Com conta, peso e medida

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Se lhe pedir uma canada de água, dois quartilhos de vinho, uma vara de seda ou meia rasa de grão, sabe o que é que eu pretendo? Provavelmente diria que tenho os alqueires mal medidos ou não tenho dois dedos de testa…

 

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A verdade é que estas eram as medidas utilizadas em Portugal para as normais compras do dia-a-dia e isso não foi assim há tanto tempo. O problema residia no facto de cada terra ter um entendimento diferente sobre o seu verdadeiro valor, situação que, como é bom de imaginar, gerava a maior confusão e inevitáveis conflitos que, durante séculos, nenhum rei conseguiu sanar.

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Efetivamente, já o século XIX ia na sua segunda metade quando Portugal acertou finalmente o passo com o sistema métrico inventado pelos franceses e que boa parte do mundo começou a adotou por essa altura.

Não foi, no entanto, à falta de anteriores tentativas de revolver o imbróglio que nos acompanhava desde o princípio dos tempos, e que misturava influências, romanas, europeias e árabes.

Palmo, côvado (medidas lineares), libra ou onça (peso); moio e quarteiro (medidas de capacidade) foram-nos legadas pelos romanos. Vara, marco, búzio, pipa ou choupim são medidas de inspiração continental e os conhecidos quintal, arroba, arrátel (peso); alqueire e almude (capacidade), foram cá deixados pelos árabes.

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O drama é que chegaram a coexistir. Mais! Cada terra tinha uma interpretação diferente destas medidas e, quando a dada altura se tentou adotar idênticos títulos para todo o reino, em alguns casos escolheram-se designações antigas, mas com novos valores, obrigando a difíceis conversões.

 

Enfim, uma baralhação que, para grande preocupação real, também tinha impacto na cabal aplicação dos impostos.

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D. Manuel I empreendeu importantes reformas e, seguindo o que havia sido iniciado pelo seu antecessor, tomou efetivas providências para uniformizar as medidas no nosso território. Ciente que só pedindo, nada conseguiria, mandou produzir um sistema de pesos, volumes líquidos e comprimentos, em bronze, que fez distribuir pelos concelhos. Serviriam de molde para o que, a partir daquele momento, deveria ser a regra a seguir nas transações entre as pessoas.

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Houve progressos, mas ainda era pouco. D. Sebastião prosseguiu com esta árdua tarefa e deu ordem para que se criassem idênticos modelos para medidas de capacidade para líquidos e sólidos. Também instituiu algo tão simples quanto fundamental quando medimos produtos que não se nivelam sozinhos, como os cereais: a rasoura. Com esta, alisava-se a superfície e garantia-se maior precisão na quantidade dentro do recipiente.

Apesar deste esforço, por todo o País continuou a haver diferentes abordagens às medidas instituídas, numa matemática relativamente elástica e pouco exata que era comum a toda a Europa.

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No final do século XVIII, após aturado estudo, os franceses propuseram um sistema que se baseava em algo imutável – como a dimensão do planeta Terra – para que as medidas fossem sempre as mesmas. O metro era a unidade fundamental, correspondendo à “décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre” e o quilo era apontado como unidade de peso universal, preconizando-se relações de equivalência, para além de uma segmentação de base decimal Confuso? Não admira.

Felizes por haver uma unidade que podia ser usada por todos e para praticamente tudo, mas inconformados por adotar uma criação francesa, os portugueses resolveram complicar, adotando nomes diferentes para as medidas.

D. João VI instituiu assim um sistema em que a unidade fundamental era a mão-travessa (decímetro). A canada corresponderia a um litro e um quilo seria uma libra. Foram novamente enviados conjuntos de medidas e deu-se indicação para que esta matéria fosse ensinada nas escolas.

As boas intenções quase foram atiradas por terra com as invasões francesas e as guerras liberais que se lhe seguiram e todo o ambiente de instabilidade subsequente. Tanto que, só em 1852, já com D. Maria II, se lavrou nova legislação adotando o sistema métrico decimal com as designações que hoje conhecemos, aportuguesando os títulos franceses, para metro, litro e quilograma, com os respetivos múltiplos e submúltiplos que nos parecem óbvios e incontestáveis, mas que durante tantos séculos não o foram.

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À margem

Embora a interpretação das medidas variasse de terra para terra, era comum, por exemplo, gravar-se numa parede de um edifício importante, como uma igreja, o padrão da medida de comprimento para aquela localidade em particular (o côvado ou a vara), de forma que se pudesse tirar dúvidas sobre qual era a sua dimensão, num dia de feira, por exemplo.

