A ponte do Conde-Barão

ponta de foz 2 alcacer do sal (2).JPG

 

A ponte sobre a ribeira de Sítimos, na zona da Foz, bem próximo de Alcácer do Sal, terá sido a primeira travessia a promover aqui as ligações ao interior do Alentejo. Foi o Conde-Barão e Marquês de Alvito que a mandou construir… e o principal beneficiado com a dita.

 

As diversas pontes são uma imagem de marca de Alcácer, mas durante muitos séculos a passagem entre margens fazia-se apenas de barco. Em 2022, completam-se 180 anos sobre aquele que terá sido o primeiro acesso sobre as águas ao serviço das populações da então vila, facilitando as ligações ao interior do Alentejo.

Foi em 1842 – cerca de quatro décadas antes da primeira ponte sobre o Sado – que o Conde-Barão e Marquês de Alvito mandou construir uma travessia na zona da Foz, sobre a ribeira de Sítimos.

ponte da foz alcacer do sal (2).JPG

 

O Estado estava depauperado e era comum os particulares candidatarem-se à construção de obras públicas, financiando-as e cobrando depois os devidos direitos de utilização pelos cidadãos. Foi com este tipo de negócio que se ergueu esta importante estrutura, que ligava as estradas para Évora e Beja, permitia o acesso ao Torrão e às herdades próximas, como Barrosinha, pertencente à família do próprio Conde-Barão.

 

No Diário do Governo de 6 de novembro de 1841, em nome da rainha D. Maria II e num texto assinado pelo secretário de Estado dos Negócios do Reino, Joaquim António de Aguiar, apresentam-se todos os detalhes a que deveria obedecer a construção e as condições em que a concessão da mesma é atribuída ao Conde-Barão e Marquês de Alvito – D. José António Plácido Lobo da Silveira Quaresma, também conde de Oriola.

Sabia-se que naquela zona, bem próxima de Alcácer do Sal, era “bastante impetuosa a força da corrente” da ribeira de Sítimos, engrossada “com o peso das águas do monte”.

ponta de foz 3 alcacer do sal (2).JPG

 

Daí que se descrevessem com muito pormenor as características e profundidade a que deveriam ficar as estacas de madeira que suportariam a passagem. Firmes e fortes, “bem cravados no lodo”, mas colocando “poucos entraves” à ribeira. Explica-se igualmente as condições a que deveria obedecer o tabuleiro, com a largura de “20 palmos” – cerca de 4,40 metros.

A estrutura deveria ser instalada exatamente no lugar da barca que iria substituir, usando até as rampas do cais em ambas as margens. Teria, ao centro, dois meios alçapões levadiços, que facilitassem a muito frequente e necessária circulação de embarcações.

O prazo de construção era de um ano e a exploração pertenceria ao Conde-Barão e Marquês de Alvito durante um quarto de século. Como grande proprietário alentejano, este já era um dos principais beneficiados com a obra, cabendo-lhe ainda, neste período, cobrar portagem a quem a pretendesse usar.

carros de bois.JPG

 

Cada carro de bois ou carreta pagaria 70 reis pela travessia; cem se fosse uma carruagem de quatro rodas e 80 se tivesse apenas duas. Para cada transeunte, a portagem era de dez reis, o mesmo para cada cabeça de gado miúdo – “tanto lanígero como de cabelo”, o que subiria para o dobro em caso de serem cavalgaduras, bois ou vacas a passar.

Findo o prazo da concessão, a ponte revertia para o Estado, devendo, por essa altura, ser entregue em bom estado e totalmente funcional.

No local, havia um guarda “portageiro” que também erguia os alçapões para deixar passar os barcos. Como tal função era talvez demasiadamente penosa para um homem só, o Conde-Barão apresentou um requerimento para que as tripulações ajudassem na manobra de levantar e descer os troços móveis do tabuleiro.

palacio alvito no largpo conde barao.jpg

 

É claro que a travessia que hoje ali conhecemos (nas imagens) já não é a mesma. Foi reparada e reconstruída diversas vezes nestes últimos 180 anos, mas a obra inicial devemos ao já mencionado D. José António Plácido Lobo da Silveira Quaresma, detentor do título de Conde-Barão, que até aos dias de hoje dá nome a um largo na zona de Santos, em Lisboa, onde se situa o arruinado palácio (nesta imagem) desta família com altos e antigos pergaminhos.

