A quadrilha do Zé Rato e outras histórias de ladrões

 

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O homem que ficou conhecido como Zé Rato terá sido o último grande salteador do Alentejo. Com a sua quadrilha, roubava aos ricos lavradores tudo aquilo a que conseguisse deitar a mão, depois vendendo para arranjar dinheiro. As suas façanhas passaram de boca em boca e chegaram a ser faladas num livro de José Saramago.

 

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Até meados do século XX as planícies do Alentejo eram lugares arriscados. As estradas eram poucas e a circulação reduzida, pelo que, quem se aventurava por estes ermos, era presa fácil para os salteadores que chegaram a ser muitos e perigosos. Esta realidade talvez justifique as muitas memórias populares sobre gatunos e ladroagem que persistem. O último destes grandes quadrilheiros terá sido o afamado Zé Rato, que viveu já numa época de maior segurança e cujas façanhas ainda hoje ecoam nas lembranças dos mais velhos e em quadras saídas da arte de poetas populares (ver no final).  O caso remontará aos anos 40 do século XX, mas não logrei encontrar documentos sobre esse gatuno que teve até honras de figurar num livro de José Saramago.

Zé Rato era um maltês que, como milhares de outros, tinha vindo para a região de Alcácer do Sal trabalhar integrado nas ranchadas que tratavam da campanha do arroz, da retirada da cortiça ou da extração do sal. Um dia ter-se-á cansado de trabalhar por tão pouco e decidiu mudar de vida.

Passado algum tempo, reuniu um grupo de homens como ele, com pouco a perder e muita ânsia de sobreviver. Estava assim formado o bando. Zé Rato, cuja audácia e valentia eram sobejamente conhecidas, era o líder incontestado.

Conta Rosinda Paulo que a sua avó, Maria José Mendes, morava no Monte de Volta, ali a meio caminho entre Alcácer do Sal e Palma. Era uma mulher destemida, que tivera 9 filhos.

Conhecida por ser desembaraçada e fumar charuto, tinha ali uma venda, onde servia refeições improvisadas aos passantes e vendia um pouco de tudo a quem morava nas imediações, já que o Monte da Volta confrontava com Palma, Serrinha e Vale de Reis.

Entre os clientes da casa estava a quadrilha desse tal Zé Rato, que a memória popular transformou numa espécie de Robin dos Bosques, que privilegiaria entre as suas vítimas a gente endinheirada, deixando os pobres em paz e ainda os auxiliando.

Talvez por isso – e porque pagava bem quem o servia e guardava segredo – tinha a simpatia da comerciante que também não seria alheia ao facto de estes visitantes andarem todos armados até aos dentes. ”Toda a gente sabia que eles eram ladrões e tinham medo deles, por isso os ajudavam”.

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O grupo de criminosos acoitava-se ali, passando, por vezes, vários dias nas instalações anexas à venda, entre golpes ou em fase de preparação do próximo.

Quando a guarda aparecia, Maria José Mendes, içava num pau alto com um trapo encarnado na ponta, visível do exterior, por dentro da chaminé, sinal que não era seguro aproximarem-se. E, assim, para evitar encontros indesejados, Zé Rato e os seus desapareciam das imediações durante uns tempos.

Esta prática era conhecida e aceite pela restante clientela, assim coniventes

Segundo se lê no Levantado do Chão, de José Saramago, teriam também uma barraca na Serra do Loureiro, perto de Palma, onde se acolhiam e vendiam os porcos – e tudo o mais a que pudessem deitar a mão – que haviam roubado das herdades.

Saramago acrescenta que esta quadrilha de malfeitores ou, antes, “malteses” também trabalhavam no campo, quando não estavam a roubar para comer e para vender.

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Segundo a ficção, roubavam sobretudo porcos e tinham um barco fundeado no Sado, que era o talho deles. Ali “matavam os animais e conservavam-nos na salgadeira”, para quando fizessem falta e para vender aos ranchos de trabalhadores

Isto terá perdurado alguns anos, até que, um dia, a Guarda Nacional Republicana apareceu e cercou o Monte da Volta numa altura em que a quadrilha ali se havia alojado. Rosinda Paulo e a prima Custódia eram pequenas, mas lembram-se: “parecia uma procissão, o bando todo, em fila, ao mando da guarda, mais duas pessoas da família, que também foram presas porque faziam negócios com eles”. Segundo Saramago, o Zé Rato – a que chama Zé Gato – seria detido em Vendas Novas, onde tinha uma amante, uma vendedeira de hortaliças por quem andava embeiçado e em cuja casa acabaria por ser apanhado.

Entre o grupo estaria Lourenço Marrilhas, da aldeia de Casebres. Saramago nomeia “Parrilhas, o Venta Rachada, o Ludgero, o Castelo e outros” como elementos do bando.

Mas, sobre a verdadeira identidade de Zé Rato, nada acrescenta.

