Instantâneos (94): uma visita de sultão

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O ano de 1910 foi atípico para Portugal. Nesse outono em que abandonámos um sistema político que nos acompanhava desde o alvorar da nacionalidade, recebemos uma curta e invulgar visita em relação à qual só o alvoroço em que os portugueses andavam, preocupados com a incerteza das suas vidas, fez atenuar a curiosidade popular. Ironicamente, um país que acabara de depor o seu monarca, recebeu com toda a formalidade um sultão destronado: Abdel-Hazis*, igualmente desterrado, mas bem mais exótico do que D. Manuel II, já então rumando ao exílio em Inglaterra.

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O ex-sultão, derrubado pelo irmão em 1908, precisamente no ano em que o nosso último rei foi aclamado, mudou-se para a Europa e gastava parte do seu tempo em viagens de entretenimento, diplomacia e enriquecimento cultural pelos diversos países, deslocando-se com um reduzido séquito.

 

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Talvez buscasse um pouco de tranquilidade e silêncio, razoavelmente afastado das diversas mulheres e grande número de filhos a cargo, todos a estudar na Alemanha. Era, portanto, alguém muito versado em casamentos, talvez por isso tivesse sido interessante saber a sua opinião sobre a denominada Lei do Divórcio, que o novíssimo Governo aprovara precisamente no dia da sua chegada. Não consta, no entanto, que alguém o tivesse questionado sobre a matéria.

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Vindo de Sud Expresso, desembarcou em Lisboa a 3 de novembro, menos de um mês após a implantação da República. Passeou a sua elevada estatura, envergando túnica e albornoz brancos, contrastantes com delicadas meias de seda e sapato ocidental de cor clara. Calcorreou as nossas calçadas, de cabeça coberta, qual príncipe das Mil e Uma Noites, contrariando os amigos que o haviam aconselhado a passar ao largo do nosso território nesses tumultuosos tempos.

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A figura, deveras inusitada por estas bandas, suscitou algum espanto, mas pouco mais foi que nota de extravagância na complicação que era, por aqueles dias, a vida dos portugueses, na sua maioria sem perceber muito bem, ainda, o que representava isso da República.

Sua alteza visitou os museus de Artilharia (atual Museu Militar), Etnográfico (Museu Nacional de Arqueologia) e dos Coches, observou com atenção a arquitetura do Mosteiro dos Jerónimos e ainda se deslocou a Sintra, manifestando-se impressionado com o que viu.

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Antes do turismo propriamente dito, fez questão de ser recebido pelo ministro dos Estrangeiros, à época Bernardino Machado, bem como pelo chefe do Governo Provisório, Teófilo Braga que, a braços com todo um regime por organizar, ainda encontrou tempo para conversar com o ilustre estrangeiro e garantir que o País se encontrava em ordem e sossego, ao que o sultão respondeu ser isso perfeitamente natural num povo bom, generoso e pacífico como o nosso…

Belas, mas questionáveis palavras de parte a parte. Nem Portugal se encontrava pacificado – com greves, manifestações e violências nas ruas – nem para Marrocos seria fácil ter esta imagem tão idílica de uma nação que várias vezes entrou à força nos seus domínios.

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Como, teoricamente, tudo estava na paz do Senhor – não sabemos se Deus ou Alá – os governantes lusos ainda retribuíram a visita, avistando-se com Abdel-Hazis, no Hotel Central, onde partilharam uma bela refeição de bifes e degustaram vinho do Porto.

O sultão, que durante o seu reinado tentou, em vão, modernizar as instituições do seu País, desbravar aquelas terras com linhas de caminho-de-ferro, bicicletas e outras estrangeirices, malvistas pelos tradicionais marroquinos, seguiu viagem, deixando Lisboa tão confusa como a encontrou.

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*Abdel-Hazis Ben el Hassan

 

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

A Capital

02 nov. 1910

04 nov. 1910

 

Illustração Portugueza

14 nov. 1910

 

Brasil-Portugal

16 nov. 1910, texto de Câmara Lima

 

Eva-Maria von Kemnitz, A crise de Agadir de 1911 – Texto inédito lido na Casa do Alentejo, Lisboa, 11.05.2017

Disponível aqui: Entangled peripheries. New contributions to the history of Portugal and Morocco – A crise de Agadir de 1911 – Publicações do Cidehus (openedition.org)

 

 

Os 111 anos da Lei do Divórcio – Observador, 03.11.2021, texto de Dantas Rodrigues.

