Glória e ruína do Convento dos Frades

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Frei Cristóvão ficou célebre devido a um episódio com elefantes e foi o primeiro guardião do mosteiro, que esteve em funcionamento cerca de 300 anos. Em 1834, saíram os últimos frades e tudo foi vendido a quem deu mais.

 

A 11 de setembro de 1834, um grupo de homens entra no convento franciscano de Santo António de Alcácer do Sal para tomar posse do edifício, respetiva cerca e todos os bens ainda existentes. Tinham passado pouco mais de 300 anos sobre a data do início da construção e da primeira vez que Cristóvão Tambaranhe, o guardião original do mosteiro, ali tinha posto os seus pés, feridos e calejados por andar sempre descalço. Longe ia o brilho inicial daquela casa, fundada por D. Violante Henriques (mulher de D. Fernando Martins de Mascarenhas), onde não se pouparam gastos para que ficasse o mais formosa possível. Os frades, que permaneceram na toponímia oral de Alcácer até aos nossos dias, já haviam saído, forçados pela lei de maio desse mesmo ano, que impunha a extinção das ordens religiosas.

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Em 1747, menos de um século antes deste abandono, eram 30 os religiosos ali a habitar. O primeiro de todos foi o já mencionado e célebre Tambaranhe, natural de Alcácer, mas que havia passado longo tempo na Índia, ocupado com a evangelização de almas. Foi precisamente em Goa que ganhou a alcunha pela qual passaria a ser conhecido.

Contam as crónicas, que assistia às obras de um convento franciscano em Goa, quando um dos elefantes que participavam no transporte de materiais “embravecido com furor desacostumado, repentinamente começou a matar os oficiais que se achavam adiante”, querendo fazer o mesmo ao frei Cristóvão. Intercedeu o homem que o conduzia, gritando Tambaranhe!, Tambaranhe!, que, em português, significa “Tá que esse homem é de Deus”. Ao ouvir as vozes, o paquiderme ficou imediatamente sossegado e tão manso como um cordeiro, o que foi considerado uma espécie de milagre.

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Independentemente desta história, conta-se que o dito Cristóvão, que “inaugurou” o mosteiro de Alcácer, era muito respeitado pelo seu comportamento, merecendo muita consideração de D. João III e da rainha D. Catarina, que “faziam muito caso deste servo de Deus”, tão silencioso, que, de sua boca, nunca se lhe ouvia mais do que sim ou não com o resposta.

Foi “notavelmente humilde”, sendo conhecido por fazer as jornadas com grande mortificação, sempre descalço e, por isso, trazendo os pés lastimosamente magoados e nunca aceitando curativos. De igual modo, recusava qualquer proteção na cabeça, quer nos maiores calores, quer nos frios do inverno.

Mas, deixando para trás o início e a grandeza do convento, voltemos à sua ruína.

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Os homens de que falei, incumbidos da tarefa de inventariar os bens, eram frei Álvaro da Mãe dos Homens Pavia; o provedor do concelho, Joaquim Pedro Cardoso de Leão Soares; o escrivão António José dos Reis e o fiscal João António de Oliveira. Como testemunhas, compareceram Manuel Maria Cardoso e José Pedro da Silva. O trabalho não demorou, pois havia pouco para avaliar. O bem mais precioso – a igreja recentemente reedificada, provavelmente devido aos danos que havia sofrido com o terramoto de 1755 – bem como os objetos inerentes ao culto, não eram para vender. Tudo o mais, seria alienado rapidamente.

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Na lista de pertences estão alfaias litúrgicas e paramentos religiosos, de onde se destacavam uma custódia em prata com pé de bronze, um cofre em tartaruga com fechadura guarnecida a prata, dois espelhos e um conjunto de resplendores, coroas e crucifixos de pouca monta, um sudário e um ferro para fazer hóstias, para além de várias imagens sagradas.