É, aliás, curioso notar que as medidas usadas no Norte do País eram usualmente mais generosas do que as do Sul, reflexo de uma maior abundância e de uma agricultura mais produtiva.

As cidades mais importantes influenciavam as suas regiões, com as suas medidas a servir de modelo aos concelhos mais pequenos.

Imagine-se a dificuldade quando no meio de toda a devastação originada pelo terramoto que assolou Lisboa em 1755, os padrões de medida de secos da Capital se perderam e o de pesos ficou danificado. Desapareceu igualmente, de resto, com grande parte da cidade ribeirinha, a balança de precisão da Casa da Índia, que regulava o comércio e onde eram pesadas todas as mercadorias vindas do exterior. Tal desaire obrigou à construção de uma nova, que só ficou pronta em 1803 e, tal como centenas de outros interessantes objetos carregadinhos de história, está exposta no Museu de Metrologia do Instituto Português da Qualidade.

Mas  isso é outra história…

 

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Pode agendar visita ao Museu de Metrologia aqui:

Agendar visita ao Museu de Metrologia – ePortugal.gov.pt

 

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Fontes

Luís Seabra Lopes, A cultura da medição em Portugal ao longo da história, in Educação e Matemática nº 84, Aveiro, Universidade de Aveiro, 09-10.2005.

Disponível aqui: untitled (ipv.pt)

João Araújo, Pesos e Medidas em Portugal, Instituto Português de Qualidade – Museu de Metrologia, 2016. Disponível aqui: livro_historia_metrologia_v7_20160822.pub (ipq.pt)

metrologia_5_Museu_2016 (ipq.pt)

Nuno Crato, Da Mão-Travessa ao Metro, Ciência em Portugal, Personagens e Episódios, Instituto Camões. Disponível aqui: Ciência em Portugal – Episódios (instituto-camoes.pt)

Introdução do Sistema Métrico Decimal em Portugal | Arquivo Nacional Torre do Tombo (dglab.gov.pt)

 

Imagens

Arquivo Municipal de Lisboa

Arquivo Municipal de Lisboa (cm-lisboa.pt)

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/005027

Judah Benoliel

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000760

Joshua Benoliel

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/000097

Armando Maia Serôdio

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/000073

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/000075

Estúdio Mário Novais

 

Museu da Cidade do Porto

Mapa de pesos e medidas – Museu da Cidade Porto

Mapa de pesos e medidas

Extensão do Douro, Coleção Museu da Cidade

 

Pesos e medidas de Valença

Valença recupera pesos e medidas antigas – Calendarios.Info

24 responses to “Com conta, peso e medida”

  1. Ora aqui está um tema interessante, só falta mesmo é perceber-se a equivalência directa entre todas essas medidas. Quer dizer, mesmo que mudassem de terra para terra, teria de haver alguma espécie de equivalência regional, e.g. um almude de Faro é 1.1 almudes de Setúbal, não?

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    1. Olá! Sim, isso existe. Havia exceções, mas as medidas, embora diferentes, estavam próximas, o que num local podia ser 1,5m, no outro seria 1,3, por exemplo. Havia uma “bitola”, mas era relativamente flexível. E as conversões estão estudadas. Há vários trabalhos académicos sobre o assunto e até encontrei um blog muito imteressante e divertido sobre o tema. Não deixo aqui o endereço, porque, quando tentei voltar, já não o encontrei…

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  2. Realmente muito interessante. E, curiosamente, situações semelhantes mantêm-se ainda hoje nas relações comerciais entre diferentes países, embora agora, que eu saiba, já suficientemente regulamentadas e com equivalências bem definidas. Mas ainda hoje, quando se fala em tonelada internacionalmente (ou melhor, “ton” em língua inglesa) tem que se saber se se está a falar em tonelada métrica (a nossa, do Sistema Internacional), imperial (ou tonelada longa = 2240 libras = 1,016 toneladas métricas) ou tonelada curta (2000 libras = 907,185 toneladas métricas, usada pelos Estados Unidos em certas indústrias). Os britânicos foram, até há pouco tempo, renitentes em adoptar o sistema métrico, ou internacional, criado há muito pelos franceses e adoptado por toda a Europa e, oficialmente, por quase todo o mundo. Só já no séc. XX e principalmente após a sua entrada no Mercado Comum europeu acabaram por o adoptar, ensinar nas escolas e tentar que passasse a ser usado pela população das ilhas britânicas. Mas muitos cidadãos britânicos continuam a preferir as suas velhas “inches” e “feet” (polegadas e pés), “pounds” (libras) e por aí fora. Mas pelo menos já conhecem o sistema métrico e usam-no quando tem de ser. Pior é o caso dos cidadãos dos Estados Unidos, ainda hoje muito renitentes a usar o sistema métrico, usado internacionalmente, mas não criado por eles próprios nem pelos seus primos britânicos (pecado mortal). Muitos americanos ainda hoje não sabem usá-lo, recusam-se a usá-lo e vivem bem assim, desde que não viagem para o estrangeiro, nem trabalhem em relações comerciais com outros países. Mas neste último caso, em certas indústrias continuam a impor as suas toneladas (curtas), valendo-se do seu poderio económico e político. É uma história que ainda não terminou.

