Pela imprensa (26): ENO final, azia, sais ou não sais?

 

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Há muito que os sais de fruta são a resposta para a sensação de ardor no estômago e desconforto digestivo. Ora, os sais Eno são dos mais antigos destes medicamentos ainda no mercado, embora não se conheçam os seus efeitos naquela outra azia…que sentimos quando o nosso clube perde um jogo decisivo ou nos vimos obrigados a engolir um daqueles enormes sapos, não menos desagradáveis por serem apenas simbólicos.

Tamanha longevidade talvez se deva, antes, ao facto de, acreditando na publicidade da marca, terem um efeito positivo num vasto conjunto de incómodos.

Evitavam fadigas ao estômago e aos intestinos, anunciavam funcionar como laxante e até como solução para as dores de cabeça. 

Muito contribuiu para a sua grande projeção mundial a alegada eficácia contra os enjoos marítimos, para além de febres e “mudanças de clima”.

O inventor deste célebre remédio oferecia embalagens aos comandantes dos navios que aportavam a Newcastle, onde estabeleceu a sua primeira fábrica. Esta brilhante manobra de marketing fez a fama dos sais espalhar-se por todos os pontos do globo.

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É precisamente ao fundador que o produto deve o seu nome. James Crossley Eno era um farmacêutico natural daquela cidade inglesa, cheio de ideias e vontade de vencer, que também efetuava serviço de dentista e vendia substâncias por si manipuladas, nomeadamente reparadores capilares.

Em 1852 comprou um negócio de químico no mercado local.

E, foi por essa altura que começou a produzir uma preparação salina que efervescia quando em contacto com a água e que parecia tiro e queda em situações de ressaca e digestões difíceis.

A procura foi tanta que a fabriqueta teve de mudar-se para um espaço maior, em Londres. James Eno permaneceu à frente do negócio até 1905 e morreu de pneumonia dez anos depois.

Por cá, os sais Eno chegaram a ser apresentados simplesmente como o melhor remate para uma lauta refeição ou o “refresco ideal”, que, para além de saboroso, fazia bem à saúde.

 

Pelo menos nos anos 20, o produto tinha como representante a Robinson, Bardsley & Co, Lda, no Cais do Sodré, em Lisboa, também responsável pelas conservas Alba e a mostarda Savora

Em 1938, a marca foi adquirida pela Beechams e atualmente pertence à multinacional farmacêutica GlaxoSmithKline.

Apesar das adaptações e melhorias do produto, na génese, é um composto que tem por base o bicarbonato de sódio, carbonato de sódio e ácido cítrico (daí denominar-se sais de fruta). Como é uma substância alcalina, neutraliza a acidez do suco gástrico, intensificada por alguns alimentos.

 

 

 

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Fontes 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Illustração Portugueza, 01.09.1927, 01.10.1929

Gazeta das Colónias

29.01.1925.

 

https://co-curate.ncl.ac.uk/james-crossley-eno/

https://www.amazon.com/Fruit-Sparkling-Antacid-Original-FLAVOUR/dp/B00CZ54VNA

https://www.sciencephoto.com/media/978864/view/eno-s-fruit-salt-advertisement-1914

https://www.posterazzi.com/enos-fruit-salt-ad-1895-nenglish-newspaper-advertisement-for-enos-fruit-salt-which-claims-to-act-as-a-remedy-for-nearly-every-ailment-1895-poster-print-by-granger-collection-item-vargrc0090681/

https://conservasdeportugal.com/alba/

https://www.santanostalgia.com/2013/07/com-savora-tudo-melhora.html#google_vignette

8 responses to “Pela imprensa (26): ENO final, azia, sais ou não sais?”

  1. Lembro-me bem dos frascos de Eno que deixei de ver no mercado há muito tempo, ou então ainda existem mas o marketing de outras marcas são agora mais fortes, ainda que com a mesma eficácia ou, quiçá, talvez menos.De facto lembro-me que aliviamvam a dor de cabeça também.

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    1. Olá! Confesso que nunca experimentei o produto – nem qualquer outro do mesmo tipo – mas esse efeito contra a dor de cabeça foi, para mim, uma novidade. O mais próximo que experimentei foi o Gurosan, na adolescência.

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      1. Wow! Obrigado pelo tema, como sempre, é muito interessante e tende a ser uma daquelas origens em que as pessoas pouco pensam…Mas… será que não devia experimentar o produto, só por motivos de pesquisa, e tal?!

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      2. Muito obrigada! Se quer saber, fiquei com curiosidade, mesmo! Quanto à pesquisa, e tal, estava bem tramada, já que quase sempre falo de produtos que já não existem, de pessoas que já morreram, de edifícios que já desapareceram ou de acontecimentos de que já ninguém se lembra…

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      3. Sim sim, entende-se, mas por vezes o mais divertido é mesmo ir investigar o máximo de coisas sobre esses produtos, pessoas e locais desaparecidos. Por exemplo, uma curiosidade – descobrir o antigo Zoo de Lisboa é muito simples, mas o que quase ninguém sabe é que o novo ainda preserva uma das jaulas do antigo, e que o próprio recinto deste segundo já foi muito maior!

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      4. É curioso este vosso interesse profundo pelo Jardim Zoológico de Lisboa…qual é a jaula antiga que permanece?

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