A empreendedora família Rodeia

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Num concelho em que a terra estava repartida apenas por um pequeno punhado de homens e à maioria esmagadora dos restantes restava-lhes ser assalariados dos primeiros ou comerciantes. Os Rodeia destacaram-se como operários, uma classe da qual pouco reza a história.

Ao primeiro dia do mês de outubro de 1911, praticamente um ano após a implantação da República, é fundado em Alcácer do Sal um novo jornal, que se anuncia como quinzenário da classe trabalhadora. Efetivamente, O Rude – assim se denominava – tinha ao leme um grupo de operários, unidos pelo mesmo sobrenome. Benjamim Afonso, António José, João José e Augusto José Rodeia repartiam entre si os cargos de diretor, secretário de direção, editor e administrador.

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Eram também proprietários da publicação e, no primeiro número, logo fizeram questão de explicar ao que vinham. O jornal destinava-se a contribuir para a divulgação das doutrinas socialistas.

Os Rodeia, aliás, declaram-se seguidores das ideias de Marx e Engels, propondo abrir os olhos dos seus leitores para essa nova realidade ideológica.

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Apesar do cuidado com que foi redigido o texto, asseguram que a linguagem a usar no jornal será desprovida de “elevações de frase” ou “ornamentos”, adotando um estilo simples e até rude – daí o título escolhido – no qual prometem dizer tudo o que pensam e sentem, “com a sinceridade de crente e a precisão da verdade”.

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Os Rodeia, como se pode perceber, não eram uns operários banais. Numa época em que a esmagadora maioria da população de Alcácer era analfabeta, eles não só sabiam ler e escrever, como o faziam com correção.

Pelos anúncios publicados no próprio jornal, ficamos a saber que estão estabelecidos por contra própria.

 

Augusto José Rodeia, fornecia caixões funerários, com preços que variavam entre os 4$000 e os 18$000 reis, para além de vender coroas de flores; cortar e colocar vidros.

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A sua loja situava-se na calçada 31 de janeiro, onde igualmente João José Rodeia tinha casa aberta, mais propriamente uma oficina de carros e obra branca.

Benjamim Afonso Rodeia era carpinteiro de construção civil, mas também o iremos encontrar na política local. Em 1908, fez parte da primeira lista de elementos republicanos eleita para o executivo da Junta de Paróquia de Santiago, afirmando-se socialista. Foi secretário da mesma Junta até 1919, altura em que foi substituído por João Afonso Rodeia, que ocupou o cargo até 1941. Ambos eram, assim, responsáveis pela redação da maior parte dos documentos emanados daquela entidade, incluindo atas.

Benjamim fez também parte da Associação de Classe dos Trabalhadores Alcacerenses e foi presidente da Assembleia Geral da Associação Alcacerense de Socorros Mútuos.

É este Benjamim Afonso Rodeia, carpinteiro de construção civil, que vemos à direita na fotografia principal, captada muito provavelmente na década de 40 do século XX.

Trata-se de uma reunião familiar em que se comemorava o seu aniversário, a 28 de maio. À mesa, do lado oposto, está o filho a quem deu o mesmo nome e transmitiu muito do conhecimento que o tornou, talvez, o principal projetista e construtor de Alcácer, embora tivesse apenas concluído a 4ª classe.

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Benjamim Afonso Rodeia Júnior, na mesa praticamente escondido (aqui com a mulher, já nos anos 60), faz jus à sua postura sempre discreta e humilde.

Era, em final da vida, um dos principais proprietários urbanos da então vila e desenhou dezenas de casas, muitas das quais ainda existem.

O jornal Rude, foi mais efémero. Durou apenas até fevereiro de 1912, mas nos nove números publicados traça-se um retrato bem vivo da classe laboriosa alcacerense daquela época de grandes mudanças sociais, denunciam-se abusos de alguns grandes lavradores, critica-se a carestia dos géneros alimentícios e faz-se uma viagem por aquilo que vai acontecendo de mais relevante no concelho.

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À margem

Benjamim Afonso Rodeia Júnior casou com Justina Lúcia Serra, o par ideal, que ombreava com o marido até nas tarefas mais pesadas enfrentadas em início de vida em comum. Foram cinco anos sem que lhes surgisse o primeiro descendente, e que dedicaram ao trabalho.

Coadjuvados por mais uns pares de braços aos quais pagavam, carregando, à força de carroça, água do poço velho e materiais, construíram as 12 casas que compõem o núcleo original do Bairro de São Francisco – junto ao “Convento dos Frades”.

“Quando eu morrer, hão de ouvir dizer que o Benjamim fez casas para muita gente morar”, costumava dizer. E falava a sério, embora não se tenha limitado a construir habitação.

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São obra sua a chaminé da antiga sociedade de lavradores, no cabo de São Pedro – que faz parte da imagem do casario alcacerense – e a chaminé da Torrinha; o edifício na zona dos Telheiros onde está instalada a Funerária Valente e o segundo andar da sede da Sociedade Filarmónica Amizade Visconde de Alcácer (Calceteira), erigido numa época em que foi presidente da coletividade e pôs toda a agente a trabalhar a seu lado, congregando forças e vontades. E muitos outros, para além de ter desenhado inúmeros edifícios depois construídos pelos próprios donos.

Numa época em que arquitetos e engenheiros não abundavam em Alcácer, Benjamim fazia projetos encomendados por particulares e instituições. E construía também fora da vila, nomeadamente em Montalvo e na Comporta.

