O crime que manchou a Páscoa de há 100 anos

Há exatamente 100 anos, Lisboa acordava para a inesperada morte de uma conhecida atriz de teatro. O caso apaixonou a opinião pública, que seguiu avidamente todos os desenvolvimentos, verdadeiros e inventados, nos jornais diários, que acabariam por contribuir para encontrar o culpado.

O funeral de Maria Alves foi uma autêntica farsa. Na tarde desse Sábado de Aleluia de 1926, largas centenas de pessoas acompanharam o trajeto do féretro, que saiu da morgue em direção ao Cemitério dos Prazeres. No grupo consternado, seguia o empresário Augusto Gomes, visivelmente emocionado por enterrar a mulher que era sua amante há anos. Um tumulto de ideias devia atropelar-se no seu cérebro: conseguiria escapar impune ao crime cometido? Estaria a ser convincente no seu papel amargurado?

O cortejo foi enorme. Marcaram presença todas as companhias de teatro da cidade, entre coristas anónimas e artistas com renome na praça, como a defunta. É pertinente questionar se os muitos populares ali estavam em homenagem a Maria Alves ou para ver de perto alguma estrela do Parque Mayer.

O Grémio dos Artistas de Teatro chamou a si a organização. Do Porto, veio a mãe e os filhos da desditosa mulher e sobre o caixão colocaram-se muitos ramos de flores. Um, com rosas, lírios e saudades, adornado com fitas roxas e uma dedicatória piedosa à “querida companheira”, atestava a “eterna saudade” de Augusto Gomes, destacava-se dos demais – semanas depois, seria retirado da tumba, por respeito à falecida.

Realizaram-se 16 turnos da porta da entrada do cemitério até à sepultura, pelo que era quase noite quando a multidão retirou para suas casas ou para afogar as mágoas em algum botequim.

Para ajudar à emoção e interesse que este caso suscitou nos lisboetas, um homem foi detido durante as cerimónias fúnebres. Um gatuno de cadastro, que se tornou suspeito porque ostentava um arranhão na cara.

Ninguém pareceu reparar que o companheiro da atriz assassinada, que com ela tinha jantado na noite trágica, também tinha marcas no rosto. As longas horas que passou em interrogatórios no Governo Civil de Lisboa, sendo sempre libertado, pareciam fortalecer a ideia de inocência que queria transmitir.

Durante vários dias, os jornais davam eco às numerosas teorias sobre a violenta morte da atriz. A autópsia provou que tinha sido estrangulada e tinha dado luta. Logo se pensou se seria obra de um “gravateiro” ávido das joias que usava ou um ato passional de um amor abandonado na cidade do Porto?

Teria morrido mesmo ali, onde foi encontrada, na madrugada de 31 de março, na rua Francisco Foreiro, ou transportada do local do crime, como indicavam as provas? Quem seria o homem que deu o alerta por ter encontrado o corpo e onde andava o sapato que lhe faltava?

A polícia ouviu dezenas de pessoas, entre antigos colegas da diva dos palcos, vizinhos desta e do empresário Augusto Gomes, moradores nas imediações. Os jornalistas também se desdobravam em entrevistas e, pelo caminho, acusavam a polícia de inércia e incompetência.

À medida que o tempo passava, as críticas subiam de tom.

Não faltavam temas interessantes nas notícias, mas era este o caso que apaixonava a opinião pública e os jornais tudo faziam para chamar a atenção do público.

Competiam ombro a ombro para manter os leitores interessados e encontrar o culpado. Era a verdadeira novela da vida real a acontecer.

Seriam precisamente os jornalistas a dar importantes pistas à polícia, que conduziriam ao chauffer do táxi onde Maria Alves havia sido assassinada, o conhecido táxi 9297, e à prisão do empresário, que acabaria por confessar.

Os ciúmes eram o principal motivo de discórdia entre o casal e seriam o argumento de Augusto Gomes, que premeditou o crime. “Fiz o que qualquer homem de bem faria. Matei-a porque confessou que me atraiçoara…”, justificou-se.

O julgamento, iniciado 20 meses depois, seria outro circo, onde não faltaria até a mulher atraiçoada, mas firme junto do marido, Miquelina, a “legítima” do criminoso.

Foi inicialmente condenado a 25 anos de degredo*, após sessões com a sala do tribunal mais cheia que certas estreias de Maria Alves.

À margem

O caso foi o mais mediático possível para a época. Para além de páginas e páginas de jornal, o assassinato de Maria Alves daria ainda lugar a pelo menos dois livros, uma peça de teatro e um filme, este pela mão de Reinaldo Ferreira, que seria celebrizado como Repórter X, o primeiro, por intuição, a apontar as culpas para Augusto Gomes.

Outro jornalista que se destacou foi António Ferro, que seria o grande mentor da máquina de propaganda do Estado Novo.

Ambos, Reinaldo Ferreira e António Ferro, cada um à sua maneira, ficaram conhecidos pela extraordinária capacidade para construir histórias que entusiasmaram multidões e, no segundo caso, ajudaram a perpetuar o regime.

Até o cego fadista de Vila Velha de Rodão, António Maria, pôs em verso “O grande e orrível crime da actriz Maria Alves, esganada pelo seu própio amigo” (sic). Um folheto vendido a cinco tostões ostentava dois fados – Tumba Fria e Fado da Mardição – que faziam chorar as pedras da calçada ao contar a triste sina de Maria Alves.

Mas isso é outra história…

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*Ao que apontam várias fontes, a pena ficaria depois em oito anos de prisão efetiva e doze anos de degredo.

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Fontes

Artur Portela e Norberto Lopes, O Crime de Augusto Gomes, Lisboa, Tip. Da Empresa do Anuário Comercial, 1927.

Hemeroteca Digital de Lisboa

A Capital, 31.03 a 30.04

Domingo Ilustrado, 11.04, 18.04

Maria Alves (atriz portuguesa) – Wikipédia, a enciclopédia livre

Reinaldo Ferreira (Repórter X) | NewsMuseum

Imagens

Domingo Ilustrado, 18.04, 25.04

Maria Alves (Portuguese actress) – Wikipedia

Maria Alves (atriz portuguesa) – Portugal Memória

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Empresa Pública do Jornal O Século, PT-TT-EPJS-SF-001-001-0002-0523A, PT-TT-EPJS-SF-001-001-0002-0525, PT-TT-EPJS-SF-001-001-0002-0526;

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