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Depois, havia o normal numa casa onde chegaram a morar dezenas de pessoas: conjuntos de cadeiras, uma mesa grande, um caldeirão e duas sertãs em cobre. Todos estes bens foram vendidos em hasta pública antes do findar de 1834. Manuel dos Reis Azedo comprou as cadeiras azuis, por 1.250 reis; Pedro António ficou com as restantes, por 520 reis; a mesa custou 18 tostões a Manuel Maria Cardoso, que também adquiriu o caldeirão, por 320 reis. Francisco António da Silva Grenho arrematou as sertãs, por 740 reis, e mais sete cadeiras, pelas quais pagou 600 reis.

Inventariado foi igualmente um livro grande, que era o tombo do convento, onde se registavam as suas posses e se ficou a saber que aquela comunidade possuía dinheiro a juros, mais especificamente 200 mil reis a 5 por cento, na mão de Luís Pereira Lança Cansado; 100 mil com os herdeiros de António José Ferreira e, ainda, 50 mil, entregues António Esperto.

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A cerca, composta de terras que, em semeadas, levariam 13 alqueires de trigo, possuía poço e tanque em mau estado; 13 pés de oliveira, uma figueira, uma amoreira e quatro faias. Seria posteriormente arrematada por Joaquim José da Silva, por 36 mil reis.

Para o edifício, embora com zonas degradadas – dois dos corredores das celas – calculou-se, mais tarde, um valor global 800 mil reis e seis mil reis de renda anual.

Depois de, no início do século XX, albergar uma fábrica, hoje, pertence a um particular e continua em ruínas, aguardando tristemente melhor destino.

 

À margem

Contam-se alguns prodígios ligados a este convento. A velha imagem de Santo António, que ocupava o Altar-Mor, tem fama de milagrosa: no ano de 1717, sendo mudada para um lugar secundário por se encontrar decrépita, foi-lhe atribuída a inexplicável e inesperada transferência dos frades que a haviam substituído.

Depois, há a história do fantasma que, em 1677, apareceu ao corista-sacristão Manuel de Santo António e causou grande pavor entre a comunidade. Tratava-se de um homem que havia deixado enterrada algures uma panela com dinheiro, destinado a dote de duas sobrinhas. A alma penada só descansou quando se desenterrou o tesouro e se lhe deu o propósito desejado. Nesse dia, do lugar do seu sepulcro, na igreja do convento, ergueu-se uma nuvem branca que se esvaneceu ao tocar no teto… nunca mais o espírito voltou a incomodar os freires.

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Na igreja, refira-se estão sepultados alguns indivíduos ilustres, com especial destaque para a família Mascarenhas, que, ao longo de duas gerações, fundou o convento e erigiu todo o conjunto. Destes, destaque para D. Pedro de Mascarenhas, que combateu a moirama em África e foi general das Galés de D. Manuel I. Foi embaixador de Portugal na Alemanha e Santa Sé e D. João III fê-lo, Estribeiro-mor, Mordomo-mor e, já idoso, 6º Vice-Rei da Índia (na imagem).

A ele se devem algumas negociações complexas em nome da coroa portuguesa e a aquisição das relíquias que figuravam no altar da sua belíssima capela funerária, dita das Onze Mil Virgens. Para a história, ficou, igualmente, o sumptuoso banquete que organizou para comemorar o nascimento do Príncipe D. Manuel e a viagem que fez de Roma para Portugal, com um insigne companheiro, que ficaria conhecido como S. Francisco Xavier.

Mas isso é outra história…

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Nota: as imagens de franciscanos são meramente ilustrativas desta ordem religiosa.

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Fontes

Frei Fernando da Soledade, História Seráfica Chronológica da Ordem de São Francisco na Província de Portugal, Tomo IV, Lisboa, oficina de Manoel  Joseph Lopes Ferreyra, 1709. 

Frei Jerónimo de Belém, Crónica Seráfica da Santa Província dos Algarves da Regular Observância do nosso seráfico padre S. Francisco, Parte IV, Lisboa, 1758.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Extinção das Ordens Religiosas, Convento de Santo António de Alcácer do Sal, PT-TT-MF-DGFP-E-001-00004.

