Quando o Torrão quis voltar a ser concelho

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Em Portugal há diversos territórios que não se resignaram a perder a independência ou que renegaram os municípios que lhes calharam em sorte nas reformas administrativas.  Em alguns casos, ensaiaram-se rebeliões ou rogou-se ao poder político para atender à vontade dos povos. Foi o que fizeram as gentes do Torrão que, durante o século XIX, foi disputado pelos municípios de Alvito, Viana do Alentejo e, claro, Alcácer do Sal, ao qual, mesmo por vezes contrariados, os torranenses continuaram a pertencer.

 

A 9 de julho de 1887, o Diário do Governo publicava um abaixo-assinado, iniciativa da população do Torrão. Queriam ser independentes e, por isso, pediam ao governo a criação de um concelho administrativo com sede naquela vila, argumentando que haviam sido autónomos desde a atribuição de foral e queriam voltar a essa condição.

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Na época, a freguesia tinha 602 fogos, 1.554 prédios inscritos na matriz predial e um bastante respeitável rendimento coletável de 35 contos 499 mil réis, pagando mais de um conto de réis de contribuição sumptuária, renda de casas, indústria e décima de juros, para além de 700 mil réis de contribuições indiretas. Tudo junto, perfazia uma coleta muito superior a qualquer freguesia próxima.

As gentes do Torrão, orgulhosas das suas capacidades, revoltavam-se contra o que classificavam como “particularíssimas influências da vizinha freguesia de Alvito”, “menos importante” do que aquela vila, mas que conseguiu, “em seu proveito, a transferência da sede do concelho, com grave prejuízo dos interesses e prosperidades do Torrão” – na imagem, o edifício dos antigos Paços do Concelho, sede da Junta de Freguesia.

Em consequência dos “vexames da administração” de Alvito, os habitantes do Torrão viram-se obrigados a pedir a sua anexação ao concelho de Alcácer do Sal, o que aconteceria a 3 de abril de 1871.

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Ora, a sede deste município localiza-se a 34 quilómetros do Torrão e, se hoje, com estrada em boas condições, o percurso se faz em cerca de 35 minutos, imagine-se o que tinham de penar as populações quando precisavam de tratar de assuntos que exigiam a deslocação a Alcácer do Sal, tendo de atravessar “um grande ribeiro”, que nem sempre permitia a passagem, o que implicava “grande perda de tempo” e prejuízos, pois era até “impossível ir e voltar no mesmo dia”.

A resolução de um qualquer assunto implicava, frequentemente, faltar ao trabalho dois ou três dias, algo especialmente penoso para os menos abastados, que tinham, “de mais a mais, às vezes, de mendigar em Alcácer o próprio sustento”.

Isso mesmo argumentavam os abaixo-assinados. Embora reconhecessem uma “administração mais regular” por parte do município alcacerense, diziam que com administração do concelho, presidente de câmara e escrivão a tal distância, não podia haver governo satisfatório e os habitantes sofriam “graves transtornos e inconvenientes” com este estado de coisas.

Efetivamente, na época, Torrão tinha mais de 2 mil habitantes (mais do que hoje possui) e tendia a aumentar a sua população, pois empregava muita gente nas suas propriedades agrícolas, pelo que, entendiam que bem mereciam “proteção por parte dos poderes políticos”.

“Se no Torrão houver administração própria e a presença de autoridades que deem unidade a todas as atividades e as estimulem no caminho dos progressos industriais e agrícolas”, a vila “torna-se com facilidade um centro importante com grande aproveitamento dos seus moradores e também da fazenda pública”. Pediam, assim, para voltarem a ser sede de concelho, sozinhos ou com qualquer outra freguesia que quisesse integrar esse novo município

Como estas reivindicações não foram atendidas, em 1891, as gentes do Torrão “voltam à carga”, desta feita apelando para serem anexados ao concelho de Viana do Alentejo, medida que consideravam “de grande vantagem e de toda a utilidade para os povos da freguesia”, pois obstava às “dificuldades, incómodos, despesas e prejuízos”, que enfrentavam por continuarem ligados a Alcácer do Sal.

Não consta que os governos tenham ido ao encontro das pretensões dos torranenses, pelo que a freguesia do Torrão permanece, até hoje, parte integrante deste concelho.