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    1. Caro MP, muito grata pelo seu contributo! É mesmo ums história interminável, porque há sempre alguma nação que, por orgulho ou preconceito, não aceita as medidas “universais” e teima em ter as suas próprias. Entendo que seja bom para o ego, especialmente se se tiver poder económico, como diz, mas é confuso, ainda hoje, não haver medidas internacionais usadas sempre e mesmo por todos. Este tema dava pano para mangas e para vários posts…. Obrigada.

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  3. Lembro-me do meu avô, quando ía às marinhas avaliar o sal, a olho, dava uma volta à serra de sal e dizia n moios. E tanto vendedor como comprador assumiam a avaliação, coisa impossível hoje. O moio tinha aproximadamente uma tonelada, creio.

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    1. Olá! Essa da avaliação da serra de sal é muito interessante, mas tenho cá para mim que ambos aceitavam, porque tinham o seu avô como pessoa séria, caso contrário duvidariam da avaliação. Tenho um caso idêntico com um tio meu, o “Madeirinha”, que avaliava cortiça, a olho. Não faço ideia de como o fazia…Quanto ao moio, como não poderia deixar de ser, e para complicar, já teve várias interpretações e valores ao longo do tempo… Obrigada pelo comentário!

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  4. Uma correcção ao meu comentário anterior:Onde escrevi “2000 libras = 907,185 toneladas métricas” deve ler-se “2000 libras = 0,907185 toneladas métricas”.Peço desculpa pela “gralha”.

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    1. Agradeço. Não fui pesar…

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  5. Avatar de José Lança-coelho
    José Lança-coelho

    Sempre extremamente interessante. Parabéns!

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  6. Posso testemunhar o uso de algumas medidas antigas. Ou sou algarvio de Silves e tenho 67 anos. Quando era miúdo ouvi muitas vezes usar quartilho e arrátel (peso). Légua (distância), alqueire (capacidade) e arroba (peso) ainda se usam. Estas que enumerei já tinham correspondência exacta no sistema métrico.Mas jeira e alqueire (áreas de terrenos) ainda há quem use e não têm correspondência. A primeira, usada na minha terra, é a área que uma junta de bois podia lavrar num dia. A segunda, usada noutras zonas do Algarve, é a área capaz de aguentar a sementeira dum alqueire (capacidade) de trigo.

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    1. Os meus avós eram do Algarve, S.Bartolomeu de Messines e lembro-me bem dessas medidas.

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      1. Eu nasci e cresci entre Silves e S. Bartolomeu de Messines.

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      2. Tenho família em São Marcos da Serra e o meu avô manterno é de Silves! O que me recordo de ouvir falar e penso que ainda se usa é a cortiça ser em arrobas, penso que 15 quilos, não é? Obrigada!

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    2. Caro Zé Varela, muito obrigada pelo contributo. Por coincidência, a minha família também é da zona de Silves, mas já não tive essa vivência. Acho muito curioso que, tantos anos depois, se continuem a utilizar as mesmas medidas “fora” do sistema métrico e interessante que se usem terminologias antigas com medidas atuais, como, aliás, aconteceu ao longo dos tempos. É mesmo algo enraizado nas pessoas. Obrigada pelo seu comentário.

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  7. No mercado onde faço as compras ao sábado ainda é uso pedir um quarteirão de sardinhas ou carapauzinhos.

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    1. Peixe ao quarteirão, à dúzia, à meia dúzia também comprei muito, quando era miúdo. Há muitos anos que qua não oiço.

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    2. Esses peixes pequenos é mesmo comum pedir por quantidade numérica e não por peso. Penso que porque assim seja mais fácil calcular quantos come cada pessoa. Muito obrigada pelo seu comentário. Da próxima vez que comprar sardinhas, vou pedir um quarteirão, para toda a família.

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  8. do que se havia de lembrar…Parabens. E o post é até uma unidade diferente, na unanimidade simples dos 3 outros post no Destaque

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    1. Olá! Eu não me lembro, os temas é que vêm ter comigo. . Muito obrigada pelo comentário.

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  9. Olá boa tarde, alguém se lembra o que é um Cambio? Tipo um cambio de envias?

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    1. Cambio de ENGIAS desculem

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