
O monumento conta a tragédia que ali ocorreu em novembro de 1833, mas tem gravados nomes que, soube-se mais tarde, conseguiram escapar com vida ao massacre. Catorze anos depois, as ossadas dos desgraçados ainda se encontravam espalhadas pelos campos.
João da Costa Passos nem queria acreditar quando os seus trabalhadores lhe contaram o que haviam encontrado quando lavravam as terras para as próximas sementeiras, na Herdade de Algalé, ali a meio caminho entre Alcácer do Sal e o Torrão. O macabro achado era constituído por dezenas de caveiras e outros ossos humanos que então se puseram à luz do dia.
Não foi muito difícil chegar-se à conclusão que tais despojos deveriam pertencer a um grupo de militares que, 14 anos antes, contava-se, tinham sido fuzilados sem dó nem piedade por aquelas paragens, no que ficou conhecido como o massacre de Algalé.

Foi um dos episódios mais brutais da guerra entre absolutistas e liberais, que dividiu o nosso País durante dois anos, opondo, respetivamente, os defensores de D. Miguel e os partidários da Carta Constitucional e de D. Pedro. Tudo aconteceu logo após a chamada Batalha de Alcácer do Sal, durante a tenebrosa noite de 4 de novembro de 1833.
Dois dias antes, 1500 homens das forças liberais, liderados pelo Tenente-Coronel Francisco de Paula Botelho de Moraes Sarmento, mal treinados e pior equipados, foram derrotados pelas tropas absolutistas, chefiadas por José António de Azevedo Lemos.

Enfrentaram-se na zona da Barrosinha, às portas de Alcácer do Sal. Os absolutistas mostraram a sua superioridade, empurrando os adversários em direção ao rio, que em vão tentaram atravessar.
A maior parte dos homens ficaram atascados no lodo ou morreram afogados logo ali.
Os que foram feitos prisioneiros distribuíram-se segundo as patentes que ostentavam – soldados para um lado e oficiais para outro – pelos edifícios da cadeia e do grande armazém que era então o espaço onde hoje se situa o Arquivo Municipal, junto à praça da vila.
No dia seguinte, amarrados uns aos outros, foram obrigados a seguir caminho. Eram cerca de 450, mas enquanto os praças seguiram para Campo Maior, os militares de mais alta importância foram conduzidos em direção a Beja. Pernoitaram em Porto Rei e continuaram até à zona de Algalé.
Aí, foram barbaramente executados. Um a um, viram os seus companheiros tombarem e agonizarem no chão, enquanto eram atingidos por um pelotão de seis soldados absolutistas. Foi uma carnificina.
É provável que ainda estivessem vivos quando foram enterrados, praticamente à superfície, porque não havia tempo nem disposição para abrir uma vala suficientemente grande para acolher 26 pessoas. É possível que tivessem acabado devorados pelos animais selvagens – nomeadamente lobos – que existiam por estas paragens.
Quando, em meados de 1847, as ossadas foram encontradas, João da Costa Passos e o pároco de São Romão do Sadão, Joaquim de Santa Maria Lopes, entenderam que os restos mortais deveriam ser sepultados em solo sagrado, pois a sua permanência naquele local não honrava a memória daquelas pessoas.
Pediram autorização ao Governador Civil do Distrito de Lisboa para assumir essa tarefa e tal pretensão foi concedida.
Acontece que, nem na igreja de São Romão, nem no cemitério local encontrei evidência desse enterramento, pelo que tudo aponta para que tenham sido reunidos todos numa vala mais funda, sobre a qual se ergueu, anos depois, um obelisco que evoca a tragédia vivida.

O monumento, que ainda ali se encontra, foi durante algum tempo local de romagem, onde até o rei D. Pedro V esteve, prestando a sua homenagem aos que assim morreram na guerra que acabaria por ser ganha pelos liberais, o que fez subir ao trono o seu avô, D. Pedro IV e, logo depois, a sua mãe, D. Maria II.
No obelisco, são as palavras do escritor e poeta António Feliciano de Castilho que resumem a tristeza do se passou:
“Aqui de tua pátria defensores
Tragárão do martirio, inteira a taça!
Viandante, leva as lagrimas e as flores;
Lê só! Dobra o joelho, adora e passa!”
À margem
O obelisco de Algalé tem gravados os nomes de “Diogo José Vieira de Noronha, Corregedor de Beja pelo governo da usurpação e Inácio dos Montinhos, Alferes dos Realistas, pelo mesmo governo”, apontados como os mandantes do massacre. Ali se leem, na pedra manchada pelos anos de exposição ao tempo e às intempéries, os nomes dos 29 desgraçados mortos.
Quando o monumento foi erguido, provavelmente não se sabia que três dos homens que viajavam naquele grupo condenado escaparam à má sorte dos demais, embora um deles tenha igualmente aparecido morto, mas noutro local.
O esclarecimento é dado por um dos sobreviventes, Francisco José de Almeida, que tinha à época 24 anos e, nas suas memórias, conta como tudo aconteceu.
Explica que se salvou porque caiu nas boas graças de Diogo José Vieira de Noronha, apelando a uma antiga amizade em comum. Com ele, escapou também um outro jovem, de apelido Silva, de Alcácer do Sal, porque era filho da família em cuja casa as tropas absolutistas se haviam instalado.
Durante a noite passada em Porto Rei, Noronha deixou-os fugir, até lhes deu dinheiro e um guia que os acompanhou parte do caminho.

A muito custo, famintos, enregelados, feridos pela dificuldade e extensão do caminho que percorreram a pé, conseguiram chegar a Setúbal.
O outro nome erradamente gravado é o de Deodato Zuzarte de Mattos, que terá sido assassinado à facada pelo próprio Noronha, noutro ponto do caminho.
Essa é, pelo menos, a convicção do escritor Raimundo de Bulhão Pato (na imagem anterior), que conta o episódio num dos seus volumes de memórias.
Quem somos nós para duvidar?
Muito há, aliás, para explorar nas memórias deste escritor…
Mas isso são outras histórias…
Nota: esta história, com muito mais detalhe e informação, pode ser lida no meu livro, “Mas isso é outra história…”, disponível no site do Grupo Editorial Divergência e já em Ebook .
Fontes
Bulhão Pato, Memórias – Homens políticos; Tomo II, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894.
Francisco José de Almeida, Apontamentos da vida de um homem obscuro; A regra do Jogo, Edições, Coleção Reler nº2; Lisboa; mar.1985
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal, PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/03/001
Gazeta de Lisboa nº7, 09.01.1832
Imagens
O obelisco de Algalé, Arquivo Municipal de Alcácer do Sal, AHMALCS-CMALCS-FOTOGRAFIAS-01-0794,
O obelisco de Algalé, Arquivo Municipal de Alcácer do Sal, AHMALCS-CMALCS-FOTOGRAFIAS-01-1267.
Alcácer do Sal – George Landmann, Historical, Militar and Picturesque Observations on Portugal, T. Cadell and W. Davies (impr.) Londres, 1818, Biblioteca Nacional de Portugal.
Batalha de Santarém que põe fim à Guerra Civil entre liberais e miguelistas, 1834, Reprodução da Livraria Duarte de Sousa sobre gravura, Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/NEG/02/N82310.
Raimundo António de Bulhão Pato – Wikipédia, a enciclopédia livre


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