Instantâneos (78): presa por ter cão…

 

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Cavalos e, sobretudo, cães fizeram parte do quotidiano da família real composta por D. Amélia, D. Carlos e os dois filhos, mas as coisas nem sempre são o que parecem. A cena caseira que aqui vemos foi captada em 1909, um ano após o regicídio, e apresenta-nos, a rainha e o já então rei D. Manuel II, no Palácio da Pena. Um e outro foram alvo da encarniçada luta política que censurava praticamente todos os seus passos. Na gíria popular, dir-se-ia que eram presos por ter cão e também por não o ter.

Foi assim com Dona Amélia de Orleãs praticamente desde que pisou solo português, naquele longínquo mês de maio de 1886, com apenas 20 anos de idade.

Passado o estado de graça, a ainda princesa terá sido amada pelo povo que a acolheu e perante cuja pobreza tanto se condoeu, mas seria arrastada para o lamaçal político de uma monarquia em fim de era, em que tudo era criticável e condenável.

“A rainha era católica, logo a maldade fez dela depreciativamente uma beata; a rainha era francesa, pois os belos espíritos a tornaram numa hipócrita; a rainha era uma mulher de impressionante beleza, pois então a calúnia tinha necessariamente de a abocanhar na honra de senhora e de esposa de el-Rei (…); a rainha era mãe enérgica e firme na condução dos filhos, (…) isso mesmo a vilania tinha de a fazer dura e fera para com os próprios filhos; a rainha era caritativa e esmoler, não podia, pois, deixar de ser acusada de esbanjamento e prodigalidade…”. À distância de meio século, foi assim que, numa sessão parlamentar, se resumiu a má língua enfrentada pela família real e que não corria só pela rua, como chegou a ter ecos bem perversos e injuriosos até entre os deputados.

Mas, palavras leva-as o vento, por mais dolorosas que tenham sido quando ouvidas.

As imagens ficam e, nesta, D. Amélia e D. Manuel II, também alvo de grandes infâmias, estão ainda de luto, mas parecem em paz, rodeados pelos três cães de companhia:  Tejo, o grand danois que vemos em destaque; Chamrock, o labrador que recebe festas da soberana, e Box, a cadela irish terrier que, face à pressa e precipitação da saída da família real do País, a 5 de outubro de 1910, escorraçada pela implantação da República, ficaria em Mafra, o que muito entristeceu D. Amélia.

Mesmo entre os animais, a paz era meramente aparente, já se vê.

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Fontes

https://plataformacidadaniamonarquica.wordpress.com/2017/04/06/familia-real-portuguesa-e-os-animais-de-estimacao/

Debates Parlamentares – Diário 008, p. 93 (1965-12-14) (parlamento.pt)

Intervenção do deputado à Assembleia Nacional, José Manuel da Costa.

https://monarquiaportuguesa.blogs.sapo.pt/familia-real-portuguesa-e-os-animais-de-462421

12 responses to “Instantâneos (78): presa por ter cão…”

  1. Avatar de Helena Carvalho da Silva
    Helena Carvalho da Silva

    Muito interessante este apontamento de um momento de grandes alterações em Portugal. Como sempre, muito obrigada Sal da História , obrigada Cristiana.

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    1. Obrigada, minha amiga, pelas tuas palavras e interesse.

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  2. Aproveitando o título deste post, acrescentaria que a família real nos últimos anos da monarquia foi tratada abaixo de cão.

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    1. Em aditamento ao anterior comentário, registo que o post é muito interessante, como já nos habituou. Aag

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      1. Muito obrigada!

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    2. Pois, não deixa de ter razão e foi muito bem escolhida a frase. Obrigada.

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  3. Talvez a paz seja sempre meramente aparente… para todos, mas sobretudo para as figuras públicas que continuam a ser alvo constante de julgamento. Gostei desta partilha.

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    1. E eu gostei muito deste comentário. Obrigada, Isa. Concordo consigo. A felicidade, a paz, são apenas momentos e, frequentemente, como diz, nem o são de forma profunda. Ficam-se pela imagem projetada. As redes sociais agravaram muito esse julgamento público, mas também são poucas as figuras públicas que resistem a uma exposição que depois acaba por se virar contra elas.Um abraço

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  4. Rainha D.Amélia grande mulher e grande rainha. Merece todas as vénias e todas as homenagens que lhe sejam feitas.Rei D.Manuel II o rei que não era para o ser. O patriota que infelizmente viu o seu país pela última vez quando tinha 19 anos por culpa dos assassinos dos republicanos.E nunca se fez justiça.Felicidades para o seu blog é muito bom.

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    1. Tudo o que tenho lido sobre D. Amélia me faz achar que era uma senhora muito digna e que amava verdadeiramente Portugal. Quanto a D. Manuel II, não teve tempo de mostrar que tipo de rei era. Obrigada! O vosso blog é uma constante fonte de inspiração, pelas extraordinárias fotografias que divulga.

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  5. Avatar de simplesmente...

    O regicídio foi um acto extremamente cruel, profundamente injusto, claramente inútil.A República nasceu em banhos de sangue.É no mínimo muito triste…Gostei do seu texto.Abraço.

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    1. Concordo consigo. Não foi a melhor forma de começar a República, que, efetivamente, teve uns primeiros anos muito conturbados. E eu gostei do comentário. Obrigada!

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