Monumentos

Pedro Mascarenhas (c. 1484-1555) – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

Imagens

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

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Arquivo Municipal do Porto

Gisa (cm-porto.pt)

F-NP/2-GBB/1/72(13)

 

 

 

Por Faria e Sousa – Faria e Sousa. Ásia Portuguesa. Tomo II. Antonio Craesbeeck de Mello, 1674, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16871980

 

Gravuras Antigas & Desenhos | Traje Religioso – Roupa – Beneditino – Franciscano – Capuchinho | Xilogravura | 1870 (gravuras-antigas.com)

 

Conheça o trabalho dos franciscanos – A12.com

https://www.atlas.cimal.pt/drupal/?q=pt-pt/node/143

 

O Convento de Santo António de Alcácer do Sal e a Capela das 11 000 Virgens | CIMAL

Rosa Nunes, MAEDS

António Rafael Carvalho, CMAS

11 responses to “Glória e ruína do Convento dos Frades”

  1. Mais uma história que no encanta. As nossas cidades, vilas e aldeias estão repletas de muitas histórias que devem ficar para a história. Parabéns por mais uma excelente partilha.

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    1. Ainda bem que gostou! Eu também acho que há imensos episódios, aì, à espera que a nossa curiosidade os traga à luz do dia. Passo boa parte do meu tempo à procura deles. Muito obrigada pelo comentário!

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  2. Obrigado pela partilha, como sempre!Mas… uma curiosidade para fazer sorrir. Linhas como aquelas que usou ali em cima, de “Tambaranhe, que em português significa…”, apareciam muito em obras ligadas com a Índia em outros tempos. A razão para isso é óbvia, mas o interessante é que na maior parte dos casos a tradução não batia certo, e pelo menos uma vez no passado encontrámos um exemplo em que tradução e original eram quase opostos!

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    1. Confesso que me questionei sobre a qualidade de tal tradução, até se a tal palavra eventualmente proferida seria aquela, ou, antes, o que soou aos ouvidos de quem assistiu, se é que o episódio narrado aconteceu mesmo assim…enfim. Por acaso não sabem se Tambaranhe quer mesmo dizer o que é narrado ou é uma fantasia de quem ouviu???

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      1. Seria fantástico que se soubesse responder a isso, não é? Mas não, mas não… o que sabemos dizer é que nos casos em que a tradução até é extremamente óbvia, ela não corresponde à verdade e o nome original parece ser incluído apenas para dar assim ares de grande cultura.Para dar um exemplo de um colega que editou esse manuscrito, num manuscrito (português) do século XVIII, que está na Biblioteca Nacional, “Buda” é apresentado como um dos avatares do deus hindu Vishnu e, depois de se relatar a sua brevíssima história é acrescentado que o nome significa apenas “o escondido”. Poderia ser verdade, claro, mas neste caso específico o significado até é muito famoso e refere-se a “o iluminado”. De onde vem “o escondido”, então? Apenas do facto do manuscrito dar muito pouca informação sobre a figura, por aí ser representada como uma entidade negativa que veio afastar os crentes hindus da sua “verdadeira” fé…O que quer isto dizer, em suma? Que, provavelmente, aquela palavra até foi ouvida por alguém, mas que o seu significado verdadeiro provavelmente nem é aquele.

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      2. Quem conta um conto…já diz o povo, que acrescenta um ponto. Para além disso, como é muito notório nesse caso e no contraste entre as fontes ocidentais e orientais, em alguns períodos históricos, os acontecimentos transfiguram-se de acordo com os olhos de quem vê. Enfim se a coisa fosse fácil, não tinha piada nenhuma. Obrigada!

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      3. Nós é que agradecemos!

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  3. Cara amigaFique maravilhada com a história do Convento.Obrigada pela partilhaa.lázaro

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    1. Muito obrigada! A história do convento não cabia aqui…escolhi os pormenores que achei menos conhecidos e que me despertaram a atenção. Ainda bem que gostou.

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  4. Gostei da história do convento. Bom trabalho de investigação. parabéns!

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    1. Olá! Muito obrigada!

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