Instantâneos (111): entrar em 1924 com o jazz nos pés e o Egito na cabeça

 

 

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Foi ao som frenético e indomável das jazz-band que os boémios portugueses entraram em 1924. Há um século, no nosso País, as principais influências de quem queria ser moderno vinham de países tão longínquos quanto diferentes: os Estados Unidos da América e o Egito.

Era uma Europa bem diferente da que hoje conhecemos, um continente em reconstrução, liberto da guerra, ávido de divertimento e novidade. A vida noturna, onde o jazz começava a dominar entre esta nova geração, representava essa descontração rebelde, tendencialmente desinibida, quer pela euforia sentida nos ares dos tempos, quer pelo champanhe que corria, a par do absinto, do éter, da morfina e da cocaína.

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O ascendente norte-americano substituía o francês,  até ali determinante das novas tendências em Portugal.

Naquele réveillon de há cem anos, o jazz era a batida do momento nos cabarets da Capital. “Música de selvagens, donde se levitam gritos de desbravadores de selvas”, onde os sons inesperados se opõem às harmonias “civilizadas” até então ouvidas. Era vista como “uma gama de ruídos díspares, heterogéneos”, interpretada por músicos “excêntricos”, que chocavam pelos seus modos provocadores, quase obscenos.

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E, no entanto, toda essa envolvência atraía multidões e esses sons aparentemente sem nexo formavam “um ritmo uno, glorioso”, que excitava os corpos e agitava as almas.

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E, por isso, entrou de rompante na Europa, primeiro em Paris, Londres e Berlim, chegando finalmente a Portugal, onde rapidamente “invadiu os teatros, os bares, os cinemas” e até alguns salões aristocráticos que, no início daquele ano, longe de serem garantes da tradição, já assistiam a “audaciosos pés (…) ensaiando os passos da música selvagem” e “corpos volúveis bailando suas mefistofélicas contorções”.

 

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Pode perguntar-se o que tem o Egito a ver com tudo isto…Pois nesse final de 1923, o mundo ficou a conhecer todo o esplendor e riqueza dessa antiga civilização, através da descoberta do túmulo de Tutancamon, cuja câmara funerária havia sido aberta em fevereiro. O feito foi amplamente divulgado e as imagens e relatos tiveram o condão de deslumbrar, inspirando a moda.

Faraós e múmias tomaram conta do imaginário coletivo. Hieróglifos, esfinges, pirâmides, escaravelhos, passaram a fazer parte das decorações dos espaços, dos bordados e padrões nas roupas das senhoras, dos enfeites que usavam nos cabelos, dos pendentes que traziam ao pescoço e, certamente, de algumas indumentárias vestidas pelos que se divertiam às primeiras horas do ano de 1924.

 

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Nota: a primeira imagem é de 1930. As restantes são de janeiro de 1924.

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Illustração Portugueza, 19.01.1924, texto de Ferreira de Castro.

Illustração Portugueza, 02.02.1924.

 

Reporter X, 16.08.1930

 

Cecília Vaz, Boémia noturna e sociabilidade artística: cabarés em Lisboa nos «loucos anos vinte», in Hipóteses de Século – Estudos de Século, nº9, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009. Disponível aqui: http://hdl.handle.net/10071/13500

 

Mariana Calado, O jazz no Diário de Lisboa na década de 1920, in Cuadernos de Etnomusicología Nº10, SIBE – Sociedade de Etnomusicologia, 2017. Disponível aqui: CESEM_Jazz.pdf (unl.pt)

 

Imagens

Reporter X, 16.08.1930

Illustração Portugueza, 19.01.1924

 

 

 

17 responses to “Instantâneos (111): entrar em 1924 com o jazz nos pés e o Egito na cabeça”

