
Portugal tem um clima ameno. As nossas primaveras são quentes, secas e luminosas…Mas, que é dessa atmosfera temperada quando a queremos mostrar a um importante grupo de estrangeiros, potenciais clientes dessas apregoadas maravilhas climáticas? S. Pedro, simplesmente, recusa-se a colaborar e faz desabar chuva e vento sobre as ilustres cabeças, para sempre traumatizadas com a estadia. Foi assim durante o Congresso Marítimo Internacional de 1904…tudo por culpa dos padres.

Bem, pelo menos foi essa a opinião de alguma comunicação social, inconsolável com o mau tempo com que recebemos as muitas dezenas de participantes nesta iniciativa organizada pela Liga Naval Portuguesa, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Geografia e da Casa Real. Estávamos na última semana de maio e a seca – já então – ameaçava a agricultura e o comércio, para além dos estômagos vazios dos portugueses.
Então não é que os padres católicos cometeram a imprudência de, em uníssono, lançarem aos céus as suas preces por água…
E foram atendidos, precisamente durante a aguardada iniciativa, apenas a terceira a nível europeu, depois das realizações, no Mónaco e em Copenhaga.


Assim, lutando contra desígnios superiores, os programados períodos de lazer do Congresso foram um verdadeiro tormento.
O passeio no Tejo pautou-se por um rio encapelado, propenso a enjoos, céu cinzento e ameaçador, aragem fresca e desagradável.
Na visita a Sintra, os forasteiros mal puderam sair dos cerca de 50 trens que os levaram da estação de caminho-de-ferro aos palácios da Vila e da Pena, apenas vislumbrando o Castelo dos Mouros, tal o diluvio que se manifestou logo desde a chegada.

Não viram verde, nem as escarpas de cortar a respiração, apenas as belezas interiores – também de monta, mas incomparáveis às estonteantes paisagens. O mesmo em Cascais e no Estoril.
Tiveram de se improvisar toldos e refeições indoor e à pressa, que isto de comer em tendas assoladas por tempestades não é muito agradável.

Que terão dito os convivas de regresso aos seus países? Que danos se terá então infligido à nacional reputação com consequências para o turismo dos anos seguintes?
São perguntas que ficaram sem resposta. No entanto, se fora de portas foi o que se viu, no decorrer do dos trabalhos do congresso tudo parece ter corrido de feição: a visita ao Aquário Vasco da Gama, a exposição oceanográfica – em grande parte com exemplares recolhidos nas campanhas do rei D. Carlos – os banquetes para mais de 300 talheres, a elegância dos cavalheiros, as garbosas fardas militares, as sofisticadas indumentárias das (poucas) senhoras presentes e as sessões nas belas instalações da Sociedade Portuguesa de Geografia…

Quanto aos temas debatidos, pouco ou nada se registou nos jornais, talvez porque os assuntos fossem insondáveis para o público comum, talvez porque a trágica situação em que então se encontravam as nossas frotas mercante e de guerra fosse suficientemente esclarecedora e gritasse bem alto que, por muitos encontros internacionais que se fizessem, o denominado ressurgimento marítimo português, que então se defendia, só se faria com atos concretos e muito dinheiro.

Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
Illustração Portugueza nº30, 30 maio 1904
Liga Naval Portuguesa – do “Ressurgimento marítimo” ao “Ressurgimento nacional”, entre quatro Regimes (1900-1939), de Fernando David e Silva, Tese para a obtenção do grau de Doutor no ramo de História, na especialidade de História Contemporânea, Faculdade de Letras da Universidade de Lsiboa, 2020.
Imagens
Illustração Portugueza nº30, 30 maio 1904


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