O mesmo título foi igualmente escolhido para batizar uns conhecidos armazéns ali fundados em 1946 e que, embora chegassem a ter vários estabelecimentos em Lisboa e arredores, também não sobreviveram à passagem do tempo.

 

À margem

d jose ultimo conde barao e marques de alvito.JPG

O “construtor” da ponte sobre a ribeira de Sítimos era avô do último titular desta que foi uma das mais importantes casas nobres do País, criada em 1475. A vida do derradeiro conde-barão foi, a partir de certa altura, bem diferente do fausto e abundância dos seus antepassados. José Lobo da Silveira Quaresma, nascido em 1826, herdou uma vasta fortuna constituída sobretudo por imóveis, desde palácios em Lisboa, a extensas herdades no Alentejo, que foi alienando ao longo do tempo, mercê das necessidades de liquidez de que padecia. Morreu em 1917 no castelo de Alvito, mandado erigir por um seu antepassado, por ordem de D. Afonso V e em cuja construção os moradores daquela vila e arredores foram obrigados a participar.

castelo de alvito.JPG

 

O castelo, que ficou concluído já no reinado de D. Manuel I (1495-1521) e permaneceu quase quatro séculos em posse daquele clã, por essa altura já tinha outro dono: a casa de Bragança, pois havia sido vendida ao rei D. Carlos, de cuja corte D. José Lobo da Silveira Quaresma fez parte, como camarista, mas que não chegaria a tomar posse do imóvel, porque morreu ainda antes do promitente vendedor.

Mas isso é outra história…

 

Fontes

Diário do Governo nº270 – 6 nov. 1841. Disponível aqui:

DIGIGOV (cepese.pt)

 

Arquivo Histórico do Ministério Público – Procuradoria-Geral da República – Registos de consultas e pareceres dos Magistrados

PT/AHPGR/PGR/04/002/126

www.ministeriopublico.pt

 

Revista Serões, nº 38 – ago. 1908

Disponível na Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital (cm-lisboa.pt)

 

O Marquês Barão de Alvito – Apontamentos sobre a última geração de titulares encartados , de Alexandra Forjaz; Tecto de nuvens – 2020. Parcialmente Disponível aqui: Microsoft Word – O Barão_miolo_cores (cld.pt)

 

Texto de António Brás em Moda&Moda:

BARÃO DE ALVITO I Ascenção e q… | modaemoda

 

DGPC | Pesquisa Geral (patrimoniocultural.gov.pt)

 

Portal de Genealogia | Geneall.net

 

Restos de Colecção: Armazéns do Conde Barão (restosdecoleccao.blogspot.com)

 

Imagens

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Joshua Benoliel

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000323

Eduardo Portugal – reprodução da gravura original in Henry L’Evêque, Costume of Portugal, 1814.

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/002295

X-arqWeb (cm-lisboa.pt)

Portal de Genealogia | Geneall.net

 

Revista Serões, nº 38 – ago. 1908

Disponível na Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital (cm-lisboa.pt)

www.google.com/maps

 

11 responses to “A ponte do Conde-Barão”

  1. Excelente ! Bom ANO NOVO com muitas investigações e grandes descobertas para alegria das suas leitoras e dos seus leitores.Um abraçoantónia

    Gostar

    1. Muito obrigada, minha amiga. Um bom ano para si. Um abraço.

      Gostar

  2. Antes de mais, bom ano de 2022, e cuidado aí com o Covid! Agora, indo a este artigo de hoje, duas perguntas:- Refere que as pontes eram feitas pelas pessoas “Cobrando depois os devidos direitos de utilização pelos cidadãos”, a tal “portagem”, e o pagamento era possivelmente ao tal “guarda-portageiro”. Até aqui tudo bem, mas o que acontecia na ausência desse homem? Quer dizer, presume-se que ele não estivesse ali sempre à espera de fregueses, 24 horas por dia, 7 dias por semana…- E esta é aqui de um colega, que até tem a questão há pelo menos já 25 anos – quando se fala de “Conde Barão”, sem qualquer outro contexto, será que é apenas um título de nobreza, a designação refere-se sempre a este D. José António Plácido Lobo da Silveira Quaresma, ou até pode ser uma referência a outras figuras?