 

À margem

Ao longo do século XIX foram várias as alterações à configuração do concelho de Alcácer do Sal e seus vizinhos, um pouco ao sabor das reformas administrativas, que também mexeram internamente, extinguindo e criando freguesias.

Em meados da década de 30 do século XIX, tinha 11 freguesias: Santa Maria do Castelo e Santiago, Montevil, Palma, Santa Susana, São Mamede do Sádão, São Martinho, São Romão do Sádão, Sítimos, Vale de Guizo e Vale de Reis.

Em 1835 São Mamede passa para Grândola, em 1871, Alcácer recebe a freguesia do Torrão e, em 1895, passa a integrar Cabrela e Landeira, antes pertencentes a Montemor-o-Novo e que regressam a esse município três anos depois.

Também a região a que o concelho de Alcácer do Sal pertence não foi sempre a mesma. Em 1835 integra o distrito de Lisboa, então criado e ali permaneceu quase um século, até 1926, ano da criação do distrito de Setúbal, do qual passou a fazer parte.

Durante o Estado Novo, a reorganização administrativa de 1936 impõe Alcácer do Sal na nova província do Baixo Alentejo. Nesse ano, são extintas as freguesias de Montevil, Palma, São Martinho e Vale de Reis (integradas em Santa Maria do Castelo); Sítimos e Vale de Guizo (anexadas a Santiago); São Romão, absorvida pelo Torrão.

Em 1969 volta a fazer parte de Lisboa (sub-região do Litoral), mas, dez anos depois, é outra vez “entregue” ao Alentejo e, em 1989. passa a estar no Alentejo Litoral.

Em 1984 a freguesia de São Martinho retoma a autonomia e, em 1989, é criada a freguesia da Comporta.

Finalmente, em 2013, as freguesias de Santa Maria, Santiago e Santa Susana são unidas numa única divisão administrativa que, já este ano (2025), volta a subdividir-se nas três freguesias mencionadas.

Depois, há a história – realidade ou ficção – de a praia da Comporta já ter pertencido ao concelho de Alcácer do Sal e ter sido desprezada, num tempo em que a praia de nada valia.

Mas isso é outra história…

 

Fontes

Diário do Governo

https://digigov.cepese.pt/pt

15.04.1871, 09. 07.1887, 16.06.1891

Ana Tomás, Nuno Valério, Autarquias locais e divisões administrativas em Portugal 1836-2013, Gabinete de História Económica e Social, Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade de Lisboa.

 

 

Imagens

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

6 responses to “Quando o Torrão quis voltar a ser concelho”

  1. Muito interessante – obrigado, como sempre!Mas… “Santa Maria do Castelo e Santiago”? Que lenda se esconde nesse nome? Será que ele simplesmente nasceu da fusão de duas freguesias já anteriores, ou existe uma lenda local em que Santa Maria E Santiago apareceram no mesmo local? Isto é importante porque, a ser verdade, representaria um milagre duplo, algo de muito infrequente nas lendas regionais portuguesas…

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    1. Olá! Obrigada pelo comentário!A a ligação foi forçada pela reforma administrativa de 2013, que criou uma freguesia maior do que a ilha da Madeira, unindo Santa Maria do Castelo, que já era a maior freguesia do País, a Santiago e Santa Susana. Como o caso era elegível e se fez a candidatura, as três serão agora separadas, porque tal foi aprovado em Assembleia da República.Não há, portanto, um milagre duplo. No entanto, este território é fértil em lendas e outras histórias estranhas. Conto algumas aqui: https://osaldahistoria.blogs.sapo.pt/lendas-de-mouras-cavaleiros-deusas-e-64731

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      1. Obrigado! Nada de milagre duplo, então, só fusão de freguesias!

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  2. Cara amiga,É bom saber que foram os torranenses que pediram para pertencer ao concelho de Alcácer do Sal.Bom trabalho!Muito obrigada pela investigaçaão e divulgação da história local.a.lázaro

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    1. Cara amiga,Por acaso fiquei surpreendida com esta informação que descobri. Antes pensava que tinha sido imposta a ligação a Alcácer do Sal. Afinal, os torranenses detestavam tanto os vizinhos de Alvito que preferiram os alcacerenses, que os tratavam melhor.Um abraço!

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