Instantâneos (61): o primeiro-ministro que morreu em ação

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O que são umas meras linhas publicadas num jornal – por muito venenosas que sejam – comparadas com campanhas de pacificação em África, com a trabalhosa captura de Gungunhana* ou a terrível participação de Portugal na I Grande Guerra**. Aparentemente, são muito mais difíceis de [di]gerir e podem até levar à morte. Foi assim com António Maria Baptista, militar que valorosamente enfrentou tantos combates, mas não resistiu sequer a três meses como presidente do ministério, morrendo em pleno Conselho de Ministros.

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Tinha apenas 54 anos e a governação já não lhe era estranha. Havia sido ministro da Guerra e do Interior, com espinhosas tarefas entre mãos, desde logo conter as incursões monárquicas e manter a paz pública num período de grandes tumultos e sobressaltos.

Em 1920, tinha pela primeira vez assumido o cargo atualmente equivalente ao de primeiro-ministro.

Conteve o início de uma suposta revolução bolchevique, fechou alguns sindicatos, mas não teve tempo de mostrar que o mais conseguiria fazer.

A 6 de junho, logo após ler uma carta publicada no jornal O Popular, foi acometido por uma apoplexia fatal.

Os jornais, que na véspera lhe mordiam os calcanhares, desdobraram-se em elogios, logo após o funesto desenlace. Nessa versão adocicada pela morte prematura, António Maria Baptista seria o homem certo no momento exato, encarregue de pôr ordem na casa e desmobilizar as constantes greves que paralisavam o País.
A sala do Conselho de Estado foi transformada em câmara ardente.
Os dias seguintes foram marcados por numerosas cerimónias de homenagem em que as qualidades do defunto foram elevadas aos píncaros.
Cumpriu-se o ditado: se queres ser bom, morre ou vai-te!

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O documento que provocou tão infausta reação em António Maria Baptista teria sido publicado no jornal O Popular, então dirigido por Francisco Pinto da Cunha Leal, que também chegaria a presidente do Ministério, em 16 de dezembro de 1921. Ironicamente, também não aqueceria o lugar, porque o governo a que presidia caiu a 7 de fevereiro.
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*Já aqui antes falei de Gungunhana e da sensação que foi a sua chegada a Lisboa.

**Também já falei aqui da participação de Portugal na I Grande Guerra, das suas tristes consequências e da tragicomédia escrita sobre o assunto.

O mesmo sobre as campanhas portuguesas de pacificação em África.

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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
Jornal A Capital
1ºº ano; nº3532 a nº3571 1 a 30 jun 1920
Illustração Portugueza
II Série; nº746 – 7 jun 1920
II Série; nº747 – 14 jun 1920

http://www.politipedia.pt/governo-de-antonio-maria-baptista-ramos-preto-1920/
https://www.infopedia.pt/$antonio-maria-baptista
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Maria_Baptista

 

8 responses to “Instantâneos (61): o primeiro-ministro que morreu em ação”

  1. Mas… mas… qual foi a carta que ele leu, afinal de contas? O que dizia ela? Isso é super importante, devia ter colocado um link para isso aqui!

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    1. Isso era se eu tivesse encontrado! O problema é que encontrei numerosas referências à dina, mas não a própria. Se encontrar, por favor, diga-me onde está, que eu adorava ler. E bem que procurei. Obrigada!

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      1. Não estava essa carta no dia 5, ou 6, do jornal? Ou a dificuldade é encontrar essa edição do jornal, em si? Ou será que elas existem, mas não contêm nenhuma carta?

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      2. Olá! Pois, eu não consegui encontrar essa edição do jornal. Se a tivesse encontrado e visto que não tinha a carta, teria contrariado a versão que dá conta que a morte se deveu à mesma. Na restante imprensa que li, desses dias, também não encontrei citações do aludido texto. Mistérios…ou “mitos” urbanos.

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      3. Hum… vamos ver o que se arranja, mas não prometemos nada!

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      4. OK. Obrigada.

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  2. Será que existiu conselho de ministro? Morreu ás 6 da manhã.O que se passava na época, 1921, foi retratada na série da RTP 2021 noite sangrenta.Existe um retrato de Portugal nessa na data da morte do Sr Coronel feito pelo Correio da Manhã do Rio de Janeiro, pelo que tudo era possível.

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    1. Olá, muito obrigada pelo comentário. Não tenho informação sobre a hora a que morreu, apenas que foi durante o Conselho de Ministros, tendo o seu corpo sido transferido do seu gabinete para uma sala mais ampla onde ficou logo em câmara ardente e onde lhe foram prestadas as últimas homenagens. Portugal era um País muito tumultuoso e complicado nesta época.

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