(13) Instantâneos: o carro de lixo do Rei

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O desenho retrata uma faceta da – deficiente – higiene pública de Lisboa, no século XIX. Antecipada pelo ruído de uma sineta, passa a carroça para onde os moradores iam atirando os seus desperdícios. Há um homem que varre, mulheres que trazem mais lixo…Não falta até um gato que, faminto, se arrisca em busca de alimentos, fugindo de uma sapatada, e um cão que aguarda alguns restos. O curioso nesta imagem não é tanto o que se vê, mas antes a sua autoria. Quem, em 1856, traçou estas linhas foi o D. Fernando II, então já regente de Portugal – enquanto o filho, futuro D. Pedro V, não atingia a maioridade.

Parece estranho que um monarca – mesmo um tão amante das artes como foi D. Fernando, Duque Saxe-Coburgo-Gotha – tenha dedicado o seu tempo a desenhar um quadro tão cru do dia-a-dia plebeu da Capital, mas assim foi.

Mais estranho parece, quando se sabe que aquele que foi rei de Portugal entre 1837 e 1853 tinha um forte sentido de estética e adorava o belo: Em conjunto com a rainha D. Maria II, tornou-se protetor da Academia das Belas Artes de Lisboa; tomou como missão a defesa do património histórico e cultural do País e era um ávido colecionador obras de arte, como se pode ver no Palácio da Pena (Sintra), que transformou no opulento monumento que conhecemos.

Evitava a política sempre que possível e ficou para a história com o “Rei-artista”, embora este seu desenho tenha como legenda “o poder executivo do pelouro da limpeza”.

No fundo, com a sua mão firme, transformou uma atividade tão sórdida como a recolha de lixo nesta peça de arte que hoje admiramos.

 

 

Fontes:

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Eduardo Alexandre Cunha – PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000841

 

http://www.arqnet.pt/dicionario/fernando2.html

 

6 responses to “(13) Instantâneos: o carro de lixo do Rei”

  1. Cara Cristiana,Gostei bastante deste seu texto.Um abraço.a.lázaro

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    1. Obrigada, Maria Antónia. Tenho a sua opinião em muito boa conta.Um abraço

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  2. Boa tarde.Gostei de saber que tal Rei tao apreciador do belo, veio a traçarde facto, um quadro de tema tao pouco belo.Existe um quadro de grandes dimensoes com a figura deste Rei no Museu da Cidadede Lisboa ao Campo Grande.Mais um instantaneo a apreciar.A.A.

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    1. Mais uma vez, agradeço os comentários. Penso saber de que quadro fala, entre duas portas, o rei ainda muito novo? Obrigada pelas sugestão.

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  3. Boa tarde.Sim e esse o quadro entre duas portas, a caminho de um outro quadrochamado o Sufragio.Sim o rei muito novo com o palacio da pena? ou o castelo? tb representado.A.A.

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  4. As povoações tinham em conta este pragmatismo fisiológico, com os casarios à beira de rios ou outros percursos fluviais, de campo, bosque, claro que quando o casario torna-se mais denso tem de haver soluções para os dejetos… existe a canalização, uma carroça como mostra a gravura, sem isto torna-se perigoso para a propagação de doenças, não é natural. Ainda hoje vemos várias casas por Lisboa e Porto com quintais nas traseiras. Infelizmente já muito reduzidos.

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