
António dos Santos da Benta, homem do mar. Pobre, miserável mesmo. Viúvo com quatro pequenas mas famintas bocas para alimentar, sem iniciativa ou possibilidade de procurar novas paragens onde o trabalho árduo e a grande coragem que muitas vezes demonstrou proporcionassem mais do que a difícil sobrevivência da família. O pescador saiu fugazmente deste anonimato vivido por tantos da sua condição, porque se fez às águas para salvar 35 vidas, quando outros se quedaram na areia, aceitando a fatalidade de ver afundar mais um barco carregado de pescadores, já chorados pelos que à tragédia antecipada assistiam.
Foi no dia 18 de setembro de 1876, na Costa Nova do Prado, a duas léguas de Aveiro, cidade onde António tinha nascido 37 anos antes e sempre havia vivido. À vista da praia, sem leme operacional, a embarcação ficou à mercê da ondulação que arremessava, alagava e desesperava quem ali se via impotente.
Em terra, António da Benta pega na ponta de uma corda e, intrepidamente, enfrenta as vagas, arrisca a vida e não hesita em mergulhar para prender o gancho do cabo que levava à argola submersa na proa do barco em apuros, o que permitiu depois puxá-lo em segurança até à margem, por entre uma incrível borrasca e um clamor de gritos aflitos que o mar não calava.
Esta ação heroica mereceu uma medalha de ouro, como distinção pelo mérito, filantropia e generosidade, atribuída pelo rei D. Luís I a António da Benta que, na mesma época, recebeu diploma de sócio benemérito da Associação de Instrução Popular de Coimbra e uma recompensa de 25$000 reis, entregue pelo filantropo Simeão Pinto de Mesquita.
António da Benta de nada estava à espera, chegou a confessá-lo a um companheiro de faina, até porque não era novato em ações heroicas. Simplesmente estava-lhe no sangue não ficar de braços cruzados quando os seus atos podiam fazer a diferença, já chegava quando nada podia fazer, como quando perdeu a mulher e um dos filhos – o único menino – mercê da tuberculose que os minou.
Antes de ter salvo as 35 vidas na Costa Nova do Prado, já ele havia demonstrado temeridade e conhecimento suficientes para conduzir fora da barra de Aveiro um navio em condições extremamente difíceis. Menos de dois meses após a proeza relatada, salvou mais cinco tripulantes do Rosina, conseguindo levar-lhe um cabo vaivém que resgatou aquela embarcação em risco.
António da Benta vivia com grandes dificuldades, sem ajuda para criar a prole numerosa; entre os verões numa companhia de pesca de mar de 200 homens e os invernos pescando no rio.
Não sabemos se estes salvamentos e o consequente interesse público modificaram a vida deste homem e das suas filhas. Se a tornaram mais fácil e leve, menos sofrida, com mais futuro…porque nunca mais se ouviu falar de António dos Santos da Benta.
Fontes
Biblioteca Nacional Digital
http://www.purl.pt
Diário Illustrado
Ano 5º; nº1343 – 21 set. 1876
Ano 5º; nº1356 – 06 out. 1876
Ano 5º; nº1378 – 01 nov. 1876


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