    Gostar

    1. Olá, olá! Um excelente ano também para vocês, com muita saúde! O Covid já nos visitou no final do ano passado e, felizmente, não fez estragos. Esperemos que este seja o ano em que o dito, se não se for embora, pelo menos que fique entre nós sem chatear muito.Quanto às questões: talvez o guarda não fosse apenas um indivíduo, mas pelo menos dois que tinham essa função. Provavelmente até viveriam nas imediações, para acautelar a passagem de pessoas, animais e embarcações. Nesse tempo não havia estas questões “modernas” de horário de trabalho restrito e férias .Quanto ao conde-barão, presumo que a alusão original é a um antepassado deste que refiro e que construiu a ponte. Foi João Fernandes da Silveira o primeiro a utilizar o título de barão em Portugal (neste caso, de Alvito) e a ter o privilégio de poder ser designado de conde-barão, porque também já era conde de Oriola. Esta acumulaçáo aconteceu com sete dos elementos da família, a partir daquele. Quatro eram também marqueses. Os títulos, claro, são sempre atribuídos por serviços mais ou menos importantes prestados ao País. O primeiro conde-barão de Alvito ( e nacional) era sobretudo um diplomata que, nomeadamente, negociou alianças e casamentos. Já o palácio, que dará origem ao conhecido topónimo em Lisboa, tem a sua origem no final do século XVI e início do século XVII, sendo que, nessa altura, quem detinha o título era José António Francisco Lobo da Silveira, que foi também o primeiro marquês de Alvito. Espero ter conseguido responder.

      Gostar

  3. Uma parceria público-privada…Votos de Bom Ano!aag

    Gostar

    1. É isso mesmo! Houve muitas naquela época e foram a resposta para a construção de numerosas infraestruturas necessárias. É claro que, tal como hoje e de uma forma geral, os proponentes eram quem mais ganhava com as percerias. Bom ano! Cumprimentos.

      Gostar

      1. Obrigado!O erário público não tinha dinheiro para realizar estas obras – estradas, pontes e, mais tarde, outras infraestruturas – pelo que era muito comum serem os particulares que as faziam, com interesse próprio, obviamente, nem que fosse o de recolher os direitos de portagem, que lhes eram concedidos e contratados. Durante séculos foi assim. Acrescente-se que nem sequer era entendido que fosse essa a missão do Estado de as fazer directamente. O mesmo princípio era extensivo à concessão de muitos cargos públicos, que eram comprados, revertendo o produto para os cofres do Reino -, o que obviamente nos faz confusão. Mas na verdade o que se passava era a compra do “alvará” (o título poderia ser outro, apenas se utiliza este termo por ser mais óbivo) que permitia o exercício de determinado cargo ou função, por determinado período, cabendo ao titular do cargo exercer a actividade e cobrar os seus serviços, como acontecia, por exemplo, com o cargo de tabelião e outros. E quem oferecia mais ficava com o cargo, que muitas vezes depois “subconcessionava”.Nada que não se passe hoje…,(veja-se o Estado a leiloar as redes 5G).Já foi tudo inventado, há muito tempo.

        Gostar

      2. Olá, obrigada pelo contributo. É bem verdade o que refere no último parágrafo. É muito comum ler um documento com150 anos e pensar que poderia, retirando alguns formalismoa caídos em desuso, ser escrito nos dias de hoje. Indo ao encontro do que diz, também tenho encontrado numerosos “concursos” para o Estado e os municípios alienarem os seus direitos de cobrar impostos, cobrar a exploraçao do mercado, ou da recolha de lixo, por exemplo, entre outras funçóes que atualmente cabem ao Estado mas que este não tinha condições de executar sozinho. Nada de novo, efetivamente. Obrigada! Bom ano.

        Gostar

  4. É sempre agradável ler em O SAL DA HISTÓRIA, mesmo não sendo dessa região. Parabéns e um BOM ANO NOVO.

    Gostar

    1. Muito obrigada!. Agradeço e retribuo. Bom 2022!

      Gostar

Deixe uma resposta para Romeu Carvalho Cancelar resposta