O ilustre cientista que sobreviveu a duas tentativas de homicídio

 

 

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 Com nascimento e morte manchados pela bastardia, teve uma vida recheada de êxitos científicos. É citado até hoje em questões agrícolas e pecuárias, mas praticamente desconhecido na sua terra natal. Viveu amedrontado depois de sobreviver a dois atentados.

 

Anes Baganha. Quem é este alcacerense desconhecido na sua terra mas uma das mais importantes figuras do século XIX no que toca às temáticas da agricultura e pecuária? Tão importante, que publicou dezenas de estudos, livros e textos em prosa e poesia, tendo sido homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua de Faro. Que segredos guarda este cidadão multifacetado, que nasceu com o estigma de ser filho ilegítimo e morreu com o trauma deixado por duas tentativas de homicídio? E a sua irmã, que se afirmou como uma das mais proeminantes figuras do ensino primário do Algarve?

Domingos Rodrigues Anes Baganha nasceu a 20 de fevereiro de 1847, na freguesia de Santiago, em Alcácer do Sal. No que terá sido um verdadeiro escândalo para a época, este filho de Luís José Anes Baganha e de Maria da Piedade Baganha, só viria a ser legitimado dois anos depois, com o casamento dos seus pais. De acordo com os registos paroquiais, estes professores primários lisboetas ainda estavam por aquela vila alentejana em 1857, pois ali veio ao mundo a sua filha, Inácia Ludovina. Sabe-se ainda que Domingos ali fez a instrução primária e respetivo exame.

Formou-se em medicina veterinária no Instituto Agrícola e foi nomeado para o primeiro cargo público por Rodrigo Morais Soares – esse mesmo que dá nome à conhecida rua de Lisboa. Coube-lhe originalmente a responsabilidade de escolher os produtos agrícolas representativos de Portugal para a exposição internacional de Paris de 1867, o que repetiria décadas depois e para exibições distintas.

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 Com 20 anos, foi colocado como Intendente Pecuário do distrito de Faro e, nas duas décadas que ali passou, o seu trabalho foi totalmente inovador na pesquisa, sistematização e combate a diversas doenças do gado, tendo editado numerosas obras nessa área, algumas citadas ainda hoje.

Extremamente versátil, Anes Baganha assumiu diversas funções, como veterinário e agrónomo e sempre foi bastante prolifico na produção literária, independentememte do tema. Da sua pena saiu um elevado número de escritos sobre ensino, já que, tendo sido aluno de João de Deus, tornou-se dinamizador do método daquele pedagogo. Fundou várias escolas, contando com a ajuda da irmã, Inácia Ludovina Anes Baganha Leal, apontada como grande defensora dos direitos das mulheres. Ambos foram figuras de proa do ensino na região algarvia.

Escreveu em publicações de ciência, boletins, revistas e jornais; prosa científica e política, destacando-se no movimento republicano.

Redigiu até poesia: entre muitos outros trabalhos, são seus os versos patrióticos “Sempre livres”, contra a união ibérica, expressamente escritos para a inauguração do teatro de Faro, em 1874.

De sua criação é igualmente o artigo “Uma praiada”, mencionado como visionário, porque glorificava as praias algarvias, numa altura em que a sua frequência era ainda muito rara (1886).

Em 22 de setembro de 1887 foi esfaqueado na rua e esteve entre a vida e a morte. O episódio marcou-o de tal forma que, diz a imprensa da época, “nunca mais teve um dia de tranquilidade”, passando a andar armado e sempre “apreensivo e tristonho”. Este estado permanente de ansiedade levaria a que abandonasse o Algarve e assumisse funções em Lisboa.

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 O afastamento não o pôs em segurança, porque, em novembro de 1889, volta a ser agredido, desta vez a tiro, em pleno jardim da Estrela. Valeu-lhe o sangue frio de segurar na mão do atacante, o que fez o disparo atingi-lo apenas no chapéu. Na origem de tão desvairados atos estava uma contenda com José Augusto Coelho Leite Pereira de Castro, tenente de cavalaria que, ao que contam os jornais, estaria perturbado e tinha uma verdadeira obsessão pelo veterinário, perseguindo-o e tentanto por várias vezes pôr fim à sua existência.

Após mais este incidente, continuou a trabalhar com a mesma polivalência, mas em crescente isolamento, também devido a problemas familiares, só conseguindo concretizar o divorcio que há muito desejava já depois da implantação da República.

Morreu em Lisboa, a 4 de fevereiro de 1911, horas antes de casar com a mãe de Maria Regina Ferraz Negrão, a filha que teve fora do casamento e que assim legitimaria, cumprindo o exemplo de seus pais.

 

À margem

O nome Rodrigo Morais Soares é bem mais conhecido que o de Anes Baganha, mas quem passa na movimentada rua sabe quem foi o flaviense ali homenageado na toponímia? O conselheiro Morais Soares era um alto quadro da administração pública e, embora bacharel em medicina, teve especial destaque em cargos relacionados com a agricultura. Fundou a Quinta Regional de Sintra e o Instituto Agrícola. Foi diretor-geral de Agricultura e chegou a dar nome à atual Escola Prática de Agricultura de Santarém. Deputado em diversas legislaturas, acabaria por morrer em Lisboa, em 1881. Polémica quanto baste foi a ideia que lançou em 1859, nas páginas do Arquivo Rural, importante jornal por si criado: defendia a fundação do partido dos agrocratas. Seria o que hoje se denomina de “partido da terra”, na ótica do qual a prioridade deveria ser o fomento da força produtiva agrícola, único garante duma verdadeira autonomia nacional.