  1. Delicioso texto. Os “loucos anos 20” e o fascínio que continuam a suscitar. O meu avô paterno, então já avançado na casa dos seus 40 anos de idade, de origens humildes mas já na altura com uma vida confortável no Porto, conquistada à custa de trabalho árduo e muita força de vontade, republicano convicto, culto e amante da música “clássica”, não consta que alguma vez tenha sido seduzido pelo jazz. Pergunto-me mesmo se tal moda chegou ao Porto nessa altura, pois nunca ouvi qualquer referência significativa a esse estilo musical dos melómanos da família dessa geração e da seguinte. Já este seu neto não se cansa de ouvir jazz, de que os anos 1920 continuam a ser uma referência incontornável.Feliz Ano de 2024!

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    1. O Jazz era tocado em diversos estabelecimentos da Cidade do Porto nessa época – Década de 1920 – tendo a Invicta sido pioneira na divulgação desse estilo de música em Portugal, e mais tarde, já durante o Estado Novo, viria a tornar-se num pólo fundamental na promoção do Jazz dando a conhecer grandes músicos.Porém, não havia grande aderência nos Anos 20 por parte dos Portugueses ao Jazz, inclusive por parte dos Portuenses e Lisboetas que frequentavam a boémia das suas respectivas Cidades.

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      1. Caro Figueiredo, agradeço o seu contributo. Nas fontes que li, efetivamente, não encontrei referências ao Porto, mas certamente que este tipo de música também lá se ouviu. Diz que não houve muita adesão dos portugueses. As fontes que li, especificamente as publicações de época, falam de uma grande euforia quanto ao jazz-band e foi com base nessa informação que escrevi o texto. Talvez, agora, passado um século e em perspetiva, se entenda que não foi muito importante ou foi muito passageiro, mas, na época, as indicações que tenho dão conta de um grande entusiasmo quanto a este tipo de música, especificamente nos anos 20. Os textos de época que li são mesmo de janeiro e fevereiro de 1924.

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      2. Eu não escrevi que não houve uma grande euforia com a música Jazz, é natural que entre os Portuenses e Lisboetas que frequentavam as respectivas boémias das suas Cidades muitos se entusiasmassem, afinal quando estamos num salão, café, bar, etc., desfrutamos da música que lá toca, isto é válido para todas as épocas.Mas efectivamente não houve (nem nunca houve) grande aderência por parte dos Portugueses, aliás, o Jazz e o Blues foram sempre para um público muito exclusivo, parco, em Portugal, ou seja, para quem gosta desses estilos.Também é normal que existisse nos Anos 20 publicidade a esse novo estilo musical nas publicações da época, caso contrário os donos dos estabelecimentos não facturavam.«…Nas fontes que li, efetivamente, não encontrei referências ao Porto…»Há muita coisa que não se sabe – infelizmente – mas é verdade quando escrevo que o Jazz era tocado nessa época na Cidade do Porto.Por último, deixo-lhe uma sugestão, pesquise nos arquivos sobre os problemas, crimes, actividades ilícitas e casos de polícia, ocorridos nessa época no ambiente boémio, é espectacular e muito interessante.

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      3. Caro Figueiredo, agradeço o seu comentário. Os crimes de época são um dos meus temas preferidos, não só nos anos 20. Efetivamente, já tenho escrito e pretendo voltar a escrever sobre esses assuntos, porque os acho muito interessantes e um paralelo curioso com a criminalidade dos dias de hoje. Se tiver curiosidade, procure aqui no blog textos sobre criminalidade. Evito, no entanto, crimes muito horrorosos, porque o objetivo é que o blog disponha bem e, embora falando de coisas sérias, seja divertido. Bom ano!

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      4. Quando tiver disponibilidade darei uma vista de olhos; um Bom Ano de 2024 para si e toda a família.

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      5. Fica combinado! Desejo-lhe o mesmo. Cumprimentos.

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    2. O seu Avô era Portuense?

