O veleiro mais rápido do mundo veio morrer a Portugal

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Foi o navio mais veloz do seu tempo. As imponentes e numerosas velas; a proa aguçada, com a enigmática figura de elmo e espada; as amplas entranhas onde cabiam toneladas de chá… Tudo fazia do Thermopylae uma verdadeira obra de arte da engenharia naval. Pena que tenha “morrido” com estrondo às mãos da Marinha de Guerra Portuguesa, que o havia comprado para servir de navio-escola.

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Pertencia a uma nova classe de navios na encruzilhada entre o passado e o futuro. Numa época de viragem em que as embarcações a vapor ameaçavam vencer os veleiros, os clippers da segunda metade do século XIX – com estrutura em ferro, forrada a madeira, por sua vez coberta com cobre – eram o último fôlego e o pináculo do aperfeiçoamento da navegação à vela. E o Thermopylae foi um dos seus melhores exemplares.

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A 5 novembro de 1869, carregado de granito e Whisky, zarpa para o trajeto inaugural e faz história. Estabelece um novo recorde de velocidade – ainda por bater – entre Londres e Melbourne.

Esta vitória marcaria o tom da existência deste navio, encarregue de transportar sobretudo chá e arroz entre a China, Inglaterra e Austrália; madeira do Canadá e lã australiana. Competia directamente com o famoso Cutty Sark, e saía quase sempre vencedor.

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Mas, a abertura do canal do Suez, nesse mesmo mês, apressaria o triunfo da ainda insipiente navegação a vapor, pois aquele acesso estratégico entre a Europa e a Ásia Meridional não era viável para veleiros. Em vez de percorrerem 32 mil milhas, cruzar o equador por quatro vezes, percorrer em latitude todo o Atlântico, atravessar o Índico em latitude e longitude e dobrar duplamente o Cabo da Boa Esperança, com a nova passagem, os navios percorriam apenas 20 mil milhas numa viagem de ida e volta.

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Foi nesse contexto que a sorte do Thermopylae começou a mudar.

Em 1890 foi vendido a uma empresa canadiana, pondo fim a mais de vinte anos de sucesso e admiração em épicas viagens transoceânicas.

Passa de mão em mão, vê a altivez dos seus mastros ser reduzida, sofre alterações para adaptar-se a novos serviços e enfrenta problemas de insubordinação a bordo.

Para terminar esta agonia, surge a possibilidade de voltar a engrandecer-se, ao ser vendido à Marinha de Guerra Portuguesa, com o objetivo de assumir o honroso e importante papel de navio-escola. Custou ao erário público 1.800 libras esterlinas e foi rebatizado com o nome do conhecido matemático, professor e cosmógrafo real do século XVI, Pedro Nunes.

A Armada, estava então muito depauperada, com meios escassos e obsoletos O objetivo era, no âmbito da aquisição de um conjunto mais vasto de embarcações, criar condições para defender os nossos interesses ultramarinos, em resposta ao humilhante ultimato britânico de 1890.

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Entrou na barra do Tejo em 29 de maio de 1896 e, em 20 de agosto, foi incorporado.

Mas, não chegaria a brilhar, sequer a navegar, porque, embora mantivesse o aspeto majestoso de outrora, quando inspecionado na doca do Arsenal, percebeu-se a verdadeira extensão da desgraça.

O casco do Thermopylae estava totalmente arruinado pela ação do insidioso teredo*. O dano era tal que, aliás, não se aconselhava a reparação e a ideia de o converter em navio-escola torna-se uma miragem.

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Não torna a sulcar as águas.

Parcialmente desmastreado, fundeado no Tejo, passa a servir de depósito de carvão para os navios a vapor que o haviam destronado, função pouco exigente para tão sofisticada embarcação, mas que, resignadamente, exerceu durante uma década… até que, no dia 13 de Outubro de 1907 voltou a ser protagonista, embora pelas piores razões.

 

Nesse domingo realizava-se a Festa da Bandeira (nas duas imagens anteriores), uma organização da Liga Naval Portuguesa que levou à baía da Cascais muita animação, desfiles e regatas, bem como manobras militares.

