O poeta que criava máquinas voadoras

 

 

aeroplano gouveia.JPG

 

Construiu centenas de modelos miniatura do seu aeroplano, inovando e inventando novas soluções a cada “desastre” aéreo.

 

João Gouveia era um poeta. Era também um inventor de máquinas voadoras nas quais sonhava cruzar os ares. Haveria conjugação mais perfeita? Os seus poemas chegaram a ser publicados*, mas não teve a mesma sorte com o aeroplano, porque fatores bem terrenos, como a política e o dinheiro, se encarregaram de colocar pedras na engrenagem e relegaram as suas criações para meras notas de rodapé da aeronáutica portuguesa.

pina gouveia e a irmã, na madeira.JPG

 

Esta é uma história que começa na Madeira e tem passagens por Lisboa, Seixal e Trafaria, porque este visionário dedicou toda a vida à tarefa de inventar aparelhos voadores, desde aquele dia em que, com 15 anos, leu o livro Robur, O Conquitador, de Júlio Verne.

Foi como um feitiço que o fez não mais parar de pensar em propulsões, sustentações, movimentos verticais e horizontais, elevação, motores, estabilidade e outros dilemas a que os estudiosos – e os curiosos – do seu tempo se dedicavam.

modelo joao gouveia.JPG

No início do século XX, aliás, ainda se questionava se os aviões serviriam para algo mais do que apenas brincar, mas isso não impediu uma autêntica corrida aos céus, para ver quem conseguir voar primeiro.

 

Havia verdadeiras polémicas entre os defensores dos diferentes tipos de “máquinas” que então se ensaiavam para cruzar os ares, como os balões e os aeroplanos, preferidos por este madeirense.

João da Mata Camacho Pina de Gouveia nasceu no Funchal, em 8 de fevereiro de 1880. Terá sido aí, observando as aves, que lhe surgiram as primeiras ideias para o seu avião.

aeroplano gouveia3.JPG

 

Já no continente – onde estudou na Escola Superior de Letras e na Escola Politécnica – embora não tivesse formação em engenharia, soube rodear-se de entusiastas e entendidos, nomeadamente militares, tendo participado na criação do Aero Club de Portugal.

Os seus planos e modelos receberam rasgados elogios da Academia das Ciências e chegou a registar a patente de pelo menos um.

Inicialmente, recebeu significativos contributos monetários do então rei D. Manuel II, da Câmara Municipal de Lisboa e do Ministério da Guerra, bem como de alguns proeminentes republicanos, que não quiseram ficar de fora.

Em tempos conturbados como aqueles foram (1909-1912), começava a desenhar-se na luta política e de protagonismo – sempre gerador de invejas – o mal que minaria o seu sucesso.

lancando contra o vento.JPG

 

Construiu centenas de pequenos aparelhos movidos por hélices, a que elásticos enrolados garantiam movimento. Face a cada desastre em miniatura, corrigia pormenores e inovava, para melhorar o modelo seguinte, num “trabalho morosíssimo” do qual nunca desistiu.

Em 1911 noticiava-se estar concluído o seu primeiro aeroplano em tamanho real, produzido no Arsenal da Marinha e depois transferido para o Seixal, onde foi erguido um hangar e planeava criar uma escola de aviação.

Este monoplano tinha 9 metros quadrados e um motor Anzani de 3 cilindros e 25 cavalos. Pesava, já com aviador e depósitos cheios, cerca de 330 quilos.

Anunciavam-se as primeiras experiências de voo, mas só em janeiro de 1912 se terá lançado aos comandos da sua aeronave.

Ao contrário dos airosos modelos miniatura, que voavam, o aeroplano em tamanho real de Gouveia demonstrou, na descolagem, problemas ao nível da ligação entre o motor e a hélice, que ditaram a sua ruína.

A partir daí, as notícias outrora abundantes sobre os progressos deste pioneiro da aeronáutica em Portugal, começam a rarear, embora se saiba que – mais recatado, é certo – persistiu no seu sonho.

Cerca de três décadas depois deste desaire, contaria que, em paralelo com os elevados custos implicados na reparação o seu avião, os apoios esmoreceram, o que não terá sido alheio às simpatias monárquicas do inventor, num País onde eram já os republicanos que ditavam as regras.

