(26) Instantâneos: a manteiga do presidente

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Um presidente da República em cima de uma lata de manteiga é uma imagem no mínimo inusitada, mas é isso que nos apresenta este divertido postal, caricaturando Bernardino, com a legenda “Um machado para a monarquia e um achado para a República”, quiçá aludindo ao escorregadio da manteiga, característica comum a muitos políticos.
Duas vezes presidente da República Portuguesa (1915-17; 1925-26) e ministro em 13 ocasiões, Bernardino Machado viu-se industrial de laticínios, precisamente em 1910, ano da implantação da República e em que assumiu, à vez, as pastas dos Negócios Estrangeiros e do Interior.
Por morte do sogro, o conselheiro Miguel Dantas, Bernardino Machado e a mulher, Elzira, herdariam a primeira fábrica de manteiga do País, sendo essa ligação ao apetitoso produto de barrar o pão que se quer parodiar neste grafismo de Francisco Valença.

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A Fábrica de Laticínios de Mantelães, Paredes de Coura, criada em 1891, inaugurou uma indústria que se expandiria imenso nos anos seguintes, fazendo uso das novíssimas desnatadeiras centrífugas.

A firma seria um exemplo de racionalização de recursos até nos nossos dias: utilizava a força motriz das águas do rio Coura, tinha uma secção onde produzia as próprias embalagens e outra de criação de porcos, alimentados em parte com o leite desnatado, que assim tinha aproveitamento. Uma nascente de água canalizada para as instalações proporcionava arrefecimento às natas e ainda servia para lavagem dos utensílios.
Diga-se que terá sido naquela mesma fábrica que se fizeram das primeiras experiências em território nacional para produzir queijo tipo flamengo, mas com pouco sucesso. No entanto, fabricava 70 quilos de manteiga por dia, fornecendo, nomeadamente, os armazéns Grandela; Jerónimo Martins e Alves Diniz.

Fontes
Leite e laticínios em Portugal – digressões históricas, organizado por Jorge Fernandes Alves; L. H. Sequeira de Medeiros e João Cotta Dias; edição Confraria Nacional do Leite, disponível em
https://www.researchgate.net/profile/Jorge_Alves2/publication/304541131_A_Fileira_do_Leite_Em_Perspetiva_Historica/links/578535c408ae36ad40a4bfbb/A-Fileira-do-Leite-Em-Perspetiva-Historica.pdf

 

4 responses to “(26) Instantâneos: a manteiga do presidente”

  1. E o leite era pago ao produtor comm fichas metálicas que “corriam” pelo concelho de Coura, Valença e V N de Cerveira como dinheiro corrente aceite no comércio local e no pagamento de jornas e soldadas,

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    1. Caro Álvaro Silva, muito obrigada pelo seu contributo. Desconhecia essa particularidade. Mas, porque não pagavam em dinheiro?

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      1. Avatar de Alvaro Guerreiro Silva
        Alvaro Guerreiro Silva

        Nesses tempos, finais de guerra de 14-18,a fome, a pneumónica e consecutiva bancarrota dos governos republicanos, as revoltas populares em Lisboa, a sopa dos pobres, outras carências. O dinheiro metálico escasseava, a inflação, e a escassez de géneros devorava a economia. O “dinheiro da fábrica de Mantelães” que era a tradução directamente em litros de leite produzidos e entregues pelo lavrador se a placa metálica tinha inscrito 20 isso era o nº de litros de leite que o lavrador tinha entregue. Isso associado á escassez da moeda metálica da Casa da Moeda, levava a que os pequenos comércios locais aceitassem essa “moeda”Mais, tenho algures entre os meus papeis uma senha-nota emitida pela câmara municipal de Vila Nova Da Cerveira (minha terra natal) qu esta emitia para facilitar pagamentos e trocas que seriam rebatidas em moeda corrente quando o banco de Portugal fornecesse a tesouraria da fazenda pública do concelho. O mesmo se passava nos concelhos limítrofes e essa crise fiduciária atravessou todo o país e colónias e foi a principal causa do movimento militar do 28 de Maio de 1926 e da posterior ascensão do presidente Salazar cuja principal obra foi o saneamento e consolidação das finanças públicas, como é conhecido e…ocultado convenientemente pelos políticos pós Abril de 74.Só isto explica e ajuda a entender o porquê das “fichas” da fábrica de Mantelães funcionarem como dinheiro corrente.Cumprimentos e parabens pelo blog que só há pouco redescobri,

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      2. Caro Álvaro Guerreiro Silva, agradeço as explicações. Não sei se isso acontecia em outras terras e com outras indústrias, mas nunca tinha ouvido falar. É muito interessante e, só por si, dava para escrever um post. Pode ser que ainda saia.Agradeço a disponibilidade para partilhar conhecimento e o interesse no blog. Obrigada!

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