Mas isso é outra história…

 

 

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal – Fundo Local

Jornal Pedro Nunes, nº237, 12 fevereiro 1911

 

Biblioteca Nacional Digital

Diário Ilustrado, nº5:626, 05 dezembro 1888

Diário Ilustrado, nº5:739, 30 março 1889

Diário Ilustrado, nº5:966, 13 novembro 1889

 

A Evolução – Semanário Republicano, nº1, 22 janeiro de 1882

 

O Liberal do Pará, nº273, 03 dezembro 1889

http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=704555&pagfis=22050&pesq=&esrc=s&url=http://memoria.bn.br/docreader#

 

www.tombo.pt

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-001-00019_m0038

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-002-00012_m0167

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-001-00019_m0190

 

R1_CD_L1_SL3_PPP062

http://www.ahpweb.parlamento.pt

 

 

 

As origens e desenvolvimento do Ensino em Faro, de José Carlos Vilhena Mesquita

https://sapientia.ualg.pt

 

http://algarvehistoriacultura.blogspot.pt/2010/03/as-origens-e-desenvolvimento-do-ensino.html

http://arepublicano.blogspot.pt/2011/02/annes-baganha-parte-ii.html

http://arepublicano.blogspot.pt/2011/02/annes-baganha.html

https://toponimialisboa.wordpress.com/2014/12/02/a-rua-do-conselheiro-rodrigo-de-morais-soares/

http://www.iscsp.ulisboa.pt/~cepp/cronologias/1859.htm

http://maltez.info/biografia/Obras/archivo%20rural%201959.pdf

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Estúdio Mário Novais in Arte efémera em Portugal / [org.] Fundação Calouste Gulbenkian ; coord. João Castel-Branco Pereira. – Lisboa : FCG, D.L. 2000. – 438 p. : il
ISBN 972-8128-65-7

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/001631

arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

8 responses to “O ilustre cientista que sobreviveu a duas tentativas de homicídio”

  1. Desconhecia totalmente a existência de tão interessante figura.Agradeço mais esta ajuda para o conhecimento das “gentes” de alcácer.Só um reparo; A crónica termina com: “Morreu em Lisboa, a 4 de fevereiro de 1911, horas antes de casar com a mãe de Maria Regina Ferraz Negrão, a filha que teve fora do casamento e que assim legitimaria, cumprindo o exemplo de seus pais.”Ora se morreu antes…

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    1. Muito obrigada pelos comentários. O que eu quis dizer foi que Anes Baganha legitimaria (condicional) se tivesse casado. Não legitimou, porque morreu antes. Aliás, depois houve um processo legal por parte da filha para ver reconhecidos os seus direitos. Não sei se me fiz entender. Obrigada.

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  2. Quando diz que Anes Baganha escreveu um poema contra a “união ibérica”, está a referir-se ao período de 1580-1640 certo?Podia-me dar mais informações acerca do partido dos agrocratas? E já agora, a quinta regional de Sintra ainda hoje perdura?

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    1. Olá Bibliotecário! Desculpe não ter respondido logo, mas este texto já é antigo e tive de ir rever a matéria.Quanto à questão da união ibérica, está certo. É, claro, a união ibérica entre 1580-1640. Trata-se do poema “Sempre livres”, que Baganha escreveu para a inauguração do Teatro 1º de Dezembro, em Faro, e que leu nesse mesmo dia e mês, aniversário da restauração de independência, em 1874.No que diz respeito ao denominado Partido dos Agrocratas, tem este texto do Prof. Adelino Maltez que penso ser esclarecedor sobre o assunto:https://maltez.info/biografia/Obras/archivo%20rural%201959.pdfQuanto à Quinta Regional de Sintra, já não existe com as características com que foi idealizada. Nesse espaço funciona, desde 1939 a Base Aérea nº 1 e, mais recentemente, também o Museu do Ar. Não sei precisar até quando funcionou.Grata pelo comentário e pelo interesse.

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      1. Muito obrigado. Mas por acaso sabe me responder se o partido dos agrocratas chegou a concorrer a alguma eleição durante a monarquia constitucional? Parece-me que não durou muito.

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      2. Não cheguei a aprofundar o tema, mas até penso que nem chegou a ser formalizado mesmo enquanto Partido. Seria uma ideia embrionária para um Partido com preocupações de preservação da natureza, de uso racional dos solos, de arborização do País. Como é fácil de perceber, eram conceitos muito avançados para a época, pois se, lamentavelmente, alguns os acham ainda avançadas para hoje… Desculpe não ter conseguido ajudar mais ao esclarecimento.

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      3. Mas sei que, apesar de já existirem alguns defensores de que Portugal teria que imitar os europeus e portanto “modernizar-se”, havia ainda muita noção que a nação é essencialmente e tradicionalmente rural, é a ideia com que fico ao ler romances da época sejam de Camilo ou Abel Botelho. Foi precisamente no “Barão de Lavos” que ao descrever uma discussão sobre o ainda reduzido número de fábricas por cá ou qualquer coisa do género, as pessoas neste romance comentaram “Mas Portugal é um país rural!”

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      4. E era, mesmo. O problema foi não se assumir isso como algo produtivo e bom – a defender e potenciar – até porque é da ruralidade poderia vir a nossa autonomia alimentar. Enquanto os outros países avançavam na revolução industrial, nós tivemos invasões francesas, a corte no Brasil e uma guerra civil. Tudo isto atrasou muito a indústria no nosso País. Na verdade, atrasou tudo.

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