Instantâneos (117): ao serviço de reis e presidentes

 

 

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Durante meio século foi a sombra dos chefes de Estado de Portugal. Entrou como ajudante casual, foi moço de sala e ascendeu a mordomo e chefe de pessoal menor. Serviu 14 chefes de Estado, entre reis e presidentes. De D. Luís a D. Manuel II. Do “sábio” Teófilo Braga, ao general Carmona, com quem foi a África; passando por Sidónio Pais, que “mal dormiu durante todo o tempo que esteve em Belém”. Vital Ferreira Fontes persistiu em épocas de grande tumulto e mudança. Mesmo depois de se aposentar, permaneceu junto ao seu posto, pronto para ser chamado a servir, sempre com a mesma discrição e humildade que, provavelmente, tiveram peso nesta longevidade em tão delicadas funções.

ouvindo o presidente antonio jose de almeida a sai

A sua origem não augurava nada de bom. Foi exposto na roda, na Sertã, distrito de Castelo Branco, longe, portanto, dos centros de decisão onde faria a sua vida profissional.

Prestou serviço militar parcialmente em Lisboa e foi logo depois que o casamento de D. Carlos com D. Amélia – com consequente necessidade de desdobrar por dois lares o pessoal ao serviço da Casa Real – abriu as portas à sua contratação.

Estavam D. Luís e D. Maria Pia no trono de Portugal. Daí que o novo funcionário tenha ficado a morar em modesta casinha “emprestada”, a dois passos do Palácio Nacional da Ajuda e onde criou a sua própria família.

junto ao automóvel na despedida de teixeira gomes

Uma das funções que primeiro abraçou foi a de dar corda aos muitos, antigos e complicados relógios existentes, mas cumpriu muitas outras tarefas, velando pelos pequenos pormenores que fazem toda a diferença em organizações complexas e com elaborados protocolos. Chegou a acompanhar deslocações, de palácio em palácio, com uma parafernália de objetos “às costas”, e ao estrangeiro, em viagens oficiais.

Lembra-se dos momentos de grande tensão, das alegrias pelos nascimentos de príncipes e da enorme dor resultante do regicídio; da instabilidade na mudança de sistema político; das ocasiões solenes, de pompa circunstância; dos beija-mãos de gala; das “faltas de chá” à mesa e dos assaltos aos bufetes, inusitados perante convivas que se esperam educados e ponderados.

Percebeu a grande dificuldade da Casa Real em gerir a subvenção que recebia e não chegava para tanta despesa, tal como a impotência dos primeiros presidentes, perante o tempestuoso desenrolar dos acontecimentos, que não controlavam.

Curiosamente, recorda mais as qualidades que os defeitos ou as “manias” dos “patrões” tão especiais que foi tendo, entre 1886 e 1936, bem como de muitos episódios anteriores, com antigos monarcas, que ouviu quando deu entrada na residência real.

vital fontes segundo da direita acompanha um dos g

As memórias de Vital Fontes, partilhadas e postas por escrito em 1945, quando já se aposentara, são uma rica fonte de informação sobre os acontecimentos de maior relevância, mas ainda mais, sobre os fait divers da vida de todos os dias de quem deteve os títulos e a responsabilidade, ainda mais do que o poder, em Portugal, limitado para os reis e os presidentes da república.

São uma oportunidade para conhecer a face humana destes ilustres portugueses e as especificidades do trabalho de quem está na sombra, na retaguarda, nos bastidores, mas é essencial para que tudo funcione, resplandeça e transmita uma imagem de harmonia que, algumas vezes, é apenas isso mesmo, apenas uma imagem projetada. 

 

 

 

Fontes

Rogério Perez (compilação), Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes, Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, Lda. 1945.

 

Arquivo da Presidência da República

PT/PR/AHPR/SG-GPE-GP/GP0201/2584/001

PT/PR/AHPR/SG-GPE-GP/GP0201/2584

PT/PR/AHPR-CH/CH0101-CH010104/CH01010401/D210721

 

PT/PR/AHPR-CH/CH0101-CH010101/D211656

10 responses to “Instantâneos (117): ao serviço de reis e presidentes”

  1. Cara amiga,Mais um excelente artigo sobre as gentes anónimas da nossa história que têm muitas e interessantíssimas histórias para partilhar connosco.Muito obrigada.a.lázaro

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  2. Obrigado por mais esta pérola, enterrada nos arquivos que só alguns (poucos) têm a curiosidade e vontade de pesquisar. É sempre bom vir aqui ao seu blog. Saio sempre mais rico. Acho curioso o facto de o senhor Vital Fontes ser beirão, mais ainda da Beira interior, região que tantos associamos a uma maior predominância de personalidades como a sua, pelo menos em tempos idos. Será que continua a ser assim?

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    1. Olá! Obrigada pelo simpático comentário. Este encontrei numa daquelas compras “cegas” de livros manuseados. Quanto às Beiras e aos beirões, penso que falará da discrição, retidão e humildade do senhor. Acho que isso não será exclusivo das beiras, mas de uma certa classe social – se é que lhe podemos chamar assim – de gente muito digna, leal, com uma educação baseada em valores sólidos e no trabalho. Eu acho que esse tipo de pessoas existe em qualquer parte do País, embora aceite perfeitamente que nas Beiras as pessoas sejam tradicionalmente conservadoras e religiosas, o que pode contribuir para os outros atributos. Hoje não sei se ainda assim é. Estamos todos mais mesclados, mais misturados e até acho que isso é bom. Grata pelo interesse!

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  3. Obrigada por mais um excelente artigo. Tenho o livro citado desde a biblioteca do meu avô. Um abraço e boas férias.

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    1. Olá! Muito obrigada! Agradeço e retribuo os votos de boas férias. Vou continuando por aqui, mesmo a banhos.

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  4. Obrigado pelo tema, como sempre! :)

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    1. Eu é que agradeço!

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  5. Gostei bastante de saber da existência desta preciosidade , vou tentar adquirir pois fiquei muito curioso para o ler .

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    1. Eu comprei uma edição antiga, mas há uma recente que é mais fácil de encontrar. Boas leituras!

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