Já em 1944, longe do auge da corrida aos ares, fala-se dele pela última vez, porque inventou um avião – novamente em tamanho reduzido – constituído apenas por uma asa, que já havia testado na zona do Areeiro, em Lisboa, e novamente lançou ao ar na Trafaria.

Morreria três anos depois, sem ter conseguido concretizar um aeroplano de transporte, que, em tamanho real, efetivamente, voasse e fosse manobrável.

 

“…sofria imenso d’ir aos rochedos

Ao alto déles

E não poder

Tentar as asas sobre os penedos

As asas que os homens deviam ter…

João Gouveia – Atlante 1903

 

À margem

biplano gomes da silva.JPG

 

Cronologicamente, João Gouveia tem de repartir o título de pioneiro na construção aeronáutica em Portugal com Abeillard Gomes da Silva, engenheiro portuense que viajou em busca de conhecimentos e, ainda no estrangeiro, construiu um biplano para representar Portugal no primeiro certame de aviação real realizado no Mundo, o histórico “meeting” de Juvisy (França), em 1909. Não chegaria a ter oportunidade de mostrar as qualidades do revolucionário “Gomes da Silva I”, porque a organização, alegadamente com receio deste extraordinário português suplantar outros concorrentes mais afamados, o desclassificou por atrasos na entrega do motor.

Já em Portugal, fez alterações ao aparelho e registou a patente da segunda versão, mas o ensaio de voo, em Tancos, não resultou e o aparelho embateu num talude, gorando as hipóteses de voar.

abeillard gomes da silva aos comandos do aparelho.

 

Abeillard Gomes da Silva foi reconhecido, em 1909,  com o diploma de pioneiro aviador e sócio honorário do Aero Clube de França e do Aero Clube de Portugal, no ano seguinte, sendo o primeiro piloto português a receber tal distinção.

De facto, nas décadas seguintes, quando se passou do esvoaçar em miniatura ao voo verdadeiro e frequente, à aventura de construir aviões, somou-se a bem mais arriscada tarefa de os pilotar.

Nos jornais portugueses da época são numerosas as notícias de acidentes, quase sempre fatais, com quedas de aeronaves pilotadas por estes temerários que arriscaram a vida para que hoje possamos voar em segurança.

Mas isso é outra história…

…………………..

*João Gouveia publicou dois livros de poesia Breviário (1900) e Atlante, (1903). Viu serem representadas duas peças de teatro de sua autoria: Engano de Alma, e Mar de Lágrimas, esta escrita em colaboração com Jorge Santos. É homenageado na toponímia de dois concelhos: Seixal e Sintra (Monte Abraão).

……………….

 

Fontes

João Gouveia – Pioneiro da construção aeronáutica portuguesa, de Luís M. Alves de Fraga. Disponível aqui: João Gouveia – Congresso em Madrid (ual.pt)

Visão | A história da máquina (quase) voadora de um inventor português (sapo.pt)

Texto de Rosa Ruela

João Pina Gouveia: o dramaturgo madeirense que inventou o primeiro avião português (funchalnoticias.net) texto de José Luís Sousa Freitas

https://ruascomhistoria.wordpress.com/2016/02/08/pina-gouveia-um-dos-pioneiros-da-aviacao-em-portugal/ citando Dicionário Cronológico de Autores Portugueses Vol. III, organizado pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Coordenação de Eugénio Lisboa, Edição de 1990, Editado por Publicações Europa América e Ecomuseu Municipal do Seixal

(12) Voando em Moçambique | Facebook, de José Vilhena e Luísa Hingá

A Illustração Portugueza

nº171 – 31 maio 1909

18 responses to “O poeta que criava máquinas voadoras”

  1. Muito interessante. Não conhecia.É também uma homenagem indirecta aos livros de Júlio Verne, que o inspiraram a lançar-se no mundo das máquinas voadoras. Em mim estes livros, que li avidamente por volta dos 10 anos, graças ao meu pai, também tiveram um enorme impacto, despertando-me para paixões que me acompanharam o resto da vida: as viagens, a Ciência, a Engenharia e o Conhecimento em geral e, claro, a leitura.

    Gostar

    1. Na estante da casa dos meus avós também havia uma coleção de livros de Júlio Verne, que agora estão em casa de meus pais, mas em mim, lamentavelmente, não despertaram esse imaginário. Nunca consegui avançar muito nos que tentei ler. E até tenho pena, mas somos todos diferentes, não é? Muito obrigada pelas suas palavras e pela partilha de memórias. Eu acho estes pioneiros da aviação uns verdadeiros heróis.

