Instantâneos (71): enquanto o comboio se despenhava, a Lisboa elegante aplaudia

viagem inaugural comboio.JPG

 

 

À mesma hora que tudo o que era gente importante ou que almejava sê-lo se preparava para abrir a época de ópera no Real Teatro de São Carlos,ponte sobre nrio sever (2).JPG um comboio de passageiros despenhava-se na ponte internacional sobre o rio Sever*, entre Marvão e Valência de Alcântara. Bom, não terá sido bem à mesma hora, porque a velocidade das notícias era muito diferente naquele longínquo ano de 1885 e o acidente tinha ocorrido nessa manhã. A chegada do funesto telegrama às redações dos jornais é que coincidiu com o momento em que os camarotes se enchiam de cetins, veludos e rendas, os artistas ensaiavam pormenores de última hora e crescia a expectativa pelo espetáculo do ano. A informação correu célere em Lisboa, mas o high-life estava demasiado ansioso com a apresentação dessa noite para derramar uma lágrima que fosse pelos infelizes que se anunciava terem perecido na tragédia.

A composição descarrilou porque em plena linha se encontrava um cavalo – pobre e inconveniente equídeo que não deve ter sobrevivido para contar a história, até porque a ponte ruiu parcialmentponte sobre nrio sever (1).JPGe com o acidente. Morreram “apenas” três pessoas, trabalhadores dos caminhos-de-ferro, que provavelmente trabalhavam e viajavam na locomotiva. Houve vários feridos, mas o saldo de mortos foi baixo, explicavam os jornais, porque o rio levava pouca água. Caso contrário, todos os passageiros ter-se-iam afogado.

Já a soirée, no “São Carlos” foi de grande excitação. Regressada dos banhos de termas e de mar com que tinha ocupado o verão, a classe privilegiada estava particularmente expectante com aquela apresentação da soprano italiana Erminia Borghi-Mamo** (na imagem) e o interesse não era exclusivamente cultural.

erminis borghi mamo.PNG

 

É que desde a sua última aparição em Lisboa, a diva havia casado e, para os grupos ociosos, isso era razão mais do que suficiente para que um enorme burburinho pairasse no ar. Será que o matrimónio e recente maternidade lhe tinham estragado a voz? Será que ainda conseguia alcançar as notas mais difíceis? Denunciariam as suas formas a sua nova condição?
Com tantas e tão poderosas dúvidas, nessa noite de 30 de outubro não havia tempo nem disposição para outras preocupações, quanto mais para qualquer emoção pelos mortos e feridos num acidente ocorrido em lugar remoto e onde, certamente, não teria estado envolvido ninguém digno de importância…

 

………………..

*A ponte sobre o rio Sever fazia parte do denominado Ramal de Cáceres, entre a estação de Torre das Vargens, na linha do Leste, e a fronteira com Espanha. Entrou em exploração em 1879 e tinha originalmente objetivos industriais, porque foi pensado para fazer chegar ao porto de Lisboa os fosfatos das minas de Cáceres, mas passaria a receber as viagens de passageiros entre Lisboa e Madrid.
Foi encerrado em 2012, com a circulação do comboio internacional Lusitânia, em itinerário alternativo, a fazer-se pela Linha da Beira Alta.
…………………..

**Ermínia Borghi-Mamo era filha dos também cantores líricos italianos Michele Mamo e Adelaide Borghi. Não espanta, portanto, que tivesse nascido praticamente num teatro, horas após a sua mãe cantar Il Trovatore, de Guiseppe Verdi. A sua carreira durou vinte anos (1873-1893). Em Lisboa, em outubro de 1885, provou, como se tal fosse necessário, que os grandes talentos sobrevivem ao matrimónio e à maternidade.
……………….

Já aqui antes falei de outras noites memoráveis no Real Teatro de São Carlos. Como aquela em que a diva de todas as divas, Adelina Pati, endoideceu Lisboa.

………………

Nota: a primeira imagem, não representa o acontecimento relatado. É meramente ilustrativa da época. Não encontrei qualquer gravura sobre o acidente.

…………………
Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
A Illustração Portuguesa – Semanário – Revista Literária e Artística
2º ano; nº16 – 2 nov. 1885

Biblioteca Nacional em Linha
http://www.purl.pt
Diário Illustrado
14º ano; nº4494 – 31 out 1885

Lisboa, o S. Carlos e Adelina Patti, de Patrícia Moreno, Chiado Editora – jan. 2018

https://www.infraestruturasdeportugal.pt/pt-pt/node/1482

https://greatsingersofthepast.wordpress.com/2017/12/15/erminia-borghi-mamo-mezzo-soprano/

https://en.wikipedia.org/wiki/Erminia_Borghi-Mamo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ramal_de_Cáceres

http://pombaldomarques.blogspot.com/2012/10/ponte-internacional-sobre-o-sever-ramal.html

http://omelhoralentejodomundo.blogspot.com/2015/11/ponte-internacional-do-rio-sever-marvao.html

 

8 responses to “Instantâneos (71): enquanto o comboio se despenhava, a Lisboa elegante aplaudia”

  1. Muito obrigado por mais esta bela história!

    Gostar

    1. Eu é que agradeço!

      Gostar

  2. É possível que não existam mesmo gravuras da época com o acidente. Em revistas como o Archivo Pittoresco, e coisas do género, de vez em quando até se encontram imagens dos acidentes, mas não se parece tratar tanto do acidente, em si, mas do próprio local em que teve lugar; ás tantas, até representam um em Xabregas. Portanto, é provável que as pessoas tivessem pouco interesse em “ver” um acidente tão longínquo da capital…

    Gostar

    1. É verdade. Procurei também em publicações espanholas, mas não encontrei e deve ter que ver com o facto de ter ocorrido em lugar remoto, porque outros acidentes menos relevantes mereceram gravuras. Obrigada!

      Gostar

      1. Como é que se costuma dizer? Há uma expressão para isto… uma expressão relativa a existirem dois Portugais, um para Lisboa e outro para o resto do país…

        Gostar

      2. Eu escolhi viver nessa outra parte, a da paisagem, embora aprecie muito as visitas a p”Portugal”.

        Gostar

  3. Boa tarde.Mais um post muito bem escrito como de costume.A minha mente saltita ao ler este post entre o ramal de Caceresno interior de Portugal e a vida mundana da capital.E claro fiquei a saber da localizaçao do rio Sever.Qq dia fara tres anos o seu Sal da Historia.Parabens sempre pelo q escreve. Cumprimentos A. A.

    Gostar

    1. Agradeço muito as simpáticas palavras. Eu tive alguma dificuldade em saber onde era, efetivamente, esta ponte, porque não conheço nada da zona e também desconhecia o rio. Sim, na próxima semana O Sal da História completa três anos e muito tem a agradecer aos leitores fieis. Obrigada!

      Gostar

Deixe uma resposta para CV Cancelar resposta