Foi precisamente durante um exercício da esquadrilha de torpedeiros que o histórico veleiro encontrou o seu fim. Ao embate do primeiro torpedo, partiu-se em dois, afundando-se em meio minuto, envolto numa nuvem de pó de carvão e poeira.

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O Thermopylae, que falhou o propósito de ensinar a arte da vela, desaparecia assim após uma curtíssima carreira como alvo para a instrução de tiro com torpedos móveis.

Este fim está, no entanto, associado a outras tristes ironias.

O último comandante do histórico veleiro que acabou submerso foi João Augusto de Fontes Pereira de Mello, autor de submergíveis e criador do primeiro protótipo para um submarino totalmente português, que, ingratamente, nunca chegaria a passar da fase de testes.

Paralelamente, o disparo fatal, conta a tradição oral, foi dado pelo próprio rei D. Carlos, que, menos de quatro meses depois, tombaria, ferido de morte, também ele condenado, sem saída, ultrapassado, pelos novos tempos que ditavam outras formas de ver o mundo.

 

À margem

O Thermopylae não foi o único veleiro célebre a passar por Portugal. No ano anterior ao afundamento do seu concorrente direto, também o Cutty Sark foi comprado para o nosso País, por um armador que o baptizou com o seu nome: Ferreira (de Joaquim António Ferreira e Cª). Por cá ainda voltou a ser rebaptizado como Maria do Amparo, navegando até 1922, altura em que, com melhor sorte que o seu rival, foi adquirido para Inglaterra, onde se iniciou a sua recuperação como navio de recreio e posterior musealização.

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Em 2007, durante uma operação de restauro, foi destruído por um incêndio, que obrigou à sua reconstrução quase total. Hoje, renascido das cinzas, pode ser visitado em Greenwish, tornando-se, assim, o sobrevivente da época de ouro dos velozes clippers.

É caso para dizer que, na viagem final, foi o Cutty Sark que levou a melhor.

Os supersticiosos poderiam achar que esta imortalidade foi magia da bruxa que ostenta na proa, ou que, ao invés, o azar do Thermopylae deriva de apresentar no mesmo local o desditoso rei Leónidas (na imagem), que morreu lutando no estreito de Termopilas*, defendendo a Grécia durante uma invasão persa.

Mas isso é outra história…

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*Teredo:molusco bivalve, acéfalo e alongado, que vive em madeiras submersas, por exemplo, de embacações ou estacas, perfurando-as. = BUSANO, GUSANO, TEREDEM

**à letra, Termopilas significa “portões quentes”, designação que deriva da existência de nascentes sulfurosas de onde brota água aquecida.

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Nota: o Thermopylae foi desenhado por Bernard Waymouth, construído pela Walter Hood e Comp. para a Aberdeen Line.

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Fontes:

Thermopylae, História do Clipper mais veloz do mundo, de António Fialho, Augusto Salgado, Carmen Soares, Jean-Yves Blot e Jorge Freire, Câmara Municipal de Cascais; 2008.

Revista da Armada – Publicação Oficial da Marinha; nº385, ano XXXIV – abr. 2005; texto de António Manuel Gonçalves CTEN. Disponível em: Página Inicial | Revista de Marinha

Hemeroteca Digital de Lisboa

O Occidente

16º ano, XVI volume, Nº536 – 11 nov 1893

17º ano, XVII volume, Nº543 – 11 jan 1894

 

 

 

Dicionário Priberam Online de Português Contemporâneo

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cutty_Sark

 

Arquivo Histórico da Marinha

Marinha Portuguesa – Archeevo

 

Imagens

Hemeroteca Digital de Lisboa

Illutração Portugueza

Nº87, 21 out. 1907

San Francisco History Center, San Francisco Public Libraryhttp://sflib1.sfpl.org:82/record=b1035984~S0, domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=47879218

Thermopylae (clipper) – Wikiwand

Clipper Thermopylae – Victoria Harbour History

Thermopylae and the Cutty Sark – Shipping Wonders of the World

The tea clipper ‘Thermopylae’ | Royal Museums Greenwich (rmg.co.uk)

 

Clipper Ship Thermopylae (f2s.com)

 

Leonidas

Benutzer Ticinese https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=251186

 

 

 

 

 

 

12 responses to “O veleiro mais rápido do mundo veio morrer a Portugal”

  1. Avatar de Eduardo Pinto Basto Metzener
    Eduardo Pinto Basto Metzener

    Era escusado politizar o artigo, mesmo que em nome da dramatização. Jamais D. Carlos estava desactualizado ou ultrapassado. Sejam intelectualmente honestos!