José Saramago terá usado como base de inspiração para escrever o livro Levantado do Chão as memórias de João Domingos Serra, depois publicadas pela Fundação Saramago. Os nomes são outros, o enquadramento também, mas as personagens coincidem em muitos aspetos. O escritor conta as desgraças e conquistas da família Mau-Tempo entre 1900 e 1974. As mudanças sociais, a problemática da posse da terra e do trabalho são vistas pelos olhos das personagens desta família alentejana que vive entre os concelhos de Montemor-o-Novo e Alcácer do Sal.

 

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À margem

São muitas as histórias de roubos, assassinatos e outros crimes ocorridos nas aparentemente pacíficas planícies alentejanas. Na Herdade da Torre, perto de Santa Catarina (Alcácer do Sal), aconteceu a também localmente famosa história do “corta cabeças”. Tudo começou com dois malteses – das ranchadas que, sazonalmente, vinham de outros pontos do País para trabalhar no arroz. Um guardou o dinheiro da semana debaixo da cabeça, enquanto se deitou para descansar. O outro, invejoso ou mais necessitado ainda, deu uma forte pancada na cabeça do companheiro matando-o. Não contente com isso, talvez em pânico com o que acabara de fazer ou na tentativa de ocultar a identidade do morto, pegou numa foice e cortou-lhe a cabeça, que cozeu, para não cheirar mal, e enterrou. Depois foi à sua vida

O caso assustou as gentes que labutavam nos campos, que receavam ser a próxima vítima do “corta cabeças”, assim apelidaram o assassino que ainda não sabiam quer era.

Juntando as pistas disponíveis, as autoridades lá acabaram por chegar ao principal suspeito, que “foi apanhado já perto de Montemor-o-Novo”, mas se revelaria um osso duro de roer, não contando onde é que enterrara a cabeça do malogrado outrora seu companheiro de labuta. “Ele parecia que brincava com as autoridades. Dizia que estava ali, mas depois não estava e dizia que afinal era noutro local, mas também não. E assim se passou o tempo, até que a cabeça foi encontrada dentro de um silvado”.

Foi um grande falatório, tanto mais que as autoridades fizeram uma encenação do crime, algo que muito intrigou e até divertiu quem assistiu.

Já na Maceira, a poucos quilómetros de Alcácer do Sal, na estrada que liga a cidade ao Torrão, existia um denominado Pinheiro do Jogo dos ladrões. Conta-se que era debaixo desta árvore imponente que os ladrões jogavam às cartas e dividiam os saques e, no geral, os dinheiros e outros bens de que se tinham apoderado. Em Alcácer, não muito longe da Igreja de Santiago, quando ainda não havia avenida José Saramago e a estrada nacional serpenteava por dentro da então vila, existia uma loja de hortícolas de um tal Manuel Parreira e seu pai, que eram conhecidos por dar guarida aos ladrões, tendo, a dada altura, até sido presos por isso mesmo.

Mas isso são outras histórias…

 

Fontes

Agradeço a documentação disponibilizada por Maria Antónia Lázaro e as memórias partilhadas por Rosinda Paulo, Maria Helena Batista Malheiros, Virgílio Almeida e Palmira Fura.

José Saramago, Levantado do Chão, Editorial Caminho, Lisboa, 1982.

 

Quadras de Francisco Manuel, de Palma, cedidas por Maria Antónia Lázaro.

 

Imagens

A imagem principal foi criada por Inteligência artificial, para ilustrar uma realidade que não existe em imagem.

Estrada das Majapoas, Alcácer do Sal, Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

 

Vara de porcos, PT-AMGDL-MM-26-8, Arquivo Municipal de Grândola

Estrada, PT-AMFDL-MM-49-16, Arquivo Municipal de Grândola

16 responses to “A quadrilha do Zé Rato e outras histórias de ladrões”

  1. Muito interessante! Outros tempos, outras vivências. Gostei de ler. Obrigada pela partilha

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    1. Olá, Ana, eu é que agradeço, o interesse e o comentário.

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  2. É sempre um gosto ler estes seus textos. Desta quadrilha ainda não tinha ouvido falar. Curiosa também a primeira imagem, que comecei por examinar em detalhe com curiosidade, dada a sua boa nitidez, até ler no final que foi gerada com inteligência artificial. Bem que tem vários pormenores intrigantes… Outros tempos, realmente. Obrigado por partilhar connosco.

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    1. Olá Miguel P. Grata pelo comentário. Esta quadrilha era um problema mais regional, que acabaria por ter maior divulgação devido à obra do José Saramago. Em Alcácer do Sal há ainda muitas memórias, passadas de pais para filhos e de avôs para netos, sobre esta gente. No fundo, eram uns pobres diabos como os outros, mas resolveram arriscar fazer uma vida diferente. Quanto à imagem…já não é a primeira vez que utilizo esta estratégia para tentar criar uma ilustração, quando não tenho qualquer qualquer imagem sobre o tema. Não faço ideia se corresponde, mas também não quis que as pessoas pensassem que era verdadeira, por isso revelo a origem. Obrigada!

