A culpa é da querena à italiana

Muitos naufrágios deram-se por puro desleixo no tratamento das naus que transportavam as preciosas especiarias trazidas do Oriente. Em boa parte, muitas perderam-se devido a um suspeito esquema de manutenção inventado em Itália e que os portugueses adotaram cegamente, por pura ganância.

Portugal será, provavelmente, a nação que mais navios perdeu nos séculos de maior expansão marítima e incremento das trocas comerciais com o Oriente. A pirataria, o excesso de mercadoria carregada, erros de pilotagem, as correntes e condições atmosféricas adversas tiveram um papel determinante deste destino, mas a principal causa do triste fado foi a querena italiana. Uma invenção que visava apressar e facilitar a manutenção das embarcações, mas que seria fatal para muitas das nossas naus. Diz o ditado que, depressa e bem, não há quem.

Nos séculos XVI e XVII, a economia portuguesa dependia em grande parte dos produtos que chegavam aos nossos portos vindos de longínquas paragens. Quanto mais depressa as embarcações fossem e regressassem com os porões cheios de especiarias, tecidos e outros luxos exóticos, melhor. Mas, as viagens chegavam a demorar mais de um ano e isso era um grande entrave para quem queria reaver o investimento feito na aparelhagem e tripulação dos navios.

Quando chegavam à índia, depois de tão longa tormenta, as naus precisavam de intervenções profundas que lhes garantissem condições para enfrentar o percurso de volta. A janela de oportunidade era, aliás, muito curta, porque se não se fizessem ao mar numa determinada época, teriam de esperar ainda mais. Então, pensou-se num atalho, num expediente para ultrapassar estas dificuldades.

A dada altura alguém se lembrou que, no Mediterrâneo, os italianos efetuavam operações de calafetagem sem que fosse necessário varar o navio na praia. Faziam-no na água, tombando-o sobre umas barcas e tratando do casco, primeiro de um lado e, depois do outro, ainda de molho.

Em pouco tempo, os portugueses adotaram tão útil ensinamento. O serviço era, amiúde, feito por empreitada, em ritmo acelerado, o que não se compadecia com um trabalho muito escrupuloso.

Basicamente o que faziam era mascarar as mazelas. Isto seria uma excelente tática numa navegação de curta distância, mas para a carreira da Índia foi uma verdadeira sentença de morte para milhares de marinheiros e passageiros, com prejuízos brutais para os armadores e o Estado.

Nem o facto de praticamente todas ostentarem nomes de santos, fez com que se salvassem as naus tratadas desta forma.

 Assim que o mar lhes dava algum abanão mais forte, a estopa, que não tinha aderido convenientemente à madeira húmida e apodrecida, soltava-se e deixava o costado verdadeiramente exposto e frágil. Facilmente se desconjuntavam e afundavam, levando para o fundo a rica carga que tão avidamente se queria ver chegar a Lisboa

A deste desleixo deliberado juntou-se, a dada altura, o aumento desmesurado da dimensão dos próprios navios que, assim, embora aumentassem a sua capacidade, tornavam-se alvos mais fáceis, perdiam capacidade de manobra e, com isso, mais facilmente naufragavam.

Frequentemente, a carga era excessiva, vinha mal-acondicionada e as armadas, em vez de se manterem unidas, apoiando-se e defendendo-se mutuamente, separavam-se por impetuosidade dos seus capitães, que queriam ser os primeiros a chegar e tirar proveito dessa corrida. A ousadia, claro, saía cara.

A urgência de lançar embarcações neste lucrativo transporte também alargou a incúria à escolha da madeira – cortada em época desajustada – e ao próprio cuidado na construção naval. É assim que alguns galeões e naus chegavam podres logo ao fim da primeira viagem e se iam ao fundo, sem chegarem a render aquilo que tinham custado a montar.

Triste fado, não é?

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PS: curiosamente, apesar e tão longa e produtiva história de naufrágios, não é fácil encontrar imagens – pintura, por exemplo – sobre o desaire de navios portugueses desta época.

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Fontes

Rodrigues Lapa (seleção, prefácio e notas, Quadros da História Trágico-Marítima, 4ª edição, Gráfica Santelmo, Lisboa, 1963.

 Bernardino Cadete (organização), V Simpósio de História Marítima – A Carreira da Índia, Atas, Academia de Marinha, Lisboa, 21 e 23 outubro 1998,   2003.

Imagens

O Livro de Lisuarte de Abreu (1565)

O naufrágio,  Ivan Konstantinovich Aivazovsky, O naufrágio de Ivan Konstantinovich Aivazovsky em póster, tela e muito mais | Posterlounge.pt

Naufrágio, Humberto Marçal, Naufrágio – Gravura, Água-forte, Água-tinta – Marçal, Centro Português de Serigrafia.

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