Na imprensa (18): pílulas de b(r)uxo

illustracao 5 jan 1920 purgante ideal.JPG

 

Ideais, purificadoras do sangue, refrigerantes e não irritativas. Podem umas simples pilulas reunir tantas qualidades? Podem, sim! As enigmáticas pílulas laxativas Boissy eram tudo isto e muito mais…eram também anti-biliosas, o que quer dizer que ajudavam a evacuar a bílis e a controlar as infeções do fígado e da vesicula biliar.
Este purgante ideal estava muito em voga nas primeiras décadas do século XX, tal a profusão de anúncios em que se apregoavam os seus atributos quase milagrosos, mas não encontramos qualquer referência atual à sua existência.
Quanto à designação – afrancesada, como era expectável na época para valorizar o produto – foi buscar inspiração à palavra boissy, que dá nome a várias cidades francesas e que, por sua vez, quer dizer buxo.
Ora, buxo é uma planta à qual são atribuídas propriedades medicinais pelo menos desde o século XII. Chegou a ser apontada como cura para a calvície, mas também é mencionada como depurativa, para além de colerética (estimula secreção da bílis), febrífuga (combate a febre) e sudorífica (provoca a transpiração). Portanto, tudo leva a crer que a origem do “batismo” destas extraordinárias pilulas seja este.
No entanto, o anúncio refere o uso de saponáceas, que em português de hoje, mas não menos difícil de decifrar, alude à família de plantas dicotiledóneas, lenhosas, que inclui árvores, arbustos e lianas da flora tropical.
Como a imagem que acompanha a descrição do produto parece ser um alquimista, um mago ou um bruxo de volta de um insondável caldeirão, só podemos mesmo especular.
Os fabricantes deste medicamento, no entanto, não podiam ser mais sérios.
De facto, as pílulas laxativas Boissy eram comercializadas no nº 237 da rua da Prata, em Lisboa, “casa” do laboratório Vicente Ribeiro & Carvalho da Fonseca, que terá iniciado a sua atividade na década de 20 do século XX. Coube-lhes o pioneirismo em Portugal da introdução da opoterapia, a terapêutica farmacológica baseada em drogas de origem animal. Nos anos 40 estavam entre os laboratórios nacionais produtores de medicamentos com penicilina e, na década seguinte, foram responsáveis pela edição das Farmacopeias Portuguesas, para o 2º Congresso Luso-Espanhol de Farmácia, realizado no Porto, de 11 a 17 de maio de 1952
Naquele mesmo espaço abriu, em novembro de 2018, a loja O´live, dedicada aos azeites Oliveira da Serra.
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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Illustração Portugueza
Nº 724 – 5 jan 1920

http://www.cdf.pt/archeevo/details?id=1002484&ht=farm%c3%a1cia

https://pt.wikipedia.org/w/index.php?search=boissy&title=Especial:Pesquisar&go=Ir&ns0=1

https://pt.wikipedia.org/wiki/Buxo

https://www.apifarma.pt/salaimprensa/Documents/Livro%2075%20anos.pdf
https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/Saponáceas

8 responses to “Na imprensa (18): pílulas de b(r)uxo”

  1. São muito engraçadas estas publicações sobre as diversas “banhas da cobra” que foram surgindo ao longo dos tempos. Não resisti a espreitar a das “Pilules Orientales”, de 13 de junho de 2018, adorei! Boa semana!

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    1. Obrigada Isa. É curioso ver no que as pessoas estão dispostas a acreditar ao longo dos tempos. Também desejo uma boa semana, positiva.

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  2. Quando se trata destes produtos estranhos, que parecem ter sido muito populares numa dada altura da história mundial, há sempre uma questão que permanece – será que funcionavam mesmo? Ou será que, como disse ali a Isa Nascimento, eram apenas a proverbial “banha da cobra”?

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    1. Penso que só experimentando…

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      1. Hum… então, essa parte da pesquisa não foi feita? Encontrar o produto original e prová-lo, a bem da ciência e do público? No mesmo contexto, e mais em termos de brincadeira, podemos contar aqui uma pequena história – há muitos anos estávamos na Grécia, ali na zona de Delfos, e discutíamos a ideia de que a previsão do futuro feita pela Pitonisa assentaria em mascar folhas de louro. Fomos tentar, a bem da ciência, e… não funcionou!

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      2. Mas parece que as folhas de louro tendem a proporcionar alucinações. Já li isso em qualquer lado…Não resultou, mas foi um ato de coragem em nome da ciência que deve ser elogiado. muitos progressos se devem a atos destemidos como esse.

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      3. Sim, essa ideia é muito repetida mesmo nos nossos dias – “chá de louro faz mal”, “louro é cancerígeno”, “louro causa alucinações”, etc. – mas o que é curioso é que ninguém acaba por experimentar. É como aquela bebida que mencionou no outro dia, que supostamente até trazia os mortos de volta à vida… supõe-se que isso não seja mesmo MESMO verdade, mas… sabemos lá, até pode ter sido, tal como as pílulas mencionadas aqui poderiam, verdadeiramente, ter as características miraculosas que prometiam…

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      4. Para qualquer efeito, o principal é acreditar…

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