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  3. Que maravilha, faroeste à portuguesa num Alentejo que poucos conheciam. Saramago enquadra as peripécia daquela seita de um modo magnífico na crónica da família Mau-Tempo, a obra que, para mim, depois de “Memorial do Convento” será a que mais me tocou. Obrigado, adoro as suas estórias.

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    1. Caro Carlos Arnaut, muito obrigada pelo comentário! Nos anos 40, já não seria bem assim, mas o Alentejo dos finais do século XIX tinha um pouco de terra sem lei ou com a consciência de ter a lei à distância, o que dá sempre algum conforto a quem quer prevaricar. E não era só o Alentejo. Há imensas histórias de salteadores e outros bandidos, como esta, que já aqui publiquei:https://osaldahistoria.blogs.sapo.pt/quando-na-beira-mandavam-as-quadrilhas-127266

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  4. Outras épocas, ainda me lembro do meu avô dormir na rua, com a sua caçadeira ao lado, junto ao eirado onde se secavam alfarroas, milho, aemêndoas etc para não ser roubado por este tipo de gatunos. Mas outras histórias levam-nos até atualidade onde os roubos continuam e alguns evoluiram e passaram a ser criminosos de colarinho branco.

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    1. Olá! Grata pelo comentário! Sim, outros tempos. Quando ouço as pessoas dizerem que se sentem inseguras agora e que isto nunca esteve tão mau, peço para lerem um jornal do séc. XIX. Ficariam horrorizadas com certas histórias. A questão é que se cometiam barbaridades por muito pouco, porque as pessoas tinham muito pouco e insegurança sempre houve. Querer ter o que é dos outros faz parte da natureza humana.

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  5. «Levantado do Chão» é a obra de Saramago que mais gosto, pelo realismo que transmite no respeitante à miséria que o povo alentejano passou durante a ditadura salazarista. Muito obrigado por divulgar a fome que o povo português passou durante o fascismo salazarista.

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    1. Eu é que agradeço, o interesse e os comentários que aqui vai deixando. Foram tempos muito difíceis. Como mesmo agora respondia a outro leitor sobre a insegurança, as pessoas não sabem do que falam quando afirmam que a situação atual é má. Se compararmos com o que tínhamos há 100 ou até à 50 anos, estamos melhor em todos os aspectos, as expectativas das pessoas é que são outras…mas isso é outra história.Se calhar já leu, mas deixo aqui link para outro post no qual falo de tempos difíceis por estas paragens:https://osaldahistoria.blogs.sapo.pt/a-estranha-gente-dos-arrozais-123770

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  6. Gostei muito do seu texto. Muito interessante a relação que fez com o romance “Levantado do Chão” de José Saramago que é um dos meus preferidos.Maria Teresa Lopes Pereira

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    1. Olá! Muito obrigada pelo comentário. O mérito aqui não é meu. O Saramago é que juntou as duas histórias e a minha amiga Maria Antónia Lázaro é que me falou primeiramente deste Zé Rato. Eu só contei a história…Beijinhos!

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  7. Avatar de Sérgio Leitão
    Sérgio Leitão

    Os meus parabéns! Conseguiu expor todas as histórias que eu ouvi do meu avô!e o meu avô era irmão do Lourenço e por lealdade ao irmão evitava falar sobre a quadrilha.

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    1. Caro Sérgio Leitão, agradeço muito o seu comentário. Há muito que queria falar sobre este assunto, mas o facto de ter pouca documentação inibia-me. Ainda bem que se identificou com o que escrevi.

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  8. Olá Cristiana! Curiosamente, contava eu sobre a Quadrilha do Zé Rato a um amigo meu este fim de semana, quando ele posteriormente envia-me de volta este teu artigo, que lhe apareceu por um acaso. Ouvi as duas histórias por várias vezes a partir das Cantadeiras das Aldeias e a da Quadrilha a minha mãe sabe de cor as primeiras quadras, que as ouço dizer desde pequena. Parabéns por este teu trabalho. Tenho um projeto a propósito destas recolhas mas, quanto a isso, são outras histórias☺️ beijinhos

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    1. Olá, Susana, ainda bem que encontraram este artigo por acaso. Há muito que queria escrever sobre esta personagem, mas é sempre complicado quando a realidade e a ficção se cruzam e faltam documentos. Fico contente por teres gostado e fico curiosa quanto ao projeto de que falas. Urge recolher estas informações que, de outra forma, se perdem e que fazem parte da identidade desta terra. Acredito que as tuas cantadeiras são portadoras de muitas histórias interessantes e contá-las, assim como cantá-las – como fazem contigo – são contributos extraordinários para preservar a nossa memória coletiva e, em simultâneo, para a saúde e a alegria das senhoras. Beijinhos!

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