      Gostar

  2. Que história interessante e tão pouco divulgada! Como a poesia e o desejo de voar se interligam. Muito obrigada pela partilha desta história de vida tão empolgante.M. Teresa Lopes Pereira

    Gostar

    1. Muito obrigada! Eu achei muito simbólico que ele fosse poeta, mas eu sou uma romântica…Um abraço!

      Gostar

  3. Uma boa questão – se este homem falhou o seu objectivo, quem foi, na realidade, o primeiro português a voar numa criação que lhe fosse própria? Há aquelas lendas da ‘Passarola’, e tal, que provavelmente são apenas isso, lendas… mas qual foi a realidade? Ou terá sido o povo português apenas um viajante alado do alheio?

    Gostar

    1. Então, em princípio foi Abeillard Gomes. Voou pouco, mas voou! Quanto à passarola, não sei se foi lenda, mas convenhamos que é preciso ter impacto para chegar até aos nossos dias com mais notoriedade que estes pioneiros de há cem anos, quando a passarola terá sido há mais de 300 anos.

      Gostar

      1. Bem, lá teremos de ir investigar a Passarola… conhecendo-se as coisas de Portugal como se conhecem, ela ainda está por aqui encerrada num qualquer sótão.E outra coisa… Só entre nós, que ninguém nos ouve, se por acaso agora nas férias quisesse cozinhar doçaria conventual de outros tempos, sugeriríamos ler, por exemplo, a obra de uma tal abadessa de nome Maria Leocádia do Monte do Carmo.

        Gostar

      2. Concordo que, conhecendo Portugal, a Passarola está numa cave qualquer, ou foi destruída para lenha nu inverno particularmente frio. Agradeço a dica. Quem sabe como me saio na doçaria conventual?…O que eu queria mesmo era tempo para ler e investigar tudo o que tenho em carteira, na calha, em sugestão, na mala para dar uma vista de olhos nas férias… Obrigada!!!

        Gostar

      3. Uma pequena prenda, encontrámo-la há umas horas atrás – https://i.ibb.co/F4tRSxy/Passarola.jpg . É a original!

        Gostar

      4. É bem mais que um simples balão de ar quente. Mas, será que voou?

        Gostar

      5. Esse tema… estava, na verdade, planeado para hoje, mas ficou para a semana que vem. Será que, afinal de contas, a Passarola sempre voou, ou não? Nós fomos pesquisar como é que ela foi feita e, com base nessa informação, convidamos depois os leitores a decidirem por si mesmos.

        Gostar

      6. Fico a aguardar ansiosamente!

        Gostar

  4. Muito interessante, parabéns.Júlio Verne foi o meu iniciador literário. Li toda a sua obra que estava distribuída pela minha casa e a do meu avô. Cerca de 90 volumes. Daqui parti para o Eça, e toda a literatura universal.

    Gostar

    1. E fez muito bem! Há muito que aprender com os clássicos que hoje não são convenientemente valorizados. São bases fortes que ficam para a vida. Eu devia ter lido mais clássicos e por vezes sinto falta dessas bases.

      Gostar

  5. Relatos de protagonistas desconhecidos da pequena história que, na realidade, é aquela de que estamos mais próximos e que preenchem muitas lacunas no nosso conhecimento.Mérito grande deste blog e da sua autora.António A. Guimarães.

    Gostar

    1. Muito obrigada! Agradeço muito as suas palavras, tão generosas, mas exageradas. Devemos agradecer à história e às estórias em que Portugal é tão fértil. Obrigada!

      Gostar

  6. Quanto à passarola de Bartolomeu de Gusmão, a imagem que todos conhecemos não passa da construção de um mito, em data muito posterior à da experiência feita perante D. João V. A verdadeira passarola não passaria (repetição deliberada…) de um balão que se elevou com ar ou gás aquecido. Dizem…AAG

    Gostar

    1. Quer dizer que a passarola foi “enriquecida” pela imaginação dos historiadores…talvez. Li algures que utilizava campos magnéticos ou algo do género para se elevar, mas também pode ser mito. Confesso que não possuo conhecimentos suficientes sobre o assunto. Obrigada pela achega.

      Gostar

Deixe uma resposta para cempalavras Cancelar resposta