Pela imprensa (23): o agarra maridos

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Publicidade arrojada, esta da Tokalon, temerária até. Diria, mesmo, que é preciso, para além de coragem, uma grande lata para prometer casamentos em troca da aquisição de um simples creme, que tem de ter, no mínimo, propriedades mágicas para assegurar que, quem o usa, arranja certamente marido.

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O anúncio vai mais longe ainda. Informa que milhares de mulheres de 40 e 50 anos recuperaram a frescura da adolescência e, com isso, fisgaram moços casadoiros de boas famílias que com elas casaram, quando as ditas já haviam perdido todas as esperanças de encontrar uma cara-metade.

A razão de tamanho milagre é o biocel, uma substância desenvolvida pelo enigmático Dr. Stejkal, da Universidade de Viena. Obtido – sabe-se lá como e até tenho receio de imaginar – de animais novos cuidadosamente selecionados, este é um alimento vital para as células.

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Tão vital que, aparentemente, tem a capacidade de as fazer rejuvenescer, suprimindo as rugas das faces de senhoras até com 60 e 70 anos de idade. Esta substância revolucionária só pode ser encontrada no creme cor-de-rosa da Tokalon, o tal que desencanta maridos.

Para operar tais milagres, o produto deve ser aplicado à noite e conjugado com o uso do creme diurno, branco, da mesma marca.

E, preparem-se, porque, em apenas dez dias, qualquer mulher ficará muitos anos mais nova e, em três semanas, ficará com uma “tez fascinadora de rapariga, à qual poucos homens conseguirão resistir”. Garantem mesmo que serão 10 mil as venturosas senhoras que encontrarão o seu par com este método infalível.

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Desconheço se estes números estonteantes foram atingidos, mas o que se pode avançar, publicidade duvidosa à parte, é que o creme deve ser mesmo bom, porque existe até hoje, quase cem anos depois em tempos bem diferentes nos quais, atrevo-me a dizer, as mulheres de meia-idade – entre as quais me incluo – não estão assim tão desesperadas para casar.

Estes anúncios eram comuns nos anos 30 do século XX, mas a Tokalon, marca de origem suíça, foi criada em 1907. Em Portugal, tinha um depósito próprio, na rua da Assunção, nº88, em plena baixa de Lisboa, entre as ruas Áurea e da Prata. Desde 1948, é representada no nosso País pela Jalber, uma empresa familiar com sede na rua Gomes Freire, 96, também em Lisboa. Dois casos sérios de longevidade na indústria da cosmética!

 

Fontes

Fundação Mário Soares

Cc | Diário de Lisboa | 1921-1990 (casacomum.org)

Diário de Lisboa

 

JALBER

(20+) Tokalon Portugal | Facebook

 

16 responses to “Pela imprensa (23): o agarra maridos”

  1. Eu acho que a minha avó usava esta marca! Conheceria o meu avô o segredo do creme?

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    1. Nunca se sabe, nunda se sabe…

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  2. Os vendedores de banha da cobra sempre tiveram sucesso na vida e continuam a ter. Podia-se dizer que nos anos 30 a maioria das pessoas não tinha conhecimento suficiente para ajuizar corretamente este tipo de publicidade. Sobre isso, ainda que o conheicmento tenha sido elevado, e até estejamos perante a geração mais qualificada de sempre, o método dos vendedores da banaha da cobra continua a funcionar e, espatntoso, não é só sobre cremes milagrosos.

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    1. Muito obrigada pelo comentário. É verdade, hoje são outras banhas da cobra, mas continua a ser relativamente fácil, parece, enganar as pessoas, por vezes com teorias e ideias extremamente estúpidas e sem sentido, mas que as pessoas não questionam e são difundidas à escala global.

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  3. Bons dias, e obrigado pelo tema, como sempre! Mas há aqui uma grande questão… até por experiência própria, será que o creme funciona mesmo, ou não? É que se funciona, certamente que ainda hoje devia ser mais publicitado…E uma curiosidade extra – a ideia de “animais novos cuidadosamente selecionados” é antiga, aparentemente até já existia nos primeiros séculos da nossa era, mas é particularmente famosa do caso de Elizabeth Báthory, que – alegadamente – nunca perdia a sua juventude porque tomava banho no sangue de jovens virgens…

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    1. Como assim por experiência própria?Já testaram o creme ou foram alvo dos seus poderes? Interessante, essa história. Já falaram dela no vosso blog?

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      1. Estávamos a perguntar, já tentou o creme em questão, visto que ele ainda existe?! E não, acho que não, que esse tema ainda não foi abordado… fica para um dia destes, aqueles supostos feitiços mágicos com conteúdos mais proibitivos para o leitor comum…

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      2. Ok!Estavam a falar da minha experiência…não, ainda não experimentei. Vi que o produto de vende online, mas não me recordo de o encontrar à venda numa qualquer superfície comercial. Fica a promessa de que, se encontrar “ao vivo”, compro para experimentar. Fico também à espera desse vosso post! Obrigada.

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  4. Estes anúncios antigos a produtos “milagrosos” são sempre umas pérolas deliciosas. Lembro-me sempre dos anúncios aos xaropes de heroína que eram efetivamente utilizados – hoje temos versões menos chamativas – mas que não deixam de parecer ficção. Bom domingo!

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    1. É verdade, acho uma fonte sempre curiosa de informação sobre aquilo em que as pessoas acreditavam numa determinada época. Esses xaropes de heroína nunca vi, mas, só assim, já fico com vontade de explorar a ideia. Obrigada e boa tarde de domingo!

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    2. Mas a grande questão em tudo isto é sempre a mesma – será que funcionavam? É que se a resposta é positiva, vale a pena…

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      1. Os xaropes funcionavam. Por isso é que ainda hoje temos xaropes para a tosse seca de codeína – perfeitamente seguros, desde que usados com conselho médico. Mas é como usar um martelo para matar uma mosca, não há necessidade; o bicho morre mas partimos a parede também… Já os cremes, não me parece que fizessem muito, para além de algum efeito placebo.

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      2. Talvez seja isso. A pessoa acredita que está mais bela e fica logo com toda uma confiança que, efetivamente, pode ser percebida na forma como se relaciona com os outros, o que a tornará mais atraente. Milagres, não me parece…Obrigada!

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      3. Claro que sim! Isto, hoje em dia, vale tudo!

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