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      1. Obrigado pelo esclarecimento.O meu Avô era de uma aldeia nos arredores de Coimbra, mas foi para o Porto com 12 anos de idade, trabalhar como marçano para ajudar financeiramente os pais a criar os irmãos mais novos. Tempos difíceis. Manteve-se toda a vida em estreito contacto com a sua aldeia natal, mas viveu o resto da sua vida no Porto, onde manteve intensa actividade cívica e onde nasceram todos os seus filhos. Era um leitor ávido dos clássicos da literatura de então e de jornais e revistas de actualidade, o que contribuiu decisivamente para a sua formação como homem e como cidadão. Arrisco que talvez o jazz tenha seduzido principalmente as gerações mais jovens, a que o meu Avô já não pertencia nessa altura.

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      2. Tendo em conta que o seu Avô não era Portuense, é normal que não conhecesse o facto do Jazz ser tocado em diversos espaços/estabelecimentos de diversão nocturna na Cidade do Porto na Década de 1920, mas é como escrevi, o Jazz não tinha muita aderência nessa época por parte dos Portugueses, ouvia-se por ouvir, era o que tocava.

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    3. Caro MP, grata pelas suas palavras e pela partilha de memórias, neste caso relacionadas com o seu avô. Não consigo responder a essa questão, mas, de facto, nos estudos e outras fontes que li, e que são mencionados no fim do texto, as alusões são sempre a Lisboa e a espaços lisboetas. Por isto, presumo que a “loucura” do jazz tenha tido mais adeptos em Lisboa do que na Invicta.Deixo aqui indicação de dois livros que não li, mas que talvez pudessem esclarecer esta questão, se tiver interesse. Trata-se de A Idade do Jazz-Band, que fiquei mesmo com vontade de comprar, porque é do António Ferro e, sabendo o seu percurso posterior, fiquei com muita curiosidade.O outro é Jazz em Portugal (1920-1956), de Hélder Bruno de Jesus Redes Martins. É um trabalho académico de âmbito nacional onde sei que se fala também do Porto.Bom ano e boas leituras!

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    4. Já agora, o livro do António Ferro é mesmo de 1924, tem exatamente um século. As fontes de época que li e usei no texto são mesmo de janeiro e fevereiro de 1924, dai ter usado esta abordagem quanto à abertura do ano, há cem anos. Cumprimentos.

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  2. Os Ingleses sempre produziram boa música.

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  3. Bom ano de 2024 ! E isto levanta uma boa questão…. aquela “Egiptomania” que correu a Europa no século XX, e que ainda hoje pode ser vista no Jardim Zoológico lisboeta, será que ela deriva, de facto, dessa descoberta do túmulo de Tutancamon?

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    1. Eu acho que o Egito sempre exerceu um grande fascínio na Europa. A provar isso mesmo, com um exemplo aqui do nosso “cantinho”, está a Floresta Egípcia, parque de diversões do qual já falei aqui e que é do século XIX:https://osaldahistoria.blogs.sapo.pt/pandega-a-valer-era-na-floresta-egipcia-48887Mesmo no início do século XIX, o Napoleão invadiu o Egito e ficou fascinado. Presumo que tenham trazido imensas coisas. Isso terá aumentado o conhecimento sobre o Egito na Europa de então.O Egito tem tudo para agitar as imaginações. Não há nada mais exótico e grandioso. Ainda hoje, é um tema que vende.Especificamente a partir de 1923, a descoberta do túmulo do Tutancamon ainda veio intensificar essa curiosidade e interesse. Foi num texto de época (1924) que li sobre essa apropriação da moda quanto ao tema do Egito, daí ter usado esta abordagem. Até ler, desconhecia que assim tinha sido. Já agora, é fácil de adivinhar qual foi o principal tema das máscaras e disfarces no Carnaval de 1924…

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    2. Um 2024 cheio de inspiração e textos interessantes e, claro, saúde e energia para os pesquisar, ler e escrever! São os meus votos.

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