidão para com a sua nação-berço.

Daí, que tenha resolvido rumar à pátria das suas raízes, em busca de uma colocação oficial que fizesse jus aos seus pergaminhos.

“O mais hábil gravador de cristal de que há memória”, autor de trabalhos que “excedem tudo o que de mais perfeito possa vir da Europa”, “verdadeiros primores” dignos de admiração. Estas são apenas exemplos de frases usadas pelos jornalistas dos dois lados do oceano para descrever Serafim da Fonseca e Sá e as suas obras impressionantes, nas quais elogiam a correção do desenho, minucia dos detalhes e desembaraço artístico.

copo 3.png

Para o apoiar nesta tentativa de divulgar os seus dotes e a valia das suas peças, a Sociedade Promotora de Belas Artes de Portugal convidou-o a expor e nomeou-o lente de mérito, propondo que se criasse uma cadeira de gravação, pintura e desenho em vidro, algo inexistente na nossa pobre indústria do vidro, o que obrigava a importar gravadores ou peças já gravadas.

Tudo se conjugava em torno de Serafim da Fonseca e Sá, que até ofertou a El-Rei D. Luís um delicadíssimo copo por si concebido – este copo – onde gravou uma alegoria à vitória de D. João I em Aljubarrota e outra ao casamento real, que ali pretendia enaltecer, com as armas das casas de Bragança e Saboia entrelaçadas, pois que desta era oriunda a princesa Maria Pi,a que nesse mesmo ano se tornou rainha de Portugal.

Mas, a almejada colocação, tardava em vir e os jornais já diziam que seria “uma vergonha e uma grande perda” se, face a esta indefinição, o gravador regressasse ao Brasil. Em dezembro do ano seguinte, como nada se decidisse, Serafim encarava mesmo a ideia de retornar o que, tudo indica, aconteceu mesmo, com o artista a ir trabalhar para a casa imperial. Desconheço, no entanto, se teve de pagar o preço antes anunciado.

Para o recordar, ficou o copo. Este copo, que é apenas uma das 13 mil peças de vidro da coleção do Palácio Nacional da Ajuda, em grande parte adquiridas durante o reinado de D. Luís pois, D. Maria Pia tinha especial apreço por este tipo de objetos, adquiridos nas principais casas produtoras da Europa.

…………………………………

Já aqui contei a história de outros portugueses que não quiseram ser brasileiros.

E sobre como o vidro português nasceu em Coina.

…………………………..

Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal

www.purl.pt

A Revolução de Setembro,  01.06.1862, 03.09.1862, 18.10.1862

 

Memória Brasil

https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br

Correio da Tarde, 27.07.1858

 

Maria João Botelho Moniz Burnay, Glass at the Table of the Portuguese Court: Daily and Ceremonial Glass of the Crown and of Queen Maria Pia, AIHV22 – Annales du 22º Congrés de la Association Internationale pour l´Histoire du Verre, Lisboa, 2021. Disponível em https://www.palacioajuda.gov.pt/

 

Esclarecimentos gentilmente enviados de Maria João Burnay

 

http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=985230&tipo=OBJ

http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=985230&tipo=OBJ

 

O Brasil Artístico, Revista da Sociedade Propagadora de Belas-Artes, 25.03.1911, Typographia Leuzinger, Rio de Janeiro, 1911.

 

Cláudia girão, Projeto e Construção no Rio Oitocentista e no Rio Moderno, Instituto Benjamin  Constant na Urca, 2014. Disponível aqui:

chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/projetos/memoria-ibc/memoria-cultural/acervo-arquitetonico-1/anexos-acervo-arquitetonico/anexos-publicos/ibc_na_urca-projeto_e_construcao-claudia-girao_2014_projeto-memoria.pdf

 

Imagens

http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=985230&tipo=OBJ

http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=985230&tipo=OBJ

 

4 responses to “Instantâneos (123): muito mais do que um copo”

  1. Obrigado! Mas há uma questão que já se foi vendo anteriormente e que merecia mesmo ser investigada… este caso representa um, mais um, de alguém que por ser português foi desprezado em Portugal. É muito comum. Mas de onde vem esse aspecto da cultura portuguesa?

    Gostar

    1. É um facto, que não valorizamos muito os nossos, mas não sei se é mesmo uma coisa portuguesa…como somos um povo que teve sempre muito contacto com outros povos, outras culturas e produtos de outras paragens, essa pode ser uma explicação: habituamo-nos que, de fora, podem vir sempre grandes tesouros…

      Gostar

      1. Hum… é possível. Isto daria um bom tema para investigação. Se alguém de Antropologia, Psicologia, etc, alguma vez vir este comentário, por favor deixem por cá alguma sugestão de resposta, está bem?

        Gostar

      2. Excelente apelo!

        Gostar

Deixe um comentário