Crónica policial (5) – O marinheiro falsificador, que afinal era um anjinho

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Um insuspeito quarto no número 7 da rua da Rosa, em Lisboa, escondia uma verdadeira fábrica onde eram geradas notas falsas de 20 centavos, que depois eram postas em circulação por uma rede de passadores. Curiosamente, tanto o senhorio como os outros inquilinos do prédio, não suspeitavam do que quer que fosse, nem sequer manifestaram ter ouvido em qualquer momento o som cadenciado que a impressora Minerva Rápida, apreendida no local, certamente produzia enquanto laborava, noite fora. Distraídos, não estranharam igualmente o corrupio de gente que ali circulava, recolhendo dinheiro forjado que depois era dispersado pela cidade e arredores.

As autoridades encontraram 125 escudos em valores contrafeitos e a polícia de investigação decretou que aquele era o equipamento mais completo que ultimamente se havia descoberto em Lisboa, “com mecanismos afeiçoados”, que rivalizavam com a própria Casa da Moeda e Papel Selado.

O imóvel pertencia a Celso Pinto Marques e o quarto estava arrendado ao marinheiro José Ribeiro Barbosa, ambos detidos como principais suspeitos. Ouvidos foram os restantes moradores, bem como o responsável pela empresa que vendeu a máquina impressora.

O senhorio, que os jornais apresentaram como tendo cinco prisões no seu currículo, seria libertado. Segundo afirmou, contra si nada se tinha provado, pois ignorava qualquer atividade ilegal. Acrescentou, em sua defesa, que os antigos conflitos com a justiça haviam ocorrido quando ainda era menor e não tinha consciência da gravidade dos seus atos.

Este caso, no entanto, foi uma gota no oceano da falsificação de notas que por aqueles anos se verificava e que, em conjunto com a emissão de dinheiro de emergência a que o nosso Estado recorria para suprir necessidades inadiáveis, muito contribuía para a situação de desvalorização e desacreditação do escudo português.

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Os jornais davam conta de diversas detenções de passadores e apreensão de notas em vários pontos do País.

Tanto assim foi que o governo decidiu retirar de circulação as polémicas cédulas de 20 centavos, dado o “estado de inquietação dos espíritos” que esta sucessão de acontecimentos provocou e prevenindo “conflitos sérios e perturbações da ordem pública”.

A decisão foi publicada a 8 de abril e pretendia pôr termo a este clima de incerteza quanto à legitimidade do dinheiro.

Determinava-se a entrega de papel-moeda de 10 e 5 centavos consoante as notas “boas” de 20 que fossem recolhidas – na imagem, um grupo de pessoas apresenta-se para fazer essa troca, pouco criteriosa, nas palavras de alguma imprensa.

Ninguém sabia que o pior ainda estava para vir. As quantias até ali apreendidas eram paupérrimas quando comparadas com o enorme escândalo que rebentaria pouco depois, com a emissão de centenas de milhar de notas falsas com a efigie de Vasco da Gama e o valor facial de 500 escudos, fabricadas em Londres numa centenária casa emissora, que fornecia o próprio Banco de Portugal.

Os falsificadores antes falados eram, por assim dizer, uns anjinhos, comparados com esse senhor bem posto, de sua graça Artur Virgílio Alves dos Reis, que, naquele preciso ano de 1925, lançaria o que ficou conhecido como o golpe do século, que lhe daria o título de “maior burlão” nascido no nosso País.

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

A Capital

07.10.1924, 08.10.1924, 14.10.1924, 15.10.1924, 28.10.1924.

 

Diário de Lisboa

03.04.1925, 04.04.1925

 

Diário da República, 08.04.1925

 

Boletim Notas Moedas, 10.2010

 

Texto de Márcio R. Sandoval 

https://sterlingnumismatic.blogspot.com/2013/07/waterlow-sons-impressores-de-papel.html

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Alves_dos_Reis

https://www.infopedia.pt/artigos/$alves-dos-reis

 

Imagens

Domingo Ilustrado

12.04.1925

 

Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Empresa Pública Jornal O Século, PT/TT/EPJS/SF/006/09521

9 responses to “Crónica policial (5) – O marinheiro falsificador, que afinal era um anjinho”

  1. Obrigado, como sempre! E então… o culpado foi o tal José Ribeiro Barbosa? Ou nunca se chegou a descobrir os responsáveis por todo este esquema?E quanto ao “maior burlão”, ele era um menino pequeno se o compararmos com os de hoje em dia. O Sr. Sócrates está ali à espreita na esquina e tudo…!

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    1. Também fiz esse raciocínio, sobre os bandidos de hoje…penso que o Alves dos Reis tem escala até para os tempos que correm!

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  2. Oops! Duas questões não relacionadas:1- Num livro de inícios do século XX, da autoria de Leite de Vasconcelos, o autor diz que a tradição das moças casadoiras escreverem cartas a Santa António, ainda hoje comum em Lisboa, nessa altura também existia em Alcácer. Será que ela ainda tem lugar por aí? Será que foi assim que a “CV” arranjou marido? 2- Porquê “O Sal da História”? Sempre pensámos que fosse uma metáfora, algo como “o sabor da história”, mas devido à prevalência de temas relacionados com Alcácer do Sal, tínhamos de perguntar!

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    1. Olá!!! O Sal da História nasceu dessa duplicidade. A ideia foi mesmo ter as duas interpretações. Ainda bem que consegui! Eu comecei por escrever apenas sobre Alcácer, porque é onde resido e era sobre esta região que tinha mais informação e tenho uma crónica sobre história num jornal local, mas, rapidamente, percebi que os meus interesses eram mais vastos e que tinha de ter um espaço diversificado, como este…Quanto às cartas, desconheço essa tradição por estes lados – o que não quer dizer que não exista, mas não me recordo de ter ouvido falar ou de ter lido sobre o assunto…eu usei outras estratégias para arranjar “marido”: a minha natureza encantadora…

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      1. Obrigado pelas respostas! Se calhar a cidade de Alcácer está agora cheia de moças casadoiras, por terem abandonado a prática das cartas e tal. Nunca se sabe! E quanto ao nome, hahahaha, foi muito bem pensada, a ideia!

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  3. Como já nos acostumou, este artigo tem muito interesse. Desconhecia que tinha havido notas de “notas de 20 centavos”. De facto, “uns anjinhos”, frente à burla das notas de quinhentos escudos de Alves dos Reis.M. Teresa Lopes Pereira

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    1. Querida amiga, muito obrigada por este comentário. Se calhar, é a pessoa indicada para responder à pergunta anterior: tem ideia de existir, em Alcácer do Sal, nas épocas que estudou, a tradição de escrever a S. António para arranjar marido?

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