Crónica policial (2) – Fadistas de navalha em riste e gatunos enluvados

 

estudantina.jpg

As últimas duas noites foram marcadas por tumultos provocados pela fadistagem. Os artistas demonstraram manejar as navalhas tão bem ou ainda melhor do que as guitarras que, por coincidência, estiveram na origem de um dos desacatos ocorridos.

Tudo começou com um despique em que os guitarristas Roberto José da Rocha e Agostinho Cruz quiseram, perante o público, mostrar qual dos dois melhor fazia tinir o próprio instrumento.

O encontro deu-se numa estudantina da qual fazem parte, na rua do Terreirinho à Fonte Santa, na Mouraria (na imagem).

rua do terreirinho.jpg

Como não chegaram a consenso sobre quem era o mais talentoso e, para evitar o confronto, o Cruz abalou em direção a casa, mas o Rocha, ressabiado com a situação, perseguiu-o.

Foi junto ao albergue dos inválidos do trabalho* que se reencontraram e reiniciaram a discussão, tendo o provocador Rocha esbofeteado o rival. Com esta afronta, o Cunha não se podia ficar e respondeu ao soco, engalfinhando-se.

Com fracos argumentos nos punhos, o Rocha sacou da navalha e golpeou o outro no ventre, fugindo do local.

Os gritos do ferido alertaram as autoridades, que ali acorreram. Indo no encalço do agressor, acabaram por conseguir detê-lo.

Resultado: o Cunha foi atendido no Hospital da Estrela e reconduzido ao Hospital de São José, onde o seu estado é preocupante; ao passo que o Rocha foi remetido a juízo, para saber se fica preso ou sai para arranjar mais sarilhos.

Foi, aliás, outro grupo ligado ao fado que fez rebentar mais um distúrbio, desta vez, na rua da Barroca, ao bairro Alto (na imagem).

rua da barroca.jpg

O Fadistinha e o Jayme Coelho – meteram-se com um grupo de soldados de cavalaria que por ali andavam e foi a grande confusão. Os militares desembainharam as espadas e os fadistas empunharam a suas navalhas.

Foi um Deus que nos acuda, enorme algazarra e confusão. Até que veio a polícia. Houve debandada geral, mas depois de alguma correria, alguns dos desordeiros ainda foram parar à esquadra, no meio de grande excitação de quem acompanhou a “procissão” policial.

Mal ou bem, esta arraia miúda que pulula nas cidades, acaba por sentir a mão da justiça, quando ultrapassa a barreira da lei. Os “gatunos enluvados”, por outro lado, por mais que façam por o merecer, parecem, aos olhos do povo, ficar sempre impunes.

Veja-se o caso do recebedor de Ceia, José Lopes Faia, que fugiu para o estrangeiro, deixando um buraco de 12 contos de reis nas contas à sua responsabilidade…e o que dizer do tesoureiro de Évora, do “ladrão da Junta de Crédito Público” e outros recebedores, cobradores, empregados de correio e demais funcionário que mexem em dinheiro que não é seu?

A maioria é apenas mudada de concelho para concelho, encobrindo-se o rasto de desfalques e protegendo-se os seus autores.

Isto, pelo menos, é o que contam os jornais.

 

……………………………

*O albergue dos inválidos do trabalho situava-se na rua Possidónio da Silva, nº 204, na freguesia de Prazeres, no concelho de Lisboa. 

…………………….

As imagens são meramente ilustrativas

………………….

Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal, em linha

http://www.purl.pt

O Paiz, 06.11.1895

https://agc.sg.mai.gov.pt/details?id=574368

 

Imagens

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Estudantina

Ferreira da Cunha, PT/AMLSB/EFC/002158

Rua do Benformoso e rua do Terreirinho

Eduardo Portugal, PT/AMLSB/POR/057722

Rua da Barroca

Machado & Souza, PT/AMLSB/FAN/000806

5 responses to “Crónica policial (2) – Fadistas de navalha em riste e gatunos enluvados”

  1. Obrigado, como sempre! O tema levanta umas boas questões, nomeadamente… será que este tipo de incidentes eram comuns num contexto de fado? Havia, famosamente, aquela associação dessa arte com as prostitutas, com os baixos escalões da sociedade, mas será que os fadistas, as casas de fado, etc, também eram locais problemáticos para quem não os frequentava habitualmente?E também, uma sugestão de tema para o futuro. Será que consegue encontrar o que os jornais da época – 1830-1848 – diziam sobre Maria Coroada e o seu séquito religioso?

    Gostar

    1. Eu é que agradeço! Este tipo de incidentes era comum entre certos grupos ligados a algum tipo de marginalidade. O fado era então algo associado precisamente às classes baixas, embora houvesse vários nobres que, sabe-se, gostavam de frequentar estas tascas onde se cantava o fado. Eram também locais de prostituição ou, pelo menos, alguma libertinagem, e de vinho, que contribuía para acender os ânimos. Enfim, nada que hoje não se passe, já não com fado, mas com outras formas de expressão, certas subculturas urbanas associadas a um certo desenraizamento, a uma vivência à parte. A história acaba por se repetir, com outras personagens e nomes, mas, na génese, repete-se.Quanto à sugestão, que agradeço, parace-me interessante, mas nunca ouvi tal nome. Haverá outro ponto de referência ou alguma data mais precisa para servir de ponto de partida?

      Gostar

      1. Obrigado, como sempre!Quanto à Maria Coroada, o tema está “completamente esquecido”, o que nos levou a escrever sobre isso há uns dias, i.e. https://www.mitologia.pt/maria-coroada-e-cisma-da-granja-do-tedo-633977 . O interessante seria saber-se como ela era vista, ou se era vista de uma forma significativa, nos jornais da época…

        Gostar

      2. FASCINANTE! A sério. Nunca tinha ouvido falar de tal pessoa e até tenho andado a ler sobre esta época e região. Talvez ainda chegue a este grupo. Mas fiquei pasmada com tanta e tão complexa informação. Comparada com estes conteúdos, a mensagem da Vírgem aos pastorinhos parece história de crianças …Depois de ler e procurar tanta coisa, quendo me apresentam uma personagem assim, ainda por cima das épocas sobre as quais mais busco, fico sempre com a sensação de total ignorância, de nada saber. O que é ótimo, porque é sinal que há um mundo de informação para desbravar. Prometo ficar atenta ao nome e darei notícias, se encontrar alguma coisa. Já agora, vale a pena ver a lenda em torno da criação de Granja do Tedo – lugar que desconhecia existir – pode ser que sirva de tema para outros escritos. E muito obrigada pela partilha!

        Gostar

      3. Obrigado! E sim, a lenda de Granja do Tedo, e a história da Mulher-Homem, teve de ficar para outro dia…

        Gostar

Deixe um comentário