 

https://www.britannica.com/biography/Abd-al-Aziz-sultan-of-Morocco

Marrocos – Relações Diplomáticas – História Diplomática – Relações Bilaterais – Portal Diplomático (mne.gov.pt)

https://www.wikiwand.com/pt/Abdalazize_de_Marrocos

 

Imagens

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Joshua Benoliel

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001953  1

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002290  7

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002876  8

 

Alberto Carlos Lima

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000556  2

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000557  3

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000558  4

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000559  5

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000560  6

 

 

 

 

11 responses to “Instantâneos (94): uma visita de sultão”

  1. Muito interessante, como de costume. Diria que talvez tenha sido mesmo arriscado por parte de sua alteza, o sultão, visitar Portugal nesses tempos conturbados, logo após o derrube da monarquia. Mas, como conta, os portugueses parecem ter estado à altura. Mais salamaleque, menos salamaleque, Salaam Aleikum ao Sr. Sultão.Fica-me uma dúvida a pairar: tendo estado os portugueses envolvidos em tantas guerras ao longo dos tempos, quando e porquê nos tornámos um povo pacífico, como acreditou, e bem, o sultão? Mudámos ao longo dos tempos, ou sempre fomos assim como povo, mudando apenas a belicosidade de quem nos foi governando? Ou tornamo-nos naturalmente belicosos apenas quando “nos pisam os calos”, como é justo e compreensível? Estar neste canto do Mundo, entre Espanha e o mar, deve ajudar muito, desde que os espanhóis não nos venham incomodar… Também aprenderam bem a lição ao longo dos séculos, com a ajuda dos nossos “amigos” ingleses, que sempre tiveram interesse em enfraquecer os reinos de Espanha. Enfim, outras conversas…

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    1. Caro MP, grata pelo comentário. Na realidade, apesar das incursões históricas, com Marrocos já havia paz desde 1471, altura em que se celebrou um acordo. Outros se seguiram. O mesmo não podem dizer os marroquinos de Espanha e França, sempre muito cheios de apetite por aquele território, mesmo já no século XX. Quanto a nós…não acho que sejamos um povo especialmente pacífico. Quanto mais leio sobre esta fase da Primeira República, como antes sobre as lutas liberais, por exemplo, mais me convenço disso mesmo. O nosso território europeu foi ganho à lei da espada, em inúmeras batalhas, e o território ultramarino também foi conquistado com violência. Acho que nos incutiram essa ideia de sermos pacíficos e, findas as questões de expansão, o que acho é que, como bem diz, se ninguém se meter conncosco, provavelmente não vamos desafiar ou procurar uma luta, mas não acho que sejamos particularmente pacíficos, por natureza. Questiono-me, por outro lado, qual seria a reação dos portugueses se, nos tempos que correm, entrassem pelas nossas fronteiras reclamando parte da nossa terra. Será que lutariamos para a defender?

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      1. Caro MP, veja lá como são as coincidências. Então eu digo que deve haver paz com Marrocos desde 1471, porque encontrei informação sobre a assinatura de um acordo de paz nesse ano e, no mesmo dia, leio que conquistámos Azamor, em Marrocos, em 1513, isto a propósito do reinado de D. Manuel I. Assim sendo, a paz não pervaleceu. Talvez tenha apenas sido conseguida em 1774, com a assinatura de outro acordo de paz e a consequente vinda para Lisboa do primeiro embaixador daquele País. Peço desculpa se o induzi em erro. Obrigada.

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  2. Interessante, como sempre!Só uma pequena pergunta – o tal “Hotel Central”, ali referido, era o de Sintra ou o de Lisboa? Pelo contexto não é claro…

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    1. Olá! Muito obrigada! As várias notícias que li não são claras, mas como uma refere que as visitas do sultão ao Governo e do Governo ao sultão se seguiram com um intervalo de meia hora, presumo que seja o de Lisboa. Será o que existia no Cais do Sodré?

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      1. Boa pergunta… é que tudo depende mesmo do contexto… se ele foi a Sintra nesse dia, faria sentido que dormisse lá, dado o estado das estradas e etc., mas se a visita a Sintra foi em outro dia, fará todo o sentido que tenha dormido no de Lisboa. Será que as duas visitas foram no dia da visita a Sintra?E… isto foge completamente ao tema, mas será que sabe qual a conversão de valor entre escravos e canela no tempo de Vasco da Gama? Estávamos por aqui a discutir isso, na sequência da leitura da viagem dele, e é dito que “um quintal de canela [custa] 25 cruzados”, mas quanto seria uma escravo mediano nessa altura?

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      2. Olá! Não posso garantir, porque os jornais não foram específicos, mas fiquei com ideia que teria sido em dois dias diferentes, já que visitou também vários monumentos em Lisboa. Quanto à deslocação a Sintra, apenas um jornal fala dela e não determina o que lá visitou.Sobre o preço dos escravos, lamentavelmente não consigo ajudar. Não tenho conhecimentos de assuntos tão específicos. Imagino que dependerá de onde é comprado e de que tipo de escravo estamos a falar. Há muita bibliografia sobre o tema, é só escolher. Obrigada!

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      3. Bem, mistérios da história! Isso daria outro livro interessante – relatos históricos sobre os quais não sabemos, e provavelmente jamais saberemos, algumas coisas…Obrigado, e bom fim de semana!

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      4. E verdade! Tantas perguntas sem resposta… Obrigada!

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  3. Adoro estes instantâneos e as imagens que “desenterra” nos arquivosDei comigo a pensar que por cá tudo parece continuar “na paz do Senhor – não sabemos se Deus ou Alá – os governantes lusos ainda” confusos, como Lisboa na altura, sem saberem por que caminho seguir Bom fim de semana Cristiana.

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    1. Há coisas que não mudam. Obrigada, Isa. Bom resto de domingo.

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