Por vezes, regressava de uma entrega sem dinheiro, mas com galinhas e outros géneros que serviam de pagamento dos seus serviços. Sempre bem-disposto, diz quem com ele privou durante décadas, sempre simples e de portas abertas para receber, pois quem entrava na sua casa nunca ficava sem comer. 

E dona Justina colaborava em tudo com o mesmo empenho. Autodidata como o marido, embora também com diminuta instrução, lia e escrevia como uma mestra.

Benjamim Afonso Rodeia Júnior e o irmão, João, músico na Calceteira, eram pessoas respeitadas na terra. Nos anos 50 e 60, Benjamim ainda arranjava tempo para ser presidente da mesa de eleição da Junta de Freguesia de Santiago e fazer parte do Conselho Municipal, órgão com competência para aprovar decisões camarárias de maior importância.

Outros Rodeia tiveram o seu papel na história recente de Alcácer, nomeadamente no movimento associativo ou como vereadores na Câmara Municipal. São os casos, respetivamente, de João Afonso Rodeia – presidente da Calceteira – Augusto José Rodeia, assistente do primeiro presidente republicano do município alcacerense e João José Rodeia que, meio século antes, fazia parte do executivo da Câmara Municipal de Alcácer do Sal que, em 1852 tomou a difícil decisão de cortar nos salários dos funcionários para pagar as muitas dívidas acumuladas.

Mas isso é outra história…

 

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Nota: Benjamim Afonso Rodeia é o quinto a contar da direita, ao lado do filho João. Benjamim Afonso júnior é o sexto da esquerda. Nas imagens individuais, por esta ordem, Benjamim Afonso, António José, João Joaquim e João José Rodeia.

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Fontes

Conversa com Rosinda Paulo, que trabalhou décadas para a família Rodeia.

Informação recolhida por Maria Antónia Lázaro.

Agradeço a ambas a enorme generosidade.

 

Aquivo Municipal de Alcácer do Sal

Coleção Jornal O Rude

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/02/01/001

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal

Coleção Jornal Pedro Nunes

 

Imagens

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

Fotografia de Família

Fundo Baltasar Flávio

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Marginal ribeirinha

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/02/01/0076

Chaminé

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/10325

 

Arquivo particular

Benjamim Afonso Rodeia júnior e Justina Serra Rodeia nos anos 60

 

Restantes imagens

Captadas no Cemitério Municipal de Alcácer do Sal pela autora.

11 responses to “A empreendedora família Rodeia”

  1. Excelente família que deixou boas memórias a todos.Obrigada pelo seu excelente trabalho.João Baptista

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    1. Obrigada, João Baptista!

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  2. Mais um artigo sobre uma família alcacerense. É já tempo de a Câmara Municipal de Alcácer do SAL lhe dar um prémio pelo seu labor.

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    1. Olá!Grata pelo comentário. O meu trabalho deve-se a uma vontade pessoal, não tem como objetivo obter prémios. Os maiores prémios são conhecer e divulgar histórias e depois receber este tipo de comentários por parte dos meus leitores. Muito obrigada!

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  3. Boa noite e obrigado pelo tema, como sempre!Uma pequena questão – É mencionado ali que o jornal “durou apenas até fevereiro de 1912”. Será que há alguma explicação real sobre o porquê? Na época, parece ter sido comum explicarem-se esses encerramentos pelo menos com uma pequena nota na edição final…

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    1. Na última edição que existe no Arquivo Municipal de Alcácer do Sal e que corresponde ao último número registado também na Biblioteca Nacional, não há qualquer referência – que tenha dado conta – ao fim da publicação. Apenas se justifica o atraso naquele número, “por razões de força maior”. Não sei a razão. Os Rodeia continuaram a ter um papel importante na sociedade e na política locais. Talvez, numa população em que cerca de 80 por cento – acima da média nacional – não sabiam ler, tenham entendido que não justificava manter um órgão escrito. Quem sabe? Obrigada pelo comentário!

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      1. Obrigado! Mas, oh, é pena… poucas coisas são tão giras como ir lendo as páginas de um qualquer jornal antigo, número após número, depois chegar à últimas das publicações e ver uma notinha em que eles explicam que vão acabar. É como dizer adeus a um velho amigo…

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      2. Tem toda a razão! Assim, fica um certo amargo de boca. Ficamos a questionar o que se terá passado, sem conseguir perceber.

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  4. Avatar de Maria Teresa F. Lopes Pereira
    Maria Teresa F. Lopes Pereira

    Um artigo cheio de interesse para a história de Alcácer no século XX, desde o seu início. Mas os Rodeia são mais antigos. Por exemplo, em 1882, uma escritura de «expropriação amigável, quitação, obrigação e desistência» entre Francisco de Paula Leite, Presidente da do Município de Alcácer, e a família que possuía uma casa nobre, muito arruinada, sita na Praça da Vila, aparece como rendeiro um Rodeia. A casa e anexos pertencia ao domínio direto de Joaquim Venâncio Mendes Rato que as arrematou em hasta pública, após a extinção do Convento de “Aracoeli”. Feitas as contas, só Francisco José Rodeia, rendeiro do prédio expropriado, aí presente, não recebeu, pois desistiu de qualquer direito, o que foi aceite a contento dos presentes. M. Teresa Lopes Pereira

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    1. Minha amiga, tem toda a razão. Também me cruzei com esses Rodeia mais antigos, mas não consegui apurar muito mais. Fica para a próxima. Obrigada pelo comentário e achega. Um abraço.

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