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    1. Caro Eduardo Pinto Basto Metzener, não pretendi ofender a memória de D. Carlos. No entanto, entendo que D. Carlos viveu numa encruzilhada, num contexto económico e social, em que o sistema político que sustentava em Portugal dificilmente se salvaria. É nesse sentido que digo que foi ultrapassado, pelos acontecimentos, pelas movimentaçóes políticas e outras que acabaram com a sua morte e com a posterior implantaçáo da República. De resto, acho que foi um rei muito culto e moderno, mas que não conseguiu dar a resposta que o País necessitava da Monarquia. A comparação com o Thermopylae, tem razão, é uma liberdade de estilo que penso, no entanto, ser perfeitamente lógica, pois ambos existiram em tempos de mudança, uma mudança que se fez, em parte, à custa do mundo e do tempo que representavam. Agradeço o comentário.

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  2. Isto é o que dá a quem paga antes de ver o que compra… E imagens da Tal bruxa da proa, será que existem? Seria interessante ver Como a representam…

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    1. Olá! Pois ver, viram, foram lá buscá-lo e viram, mas não conseguiram ver tudo, lamentavelmente. É uma pena. Era um navio extraordinário!A bruxa está aqui: https://stringfixer.com/pt/Cutty-sark_(witch)Confesso que, quanto ao rei Leónidas, por outro lado, apesar das muitas imagens do barco e até de ter comprado um livro sobre o mesmo, apenas encontrei a descrição pormenorizada, mas em nenhuma das imagens se consegue ver convenientemente. É até estranho. Obrigada!

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  3. Dizem que tudo tem um fim… mas o que mais me surpreendeu foi o “recorde de velocidade – ainda por bater – entre Londres e Melbourne”.É certo que entretanto passou a era dos veleiros, mas é extraordinário.Bom domingo Cristiana.

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    1. Também fiquei impressionada e imaginei a velocidade assustadora, em mares tão revoltos, com aqueles mastros imensos e a tripulação a correr pelo convés, para manobrar todas aquelas velas….devia ser alucinante, aterrador e belo. Muito obrigada! Bom domingo!

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  4. Claro q foi um Rei culto e moderno mas q nao conseguiu dar a resposta que Portugal precisava da Monarquia.Mais um post da sua parte com muito trabalho honesto e sempre interessante. Cumprimentos lembrando me da parte final dos Lusiadas. A.A ZM

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  5. Mais um episódio interessantíssimo da História, bem documentado, fundamentado e recheado de pormenores deliciosos, como é habitual neste seu blogue. E um belíssimo navio, nos seus tempos áureos. Pena que não tenha chegado aos nossos tempos, mas suponho que muito poucos desses tempos o terão conseguido. Mudam-se os tempos…

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    1. Muito obrigada pelo comentário. Achei fascinante a história deste colosso. E, sim, é uma pena que não tenha sido preservado, como o seu rival – embora mais lento – Cutty Sark.

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  6. Obrigado por manter viva a memória de um navio histórico que pouca importância lhe é dada pelo publico português, mas também por relembrar uma descoberta realizada pelo meu pai, Pedro Granja e o seu colega Leonel Silva.Cumprimentos, Ricardo Granja

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    1. Caro Ricardo Granja, grata pelo seu comentário. Para mim foi triste conhecer a história deste navio extraordinário e da forma pouco feliz como acabou, em Portugal. Impressionou-me e, daí, ter decidido pegar no tema. Merecia melhor sorte, mas as coisas são como são. Grata também pelo trabalho de arqueologia subaquática que menciona e que conseguiu identificar os despojos deste gigante dos mares, pelo menos para se saber onde está e, assim, poder ser estudado. Obrigada!

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